{"id":1798,"date":"2012-07-17T03:58:29","date_gmt":"2012-07-17T06:58:29","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/a-vida-e-muito-curta-rodrigo"},"modified":"2012-07-17T03:58:29","modified_gmt":"2012-07-17T06:58:29","slug":"a-vida-e-muito-curta-rodrigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/a-vida-e-muito-curta-rodrigo\/","title":{"rendered":"A vida \u00e9 muito curta, Rodrigo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Em julho de 2008, recebi um telefonema. Era um dos assistentes da coordena\u00e7\u00e3o da \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o da UniSant&#8217;Anna, um tradicional centro universit\u00e1rio na zona norte de S\u00e3o Paulo. Era um convite para dar aulas no curso de jornalismo &#8211; ideia da <a href=\"http:\/\/www.anabrambilla.com.br\/blog\" target=\"_blank\" title=\"Quem trabalha muito atualiza pouco o blog\"><b>Ana Brambilla<\/b><\/a>, uma amiga que, como eu, tamb\u00e9m enxerga algo mais em uma sala de aula. Faltavam poucos dias para o in\u00edcio das aulas, mal tive tempo de me preparar para experimentar, pela primeira vez, uma disciplina da gradua\u00e7\u00e3o. Fui apresentado pela ent\u00e3o coordenadora ao pessoal do quarto semestre. Depois, comecei a falar qualquer coisa sobre &#8220;ser aquela a hora de cometer erros&#8221;, antes de explicar meu incompleto plano de voo.<\/p>\n<p>Cada turma tem sua hist\u00f3ria, din\u00e2mica e rea\u00e7\u00e3o conjunta, mesmo diante daqueles estere\u00f3tipos individuais em sua composi\u00e7\u00e3o. Aquele quarto semestre tinha gente fora do contexto, praticamente fazendo turismo. Outros eram quietos, inc\u00f3gnitos: estariam ou n\u00e3o interessados? Uns dois ou tr\u00eas j\u00e1 se comportavam como profissionais gabaritados. Julgavam saber tudo do of\u00edcio, por isso apareciam pouco &#8211; o suficiente para assinar a lista. Tamb\u00e9m tinha a galera do futebol, que ignorava o intervalo para discutir a rodada comigo.<\/p>\n<p>Dentre essas figuras, um sujeito grande &#8211; alto e largo &#8211; e de fisionomia s\u00e9ria foi um dos primeiros a levantar a m\u00e3o, logo naquela estreia, para trocar figurinhas sobre o que estava sendo dito. &#8220;Boa pergunta. Qual \u00e9 mesmo seu nome?&#8221;. Rodrigo, respondeu. Lembro que, em uma dessas interven\u00e7\u00f5es, fiquei na d\u00favida: &#8220;n\u00e3o estou certo a respeito disso, mas pode me cobrar: semana que vem, eu lhe respondo com mais precis\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Com o tempo, j\u00e1 conseguia responder melhor \u00e0 turma. Mais do que isso, era capaz de distinguir quem estava ali em busca de nota e quem esperava algo mais. Rodrigo Cezzaretti era um dos alunos que transformavam uma aula sobre t\u00e9cnicas de reportagem em longos debates sobre o Palmeiras, o \u00faltimo lan\u00e7amento para Xbox, o novo filme do Batman, sua paix\u00e3o por queda de bra\u00e7o (e o fato de j\u00e1 ter competido nessa, mmmhhh, modalidade esportiva), entre outros assuntos muito mais interessantes do que as formas de redigir um lide. Ao final daquele semestre, propus uma divis\u00e3o da sala em quatro grupos, para a produ\u00e7\u00e3o de um produto editorial cujo \u00fanico pr\u00e9-requisito era: &#8220;fa\u00e7am com tes\u00e3o&#8221;. Recebi dois trabalhos bacanas, um muito bom e o <a href=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/revista_auditivo.pdf\" target=\"_blank\" title=\"Tamb\u00e9m tem um dedo enorme da Tarcila Zonaro\"><b>Auditivo<\/b><\/a>. Salvo alguns trope\u00e7os de revis\u00e3o, foi um trabalho altamente profissional. Capitaneado pelo Rodrigo.