{"id":1839,"date":"2013-10-21T00:11:52","date_gmt":"2013-10-21T03:11:52","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/tout-passe-tout-casse-tout-lasse-et-tout-se-remplace"},"modified":"2013-10-21T00:11:52","modified_gmt":"2013-10-21T03:11:52","slug":"tout-passe-tout-casse-tout-lasse-et-tout-se-remplace","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/tout-passe-tout-casse-tout-lasse-et-tout-se-remplace\/","title":{"rendered":"Tout passe, tout casse, tout lasse et tout se remplace"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Olha, ando com um pesadelo recorrente h\u00e1 semanas.<\/p>\n<p>Come\u00e7o sentado num lugar onde sempre desejei estar um dia, ao lado de uma v\u00eanus. Gostoso como birib\u00e1 ao fim da tarde, com direito a caf\u00e9 e internet &#8211; praticamente tudo o que preciso para ser feliz. Num estalo, a luz se apaga. Esqueletos que julgava trancados no arm\u00e1rio reaparecem e me derrubam da cadeira. E a v\u00eanus, convertida num exu misantropo, recita Bukovski: &#8220;um bom poema pode quase tudo, e o mais importante: um bom poema sabe quando parar&#8221;.<\/p>\n<p>Acordo s\u00f3, com um buraco no peito e uma trilha sonora do Ra\u00e7a Negra.<\/p>\n<p>Fiquei dias pensando a insanidade de quem joga no lixo uma coisa essencialmente boa enquanto diz &#8220;nosso tempo j\u00e1 passou&#8221;. Admito que carrego em meu discurso um descompasso, carregado de in\u00e9rcia. Mas seria idiotice acreditar realmente no &#8220;mais do mesmo&#8221;. O tempo passa, as coisas mudam. Inclusive eu, felizmente. Ainda que eu me movimente devagar, \u00e9 imposs\u00edvel ficar parado diante do ritmo que marca a inevit\u00e1vel dan\u00e7a da vida, din\u00e2mica que nos obriga a enxergar, diante de n\u00f3s, todos os caminhos abertos do mundo ao sair \u00e0 rua.<\/p>\n<p>Mesmo assim, h\u00e1 limites. Para uma videolocadora, um zip drive ou uma revistinha com previs\u00f5es do Jo\u00e3o Bidu para 2010, faz sentido cair da cadeira. Agora, para aquilo que valorizo genuinamente, nunca.<\/p>\n<p>&#8220;Ops, cuidado com o nunca&#8221;, refleti, ao abrir o blog, sem nenhuma atualiza\u00e7\u00e3o em 2013.<\/p>\n<p>Blogs nascem e morrem com a mesma velocidade de uma obsess\u00e3o impensada, uma vontadinha moment\u00e2nea. Como aquela crian\u00e7a que insistiu muito por um brinquedinho e quando ganha enjoa logo na primeira semana, desejando outro em seguida. Ou, vai saber, como em uma inten\u00e7\u00e3o positiva &#8211; como naquela primeira e \u00fanica semana de caminhada no parque para manter a forma.<\/p>\n<p>Assim a gente percebe: aquele &#8220;vou fazer&#8221; \u00e9 mais uma das incont\u00e1veis apostas que caem sem parar em nossas cabe\u00e7as, algumas com um estranho r\u00f3tulo, derivado de um filme \u00e1gua com a\u00e7\u00facar: &#8220;essa certeza s\u00f3 temos uma vez na vida&#8221;. Todos os dias a gente apanha algumas delas do ch\u00e3o e adota uma pr\u00e1tica bin\u00e1ria: ou \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>E s\u00e3o tantas as possibilidades, n\u00e3o \u00e9? Ao mesmo tempo, uma pagininha de nome &#8220;blog&#8221; fica insossa rapidamente, d\u00e1 trabalho para manter, parece ultrapassada&#8230; Bem diferente, por exemplo, daquela festa intermin\u00e1vel do Mark Zuckerberg. Fartura de snacks, pilhas de doces melados no chocolate e bebidas servidas a um pre\u00e7o que a gente prefere esquecer como foram pagas. Mas t\u00e1 todo mundo l\u00e1. Uma multid\u00e3o de povo facilmente controlada com bot\u00f5es: &#8220;suma&#8221;, &#8220;joinha&#8221;, &#8220;t\u00f4 flertando&#8221;, &#8220;minha panelinha&#8221;&#8230; Um convite ao mais puro e delicioso desperd\u00edcio.<\/p>\n<p>Em outras palavras: \u00e9 um clique em algu\u00e9m que pode at\u00e9 ganhar mais dinheiro, fazer lindas promessas vazias ou demonstrar incr\u00edvel habilidade na cama em uma noite inspirada. Mas duvido que v\u00e1 telefonar no dia seguinte.<\/p>\n<p>&#8220;U\u00e9, mas voc\u00ea n\u00e3o estava falando em blogs?