{"id":1795,"date":"2012-02-02T12:44:00","date_gmt":"2012-02-02T15:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/feliz-1984"},"modified":"2012-02-02T12:44:00","modified_gmt":"2012-02-02T15:44:00","slug":"feliz-1984","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/feliz-1984\/","title":{"rendered":"Feliz 1984"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" alt=\"\" align=\"right\" \/>Sabe quando um comentarista de futebol cai na armadilha de avaliar como est\u00e1 o jogo e cravar algum progn\u00f3stico nos primeiros cinco minutos? Sabemos que \u00e9 burrice soltar um &#8220;o desempenho do time da casa promete&#8221; e ser surpreendido por um gol sem querer dos visitantes aos quarenta do segundo tempo. Mas a frase acaba saindo, com facilidade de tamanho equivalente ao nosso medo do desconhecido. O futebol, assim como a vida, \u00e9 uma caixinha de surpresas. E como \u00e9 dif\u00edcil aceitar isso.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m banquei o tolo ao me esconder no meio do mato a partir dos \u00faltimos dias de dezembro. Quando janeiro deu as caras, soltei um atrevido &#8220;feliz ano da marmota&#8221;, numa alus\u00e3o pouco criativa (e mentirosa) ao dois de fevereiro. Nosso dia de Iemanj\u00e1 tem outro significado em um impronunci\u00e1vel munic\u00edpio <s>canadense<\/s> norte-americano (bem observado, Adriano!) onde um <a title=\"J\u00e1 escrevi sobre isso antes\" href=\"http:\/\/dialetica.org\/marmota\/feliz-dia-da-marmota\" target=\"_blank\"><strong>ritual envolvendo o roedor<\/strong><\/a> prev\u00ea o rigor do inverno local. Creia (ou n\u00e3o) na rainha das \u00e1guas ou no rei do buraco, Bill Murray e Andie MacDowell, sob a batuta de Harold Ramis (o Egon dos Ca\u00e7a-Fantasmas), ainda nos fizeram acreditar que o intervalo de tempo &#8220;da marmota&#8221; \u00e9 aquele no qual a rotina \u00e9 a \u00fanica possibilidade.<\/p>\n<p>Ao dizer &#8220;feliz ano da marmota&#8221;, quis confortar minha mente ao disfar\u00e7ar meu inc\u00f4modo, como se quisesse <a title=\"Ca\u00ed na pegadinha! R\u00e1\u00e1\u00e1\u00e1!\" href=\"http:\/\/marmota.org\/noticia\/?titulo=2012+%C3%A9+o+ano+da+marmota,+aponta+estudo\" target=\"_blank\"><strong>ignorar as surpresas da vida<\/strong><\/a>. N\u00e3o sei quanto a voc\u00ea, mas olho para os \u00faltimos trinta dias e vejo reflexos de um turbilh\u00e3o. Mesmo que elas sejam inevit\u00e1veis, insisti em uma negocia\u00e7\u00e3o com o futuro. Lembrei que, desde as gambiarras no calend\u00e1rio feitas pela Igreja em 1582 e sua ado\u00e7\u00e3o universal ao longo dos s\u00e9culos seguintes, temos uma coincid\u00eancia: os dias do ano se repetem a cada 28 anos. Dessa forma, 2012 segue o mesmo caminho de 1984.<\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/calendario020212.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>A URSS ainda existia&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Eu tinha seis anos naquela virada de ano. A imagem que surge em minha mente \u00e9 a da televis\u00e3o ligada no Viva a Noite (era aos s\u00e1bados), com a Marriete, o Liminha, o Bugalu e a Galinha Azul revezando-se no papel de ponteiros num cron\u00f4metro, at\u00e9 o Gugu desejar felicidades enquanto um &#8220;Feliz 84&#8221; surgia no GC. Foi o ano de inaugura\u00e7\u00e3o da Sapuca\u00ed, e a rec\u00e9m inaugurada TV Manchete mostrou com exclusividade aquele Carnaval &#8211; eu mesmo imaginei, por muito tempo, que aquele M ao final do desfile tinha a ver com a emissora&#8230; Curiosamente, vejam, a passarela do samba carioca passou por uma boa reforma: vai estar diferente, com novas arquibancadas para a festa de Momo dentro de alguns dias.<\/p>\n<p>Claro que as coincid\u00eancias existem apenas diante de quem as veem. As mais evidentes: 84 e 12 s\u00e3o anos bissextos; e tamb\u00e9m teremos Olimp\u00edadas. Em Los Angeles, vimos os sovi\u00e9ticos e outros pa\u00edses socialistas boicotarem os Jogos, numa resposta a aus\u00eancia dos EUA em Moscou. Agora, o boicote vai ser s\u00f3 nosso, por conta de uma briga envolvendo direitos de transmiss\u00e3o &#8211; consolidada justamente nos anos 1980 para garantir a realiza\u00e7\u00e3o de um evento esportivo deficit\u00e1rio e amea\u00e7ado. Resolveram um problema, vieram outros.