<\/p>\n<p>Aquela galera seguiu comigo no sexto e s\u00e9timo semestres, mergulhando no jornalismo digital. Mas a essa altura, minha rela\u00e7\u00e3o com o Rodrigo ultrapassava as salas de aula. Em uma dessas noites bacanas, pude conhecer a companhia teatral de seus pais, <a href=\"http:\/\/www.ciadosicones.com.br\" target=\"_blank\" title=\"Um abra\u00e7o bem grande pra Dona Miriam e Seu Roberto\"><b>a dos \u00cdcones<\/b><\/a>, e assistir ao espet\u00e1culo In\u00eas no Teatro Ruth Escobar. Quem nos acompanhava? Ana Brambilla, numa demonstra\u00e7\u00e3o da inexist\u00eancia das coincid\u00eancias: de certa forma, a culpa daquele encontro foi dela. Quer dizer, daquele e de todos os outros que vieram a seguir.<\/p>\n<p>A paix\u00e3o do Rodrigo por jornalismo, games e internet culminou com mais uma de nossas experi\u00eancias: orienta\u00e7\u00e3o de um TCC, a <a href=\"http:\/\/www.bout.com.br\" target=\"_blank\" title=\"Tamb\u00e9m com o dedo da Dani Elias\"><b>revista eletr\u00f4nica Bout<\/b><\/a>, durante 2010. A essa altura, j\u00e1 podemos admitir: dificilmente havia orienta\u00e7\u00e3o. Eram longos papos sobre m\u00fasica, cinema, o iminente fracasso de Dunga na Copa, o desejo inconstante das mulheres, a vida, o universo e tudo mais. Da sala de aula, volt\u00e1vamos juntos para a nossa ZL, onde a orienta\u00e7\u00e3o (ou seja l\u00e1 como queira chamar) prosseguia. Tive o privil\u00e9gio de conhecer sua casa, sua esposa Kamila em uma noite de s\u00e1bado repleta de pizza, WordPress e videogame. A banca final e o inevit\u00e1vel dez contou com a ilustre presen\u00e7a do <a href=\"http:\/\/gamereporter.uol.com.br\" target=\"_blank\" title=\"F\u00e3s do Dolemes, Rodrigo e eu\"><b>David Lemes<\/b><\/a> na avalia\u00e7\u00e3o. Algo que n\u00f3s dois quer\u00edamos muito.<\/p>\n<p>Sempre tratei o Rodrigo como um admir\u00e1vel colega de trabalho, mesmo nesse per\u00edodo acad\u00eamico. Sua transi\u00e7\u00e3o, de estagi\u00e1rio num sindicato a respons\u00e1vel pelas m\u00eddias sociais em uma ag\u00eancia, transformou nossos papos em verdadeiros encontros profissionais: Rodrigo, Ana e eu faz\u00edamos &#8220;mini-barcamps&#8221; no Burger King da H\u00e9lio Pellegrino. No ano passado, em sua comemora\u00e7\u00e3o de anivers\u00e1rio no Pampeana Grill da Anhaia Melo, percebi o quanto era querido. Amigos da inf\u00e2ncia, companheiros de <a href=\"http:\/\/www.castzone.com.br\" target=\"_blank\" title=\"Vai fazer muita falta aqui tamb\u00e9m\"><b>CastZone<\/b><\/a>, parentes&#8230; Al\u00e9m da futura m\u00e3e do Arthur. Aos 31 anos, o futuro papai era querido e feliz.<\/p>\n<p>Nesse semestre, vi o Rodrigo poucas vezes. Tivemos tempo para um encontro regado a KFC na Mo\u00f3ca &#8211; com a Ana, l\u00f3gico. Semanas depois, nos vimos novamente, no encontro dos autores de <a href=\"http:\/\/paraentenderasmidiassociais.blogspot.com.br\" target=\"_blank\" title=\"Adivinha quem organizou estes livrinhos?