&#8221; Bom, se voc\u00ea j\u00e1 me viu falar do tema em algum boteco, certamente escutou algo como &#8220;blogs s\u00e3o pessoas&#8221;. Em onze anos perseverando, devagar e sempre, ainda n\u00e3o encontrei lugar melhor para plantar pensamentos e oferecer alguns deles a quem passar. Estas pessoas incr\u00edveis, que se conectaram aqui uma vez ou outra, que me animam a destrancar a porta da frente, aspirar as teias de aranha no teto, ro\u00e7ar o mato no quintal dos fundos e, entre um compromisso e uma procrastinada, botar a cadeira de praia na cal\u00e7ada para contar hist\u00f3rias e acompanhar o movimento.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito de &#8220;movimento&#8221;, o pr\u00f3prio nome do blog, licen\u00e7a po\u00e9tica de um portugu\u00eas errado, se torna ir\u00f4nico ap\u00f3s uma r\u00e1pida circulada por seus por\u00f5es. E esta talvez seja a mais apaixonante das raz\u00f5es para mant\u00ea-lo. O velho MMM mudou de lugar algumas vezes. Nessas idas e vindas, todas as suas palavras foram e voltaram. Est\u00e1 tudo aqui. Hist\u00f3rias que adoro lembrar e outras que j\u00e1 devia ter esquecido. Palpites frugais embalados com ideias que j\u00e1 caducaram. Experimente a sensa\u00e7\u00e3o frustrante de revisitar a si mesmo no hist\u00f3rico daquela rave azul que nasceu livro do ano&#8230; Mod\u00e9stia \u00e0s favas, abro um sorriso ao lembrar que estes arquivos j\u00e1 foram parar em apostilas ginasiais &#8211; isso quando a professora n\u00e3o pede para seus alunos &#8220;interpretarem o autor&#8221;, pra ver se entende alguma coisa.<\/p>\n<p>&#8220;Sim, mas isso a\u00ed parece uma casa de solteiro! Voc\u00ea n\u00e3o cuida!&#8221; \u00c9 bem verdade, e isso tem a ver com o que dizia sobre coisas que caem em nossas cabe\u00e7as, desta vez com os r\u00f3tulos &#8220;urgente&#8221; ou &#8220;importante&#8221; &#8211; ambos tem o mesmo valor infame daquela &#8220;certeza&#8221; vagabunda.<\/p>\n<p>S\u00f3 que ao inv\u00e9s de ignorar ou maltratar o blog por uns dias antes de abandon\u00e1-lo como se fosse o meu brinquedinho da semana, prefiro pensar em como algo realmente s\u00e9rio funciona pra mim. Juntos teremos dias lindos, agitados, especiais&#8230; Mesmo que sejam apenas alguns &#8211; considere que muitos n\u00e3o s\u00e3o felizes nem por um s\u00f3 dia. Em quantidade parecida, vir\u00e3o aqueles momentos chatos, regados \u00e0 TPM, em que tudo sai do ar, azeda.<\/p>\n<p>Mas a sua grande maioria, talvez uns 80% dos dias, ser\u00e3o absolutamente normais. Pessoas visitam, algumas cumprimentam, comentam, compartilham&#8230; Como naqueles em que, ao deitar no sof\u00e1 para esticar os m\u00fasculos do\u00eddos ap\u00f3s um dia cansativo, ou\u00e7o algo como: &#8220;que bom que est\u00e1 aqui, fiz sagu para animar sua noite&#8221;. Simples e doce.<\/p>\n<p>Bem que podia chamar isso de amor. \u00c9 o que sinto por este blog. E quando a rotina faz com que a saudade aperte a n\u00edveis estratosf\u00e9ricos, a gente acaba com ela. Como agora. <\/p>\n<p>Antes de adormecer, mais uma boa dose de Quintana para fugir do pesadelo: &#8220;um poema n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m quando paras no fim, porque um verdadeiro poema continua sempre&#8230; Um poema que n\u00e3o te ajude a viver e n\u00e3o saiba preparar-te para a morte n\u00e3o tem sentido: \u00e9 um pobre chocalho de palavras&#8221;.<\/p>\n<p>Para este blog o tempo passa, satura, quebra e sabiamente reconstr\u00f3i. Assim como em um bom poema, uma declara\u00e7\u00e3o de amor ou qualquer coisa que valha a pena.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olha, ando com um pesadelo recorrente h\u00e1 semanas. Come\u00e7o sentado num lugar onde sempre desejei estar um dia, ao lado de uma v\u00eanus. Gostoso como birib\u00e1 ao fim da tarde, com direito a caf\u00e9 e internet &#8211; praticamente tudo o que preciso para ser feliz. Num estalo, a luz se apaga. 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