{"id":1799,"date":"2012-08-24T13:05:11","date_gmt":"2012-08-24T16:05:11","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/enfia-o-seu-brinde-no-seu-bienal-do-livro"},"modified":"2012-08-24T13:05:11","modified_gmt":"2012-08-24T16:05:11","slug":"enfia-o-seu-brinde-no-seu-bienal-do-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/enfia-o-seu-brinde-no-seu-bienal-do-livro\/","title":{"rendered":"Enfia o seu brinde no seu Bienal do Livro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Voc\u00ea est\u00e1 no sagu\u00e3o de um aeroporto. Apressado, segurando a bagagem, procurando informa\u00e7\u00f5es sobre como fugir do movimento enquanto realiza o check-in. Num piscar de olhos, resplandece uma figura uniformizada, portando uma prancheta e algumas revistas velhas. Como se fosse uma amiga de inf\u00e2ncia que vai embarcar com voc\u00ea, pergunta:<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 pegou seu brinde, mo\u00e7o?<\/p>\n<p>Vamos imaginar que esta situa\u00e7\u00e3o seja in\u00e9dita em sua vida. O pedido \u00e9 tentador. Brinde?! Oba!! Quem n\u00e3o curte brinde?! Ora, \u00e9 gr\u00e1tis!! S\u00f3 um idiota recusaria um brinde, n\u00e3o?! Em minutos, dependendo da performance de quem aborda, \u00e9 poss\u00edvel perceber a trama envolvendo o dito cujo, seus dados pessoais e um n\u00famero v\u00e1lido de cart\u00e3o de cr\u00e9dito. Seu lindo brinde se transforma em uma assinatura de uma revista qualquer. Que deselegante, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Mais intrigante do que a manobra engenhosa para aumentar a performance de um indicador \u00e9 o fato deste discursinho do brinde ainda colar. Devo ter visto esse truque h\u00e1 uns cinco anos. Imaginava que seria tempo suficiente para um bom n\u00famero de incautos entenderem a cilada &#8211; seja pessoalmente ou na voz de um amigo. A explica\u00e7\u00e3o &#8220;ora, se existe \u00e9 porque deve funcionar&#8221;, a mesma usada por vendedores de infoprodutos ao estilo &#8220;ganhe dinheiro f\u00e1cil na Internet&#8221;, revela nossa dificuldade em enxergar o mundo criticamente.  E isso vale para os dois lados desse balc\u00e3o de vendas.<\/p>\n<p>\u00c9 fato que o mercado editorial brasileiro nunca esteve para peixe. N\u00e3o somos necessariamente um pa\u00eds de leitures. Os dados do <a href=\"http:\/\/www.prolivro.org.br\" target=\"_blank\"><b>Instituto Pr\u00f3-Livro<\/b><\/a> revelam que 55% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada leitora &#8211; isto \u00e9, que leu algum livro recentemente. Mais do que isso, o brasileiro em idade escolar (isto \u00e9, quando s\u00e3o obrigados) l\u00ea entre cinco e sete livros ao ano. Fica f\u00e1cil entender o que leva as editoras de livros e revistas tratar seus produtos como algo empacotado para ser divertido e barato. Melhor ainda se tiver lindos brindes.<\/p>\n<p>Isso explica a sensa\u00e7\u00e3o de circular em uma Bienal do Livro no Anhembi. Evento que poderia ser chamado de Sacol\u00e3o do Livro, sem nenhum dem\u00e9rito aos organizadores. Afinal, as inten\u00e7\u00f5es s\u00e3o evidentes: por mais que hajam palestras, lan\u00e7amentos, tardes de aut\u00f3grafo e alguns t\u00edtulos que n\u00e3o se v\u00ea em todo lugar (como no estande das editoras universit\u00e1rias), o que se espera \u00e9 que se venda muito. At\u00e9 por isso, mesmo bagun\u00e7ada e hist\u00e9ria, a Bienal continuar\u00e1 assim. Faz parte do jogo.<\/p>\n<p>Ao menos poderia haver mais espa\u00e7o para atender a esta gama de perfis, desde o jovem leitor oba-oba atr\u00e1s das promo\u00e7\u00f5es em baciada at\u00e9 o pseudo-cult que v\u00ea numa estante herm\u00e9tica um ritual particular. Ou ao menos, para citar um exemplo singelo, algu\u00e9m que avistou o estande da Editora Abril e lembrou: &#8220;puxa, eles costumam lan\u00e7ar cole\u00e7\u00f5es bacanas, como a de culin\u00e1ria brasileira ou aqueles DVDs com os filmes oficiais das Copas. Ser\u00e1 que trouxeram algum estoque para c\u00e1 a pre\u00e7os m\u00f3dicos?