\"><b>Para Entender as M\u00eddias Sociais 2<\/b><\/a>. N\u00e3o conseguimos marcar outros. Estava tenso, preocupado com o futuro do filho, com as contas a pagar, com os perrengues profissionais&#8230; Mas carregava esperan\u00e7a diante de uma p\u00f3s em m\u00eddias sociais. Vislumbrava uma carreira e tanto como professor. Alegrava-se tanto pelas coisas novas que aprendia quanto por ter visto muitos dos conceitos na faculdade. No come\u00e7o de junho, ap\u00f3s sucessivos e-mails remarcando jantares, escrevi:<\/p>\n<p>&#8220;Amigos, somos um trio afogado&#8230; N\u00e3o quero aqui apontar o dedo em lugar nenhum &#8211; ali\u00e1s, quero, sim. Afinal, que vida \u00e9 essa que escolhemos pra gente, hein? Temos a escolha de compartilhar poucas horas regadas a refrigerante barato e frango frito, mas acabamos por trope\u00e7ar em consequ\u00eancias das op\u00e7\u00f5es que fizemos h\u00e1 alguns dias, semanas, enfim&#8221;.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/cezzaretti170712.jpg\" \/><br \/><i>Ana Brambilla e seus guarda-costas<\/i><\/div>\n<p>Nosso \u00faltimo encontro foi no dia 19 de junho. O Rodrigo foi convidado por outros orientandos meus para gravar uma entrevista sobre os lan\u00e7amentos da \u00faltima E3, entre outras perip\u00e9cias gamers. Nossa carona de praxe teve uma r\u00e1pida alegria: &#8220;acho que d\u00e1 tempo de comer um negocinho no Habibs&#8221;. Eu pedi umas oito esfihas; ele, preocupado com a dieta, comeu s\u00f3 um beirute. Reclamamos dessa vida louca, da falta de tempo para fazer aquilo que gostamos. Contou (e me deixou estarrecido) que driblou a morte numa tentativa de assalto quando deixava o clube de botonismo &#8211; outra de suas paix\u00f5es esportivas.  Compartilhei minha preocupa\u00e7\u00e3o com o esfarelamento do curso de comunica\u00e7\u00e3o da Sant&#8217;Anna &#8211; que s\u00f3 aumentou dias depois, quando fui dispensado de l\u00e1; nem te falei, Rodrigo. Mostrou sua nova aquisi\u00e7\u00e3o, um tablet xing-ling com Android bastante honesto. Combinamos de nos encontrar, no come\u00e7o do m\u00eas, para irmos juntos a Santa Ifig\u00eania e destravarmos meu novo Nintendo Wii. <\/p>\n<p>Talvez j\u00e1 tenha ficado claro, a essa altura: sabe aquela fisionomia s\u00e9ria que vi em agosto de 2008? N\u00e3o era nada, comparado ao tamanho de seu cora\u00e7\u00e3o. Este, inclusive, foi o respons\u00e1vel por pregar uma dessas pe\u00e7as ingratas do destino: na quinta, 28, ele deixou de bater algumas vezes. Passou os \u00faltimos dias na UTI, alternando momentos de lucidez com outros de total serenidade. Dias tensos para quem, como eu, chegou a pensar ao menos uma vez em torcer pelo Palmeiras diante do Coritiba, por pura in\u00e9rcia: a torcida era por ele. Dif\u00edcil acreditar que um sujeito t\u00e3o forte n\u00e3o tenha conseguido vencer essa luta pela vida. Incompreens\u00edvel imaginar que, desde as 22 horas desta segunda-feira, o mundo que conhecemos &#8211; e alguns que s\u00f3 funcionam em consoles baseados em chips &#8211; n\u00e3o contar\u00e3o com sua marcante presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Fica a certeza de que o pequeno Tutu, ao lado da Kamila, vai crescer carregando a mem\u00f3ria de um paiz\u00e3o coruja e amoroso. Fica seu progn\u00f3stico de que, em 2014, o Brasil n\u00e3o ser\u00e1 hexa. Guardamos com carinho a ideia de criar um blog sobre pizzas no Dialetica ou desenvolver a vers\u00e3o para iPad da Bout. Fica a vontade de passar essa noite no Burger King e dizer: &#8220;amigos, ainda bem que tivemos a chance de aproveitar e lembrar de epis\u00f3dios como este; afinal, a vida \u00e9 muito curta&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em julho de 2008, recebi um telefonema. 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