{"id":1797,"date":"2012-04-12T03:28:06","date_gmt":"2012-04-12T06:28:06","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/escolha-uma-forma-de-enxergar-a-realidade"},"modified":"2012-04-12T03:28:06","modified_gmt":"2012-04-12T06:28:06","slug":"escolha-uma-forma-de-enxergar-a-realidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/escolha-uma-forma-de-enxergar-a-realidade\/","title":{"rendered":"Escolha uma forma de enxergar a realidade"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/plantao.jpg\" align=\"right\" \/>&#8220;S\u00e3o in\u00fameras as narrativas do mundo&#8221;. Esta frase, atribuida ao fil\u00f3sofo franc\u00eas Roland Barthes, nos faz lembrar da fragilidade do termo &#8220;realidade&#8221;. Ali\u00e1s, podemos combin\u00e1-la com outra, tamb\u00e9m comum nas salas de aula dos cursos de comunica\u00e7\u00e3o, de apari\u00e7\u00e3o consagrada nos arquivos ppt do autor desconhecido e incerto: &#8220;beauty is in the eyes of the beholder&#8221;. A beleza de algo, a falta dela ou sei l\u00e1 como desejarmos classificar, est\u00e1 nos olhos de quem v\u00ea. Uma combina\u00e7\u00e3o fluida de olhares, engedrada por meio de vari\u00e1veis relacionadas a valores subjetivos e apresentadas pelas linguagens que compreendemos (gestos, escrita, imagem, som&#8230;), comp\u00f5e uma meia d\u00fazia de tr\u00eas ou quatro ideias que podemos batizar, grosso modo, formas complexas da representa\u00e7\u00e3o do que consideramos, eu, voc\u00ea e a sociedade, realidade.<\/p>\n<p>Entendeu? N\u00e3o? Quer que eu desenhe?<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/lentesrealidade12042012.jpg\" \/><\/div>\n<p>Basicamente, \u00e9 poss\u00edvel enxergar a realidade por meio de muitas lentes. Uma das mais interessantes (e antigas) \u00e9 a que nos revelam mitos. Hist\u00f3rias como as contadas numa Gr\u00e9cia em que deuses e semideuses n\u00e3o se preocupavam exatamente com a rela\u00e7\u00e3o entre calote e a exist\u00eancia do Euro. Cuidado para n\u00e3o confundir mitologias com outra forma de percebermos o mundo pautada pela sabedoria do povo: o senso comum. Aquele neg\u00f3cio que, como lembra Duncan Watts, torna poss\u00edvel a coexist\u00eancia de &#8220;o que os olhos n\u00e3o veem o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o sente&#8221; e &#8220;longe dos olhos perto do cora\u00e7\u00e3o&#8221;, entre outras justificativas que costumamos acionar para preencher lacunas quando a situa\u00e7\u00e3o parece incompreens\u00edvel.<\/p>\n<p>H\u00e1 outro tipo de explica\u00e7\u00e3o baseada em hist\u00f3rias fabulosas para explicar quest\u00f5es sem respostas: religi\u00e3o. O que muda em rela\u00e7\u00e3o a mitologias ou senso comum \u00e9 o tamanho da cren\u00e7a, proporcional ao conforto emocional (e algumas limita\u00e7\u00f5es) que ela pode trazer. Uma frase do pesquisador norte-americano Joseph Campbell explica tudo (e um pouco mais) de um jeito simples: &#8220;mitologia \u00e9 o nome que damos \u00e0s religi\u00f5es dos outros&#8221;.<\/p>\n<p>Algumas destas se apresentam como &#8220;o caminho da verdade&#8221;, um neg\u00f3cio que d\u00e1 para desconfiar. A que nos vende &#8220;nada mais que a verdade&#8221;, no entanto, o jornalismo &#8211; ainda que esta categoria possa abusar nas crendices na tentativa de mergulhar na realidade. Quando associamos o termo &#8220;verdade&#8221; a teorias constru\u00eddas por m\u00e9todos rigorosos, temos a ci\u00eancia. N\u00e3o deixa de ser humana como as outras representa\u00e7\u00f5es, e at\u00e9 por isso &#8220;se parece primitiva e infantil &#8211; e, no entanto, \u00e9 a coisa mais preciosa que temos&#8221;, como dizia Albert Einstein. Todas estas manifesta\u00e7\u00f5es mexem com os nossos sentidos &#8211; e aqui cabe a forma de representar o mundo cuja inten\u00e7\u00e3o primeira \u00e9 exatamente o est\u00edmulo dos nossos neur\u00f4nios: a arte.<\/p>\n<p>Enfim. Se voc\u00ea n\u00e0o se desplugou do mundo nesta quinta-feira, deve ter visto o julgamento do Supremo Tribunal Federal diante de um assunto delicado: a possibilidade das mulheres escolherem, sem medo de serem punidas pela lei, abortar a gravidez nos casos de fetos sem c\u00e9rebro. \u00c9 o tipo de debate que permite reunir toda sorte de gente sustentando suas lentes e apontando aquilo que enxergam como sendo a melhor forma de representar a realidade. Nenhuma delas definitiva.<\/p>\n<p>Mesmo entre os magistrados h\u00e1 diverg\u00eancias: desde &#8220;dogmas religiosos n\u00e3o podem guiar decis\u00f5es jur\u00eddicas&#8221; at\u00e9 &#8220;n\u00e3o h\u00e1 garantia de que os conceitos cient\u00edficos sejam est\u00e1veis&#8221; &#8211; num discurso que conseguiu reunir o rebaixamento de Plut\u00e3o, v\u00edrus de computador e beb\u00eas anenc\u00e9falos&#8230; Nos arredores da mesa redonda, protestos a favor da vida &#8211; e, a essa altura, voc\u00ea j\u00e1 percebeu que o conceito de &#8220;vida&#8221; depende do \u00f3culos que estiver usando, da posi\u00e7\u00e3o e do tamanho da janela. Pode parecer simplista (ou algo ligado ao meu senso comum), mas independente do resultado, seria melhor viver num mundo onde as discuss\u00f5es se limitassem ao ato de compreender, respeitar, aperfei\u00e7oar ou, vez ou outra, simplesmente usar um Ray-Ban de arma\u00e7\u00e3o fina e vidro amarelo.<\/p>\n<p>Ah sim, h\u00e1 alguns anos, <a href=\"http:\/\/dialetica.org\/marmota\/aborto-reflita-antes-de-julgar\"><b>escrevi sobre aborto aqui<\/b><\/a>. N\u00e3o mudaria uma v\u00edrgula.<\/p>\n<p>Ah sim, de novo, aceito sugest\u00f5es para uma segunda vers\u00e3o da ilustra\u00e7\u00e3o acima, incluindo sugest\u00f5es para o par de lentes do Direito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;S\u00e3o in\u00fameras as narrativas do mundo&#8221;. Esta frase, atribuida ao fil\u00f3sofo franc\u00eas Roland Barthes, nos faz lembrar da fragilidade do termo &#8220;realidade&#8221;. 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