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro nada daquelas Olimp\u00edadas, apenas do Joaquim Cruz, medalhista nos 400m. Tamb\u00e9m tinha um albinho de capa vermelha da Coca-Cola, denominado &#8220;passaporte para os Jogos&#8221;, com explica\u00e7\u00f5es sobre as modalidades e figurinhas do Pateta. Estava na primeira s\u00e9rie, era aluno da tia Am\u00e9lia. Uma escola nova, como uma folha sulfite prestes a ser rabiscada &#8211; historinha que escrevi no mesmo col\u00e9gio pelos oito anos seguintes. Ainda que eu tenha mudado meu papel na sala de aula, o m\u00eas terminou com uma not\u00edcia incr\u00edvel: uma escola nova, como um tablet de 64Gb esperando por novos conte\u00fados e aplicativos.<\/p>\n<p>Mas voltando. A tens\u00e3o entre URSS e EUA, que estava prestes ao seu auge naquele tempo, remete \u00e0s palavras de George Orwell, escritor que cunhou a express\u00e3o &#8220;Guerra Fria&#8221;. Dizia que o homem destruiria seu planeta por meio de suas armas. Ainda no p\u00f3s-guerra, ao final dos anos 1940, Orwell lan\u00e7ou outra obra, vislumbrando uma sociedade vigiada por c\u00e2meras, controlada e punida pela raz\u00e3o, representada pela imagem aterradora por tr\u00e1s de telas (o &#8220;Big Brother&#8221;). O livro, alusivo a um jeito cruel de acabarmos com o nosso mundo, chama-se 1984.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m em 1984 que o diretor James Cameron exibiu sua vers\u00e3o de exterm\u00ednio futurista nas telonas, com o Arnold Schwarzenegger no papel de andr\u00f3ide. Recentemente, o cinema nos trouxe outro blockbuster, misturando complica\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e calend\u00e1rio maia: 2012. Nova coincid\u00eancia: se naquele janeiro de 84 o povo se engajava pedindo elei\u00e7\u00f5es diretas e aguardava, ap\u00f3s o sucesso da novela Champagne, a estr\u00e9ia da dupla Gl\u00f3ria Perez e Aguinaldo Silva em uma novela (ningu\u00e9m lembra de Partido Alto), nosso janeiro come\u00e7ou com a possibilidade do PT disputar a prefeitura de S\u00e3o Paulo com um vice indicado por um partido amorfo, dissid\u00eancia do PFL &#8211; que, por sua vez, foi dissid\u00eancia do PDS. Adicione o Michel Tel\u00f3, a Mega-gr\u00e1vida de Taubat\u00e9 e o Globo Esporte de S\u00e3o Paulo e Big Brother como entretenimento nas evid\u00eancias do apocalipse e pronto.<\/p>\n<p>Mas enfim. O ano de 1984 n\u00e3o teve s\u00f3 Exterminador do Futuro, mas tamb\u00e9m Hist\u00f3ria Sem Fim (aquele do Atreio), Amor com Amor se Paga (aquele do Non\u00f4 Corr\u00eaa), Loucademia de Pol\u00edcia, Jer\u00f4nimo (aquele justiceiro do sert\u00e3o!) e Ca\u00e7a-Fantasmas (aquele do Harold Ramis). Teve tamb\u00e9m o primeiro beb\u00ea de proveta do Brasil (hoje uma mo\u00e7a bonita de nome Anna Paula Bittencourt Caldeira), o lan\u00e7amento do Macintosh (em um comercial que remete ao Big Brother de Orwell), Serginho Chulapa no Santos e Ayrton Senna na Toleman. Teve ainda uma pedra na ves\u00edcula da minha m\u00e3e, que naquele ano, foi diagnosticada como hepatite&#8230; E impressiona, ao v\u00ea-la passar mal 28 anos depois, uma legi\u00e3o de m\u00e9dicos ainda sofrerem para acharem um diagn\u00f3stico &#8211; descobri o que \u00e9 fibromialgia depois de ouvir falar em reumatismo, dengue, toxoplasmose.<\/p>\n<p>Relembrar as vit\u00f3rias e os desafios tamb\u00e9m \u00e9 viver, enquanto tentamos prever como ser\u00e1 o amanh\u00e3. Passamos, sobrevivemos e aproveitamos por 1984. Que 2012 tamb\u00e9m seja divertido, promissor e surpreendente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabe quando um comentarista de futebol cai na armadilha de avaliar como est\u00e1 o jogo e cravar algum progn\u00f3stico nos primeiros cinco minutos? Sabemos que \u00e9 burrice soltar um &#8220;o desempenho do time da casa promete&#8221; e ser surpreendido por um gol sem querer dos visitantes aos quarenta do segundo tempo. 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