&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o consegui me aproximar do estande. Uma morena alta e magra, camisa verde e cal\u00e7as brancas, surgiu em minha frente, sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e1!  Posso aproveitar o fato de voc\u00ea gostar de ler para conversar um minutinho?<\/p>\n<p>&#8220;Uia! Como esta mo\u00e7a simp\u00e1tica e perspicaz foi capaz de adivinhar que eu gostava de ler?&#8221; Enfim, tinha pressa para continuar a peregrina\u00e7\u00e3o pelo pavilh\u00e3o e tratei de adiantar o assunto.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 sei, minha querida. Voc\u00ea quer me oferecer um lindo brinde, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Isso! E voc\u00ea ainda&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Desculpas, n\u00e3o precisa continuar. Voc\u00ea quer que eu assine uma das revistas de voc\u00eas, n\u00e9? Obrigado, mas n\u00e3o tenho interesse.<\/p>\n<p>&#8211; Espera a\u00ed, mocinho. N\u00e3o \u00e9 nada disso. Como \u00e9 mesmo o seu nome?<\/p>\n<p>&#8220;!?&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Cuma?!<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1, n\u00e3o precisa me dizer se n\u00e3o quiser. Mas veja. Eu n\u00e3o estou aqui pra te vender assinatura nenhuma.<\/p>\n<p>&#8220;Ah, v\u00e1!?&#8221; Fiquei realmente curioso para saber at\u00e9 onde iria essa conversa.<\/p>\n<p>&#8211; Mmmhhh&#8230; Ent\u00e3o conte mais.<\/p>\n<p>&#8211; Preste aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem nada de assinatura. Estou aqui engajada numa miss\u00e3o de incentivo \u00e0 leitura, tema permanente nesta Bienal do Livro e que tamb\u00e9m \u00e9 alvo de reportagens na televis\u00e3o, pol\u00edticas p\u00fablicas do Governo&#8230; Bom, essa campanha \u00e9 estimulada por n\u00f3s gra\u00e7as a uma promo\u00e7\u00e3o sensacional, que vai te presentear com algumas destas revistas sensacionais. Olha que legal: elas v\u00e3o chegar na sua casa! E para participar voc\u00ea s\u00f3 precisa ter um cart\u00e3o de cr\u00e9dito da bandeira Visa ou Mastercard&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Ser\u00e1 que ela acredita realmente no que diz?&#8221;. Fiquei alguns segundos em sil\u00eancio, pensando em como aquela criatura foi parar ali. Voltei ao meu tempo de faculdade, \u00e1vido por alguns trocados para gastar no cinema ou lanchonete e, ao mesmo tempo, tendo que pagar o curso. Sobreviver nesse mundo exige sacrif\u00edcios, como se submeter a uma lavagem cerebral para ficar diante de um estande ou trabalhar num call-center de vendas, em troca de cadastros que se convertem em comiss\u00e3o &#8211; injusta diante do pre\u00e7o que se paga por ela.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o&#8230; Deixa eu te explicar. Isso a\u00ed chama-se venda de assinatura. E como te disse, n\u00e3o quero. Tenha um bom trabalho.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio pensar que o interesse em receber uma revista em casa deve partir do cliente ao inv\u00e9s de estar atrelada a um um truque. Da mesma forma que essa vontade, sozinha, n\u00e3o paga as contas. Em algumas horas na Bienal, foram quatro ofertas de brinde &#8211; imagino que tenha sido a m\u00e9dia para cada transeunte, e muitos devem ter mordido a isca.<\/p>\n<p>A constata\u00e7\u00e3o de que todas as editoras de revista recrutaram uma horda de mo\u00e7as com prancheta diz muito sobre as nossas limita\u00e7\u00f5es. N\u00e3o fossemos todos obrigados a passar por isso, pediria gentilmente para meu interlocutor pegar o brinde e responder aquela perguntinha clich\u00ea: o que \u00e9 redondo, tem um furo no meio, come\u00e7a com C e tem duas letras?<\/p>\n<p>Isso, esque\u00e7a o brinde e v\u00e1 ouvir um CD.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea est\u00e1 no sagu\u00e3o de um aeroporto. Apressado, segurando a bagagem, procurando informa\u00e7\u00f5es sobre como fugir do movimento enquanto realiza o check-in. Num piscar de olhos, resplandece uma figura uniformizada, portando uma prancheta e algumas revistas velhas. 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