{"id":179,"date":"2008-04-08T23:59:26","date_gmt":"2008-04-09T02:59:26","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/nem-eu-nem-voce-ou-baiana-maldita"},"modified":"2008-04-08T23:59:26","modified_gmt":"2008-04-09T02:59:26","slug":"nem-eu-nem-voce-ou-baiana-maldita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/nem-eu-nem-voce-ou-baiana-maldita\/","title":{"rendered":"Nem eu nem voc\u00ea (ou: baiana maldita!)"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/><b>Salvador (BA) &#8211; <\/b>Minha \u00faltima experi\u00eancia no Pelourinho n\u00e3o tinha sido l\u00e1 muito positiva. Estava passeando com a fam\u00edlia, imaginando que todos iriam sentir a vibe positiva dos tambores, paralelep\u00edpedos e fachadas coloridas do centro hist\u00f3rico de Salvador. Mas meus pais n\u00e3o acharam nada confort\u00e1vel: sentiram-se oprimidos pelos olhares nativos, sedentos por moedas em troca de sorrisos e presentes.<\/p>\n<p>De fato, os habitantes tratam o turista de maneira bastante peculiar, tentando conquist\u00e1-lo com sucessivas abordagens, que quase sempre podem parecer intrusivas. Fico imaginando se meus pais tivessem assistido ao filme &#8220;\u00d3 Pa\u00ed \u00d3&#8221; antes de viajar&#8230; Ainda que fosse um recorte romantizado daquele pedacinho da Bahia, certamente a tal sensa\u00e7\u00e3o opressora seria potencializada ao extremo.<\/p>\n<p>Enfim. Tive a chance de tentar desmistificar essa imagem de uma forma &#8220;hardcore&#8221;: uma caminhada no Pelourinho \u00e0 noite &#8211; isso sim \u00e9 capaz de assustar &#8211; e ao lado do Narazaki, que apesar da baianidade nag\u00f4 nas veias, estampa nos olhos puxados o maior estere\u00f3tipo de um turista. Para deixar a coisa ainda mais emocionante, fomos de \u00f4nibus, desembarcando na soturna Pra\u00e7a da S\u00e9.<\/p>\n<p>Tinha certeza de que n\u00e3o levaria muito tempo para surgir um nativo, como por encanto, soltando o clich\u00ea &#8220;sorria voc\u00ea est\u00e1 na Bahia&#8221; e amarrando uma fita do Senhor do Bonfim, essa esp\u00e9cie de &#8220;spam f\u00edsico soteropolitano&#8221;. Batata. Foi s\u00f3 encostar no muro ao lado do Elevador Lacerda para uma baiana estranha brotar do nada, desejando boa noite.<\/p>\n<p>Ela devia ter uns trinta e poucos anos, mas as marcas da vida lhe davam pelo menos mais uns dez. Faltava alguma coisa entre as manchas escuras em seus dentes incisivos. Carregava uma por\u00e7\u00e3o de badulaques t\u00edpicos, e foi logo pendurando um no meu pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 do Olodum, eles v\u00e3o tocar hoje. Nem eu nem voc\u00ea, calma, fique tranquilo. Isso aqui \u00e9 um brinde. \u00c9 de cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Logo depois, amarrou a fitinha-padr\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Tem que ser baiana pra fazer isso. Muito ax\u00e9. Nem eu nem voc\u00ea. Hoje \u00e9 meu anivers\u00e1rio, visse? N\u00e3o esquece dos pedidos. Paz, amor e sa\u00fade, n\u00e9?<\/p>\n<p>Percebi que essa lorota das fitinhas definitivamente n\u00e3o funciona. Meus tr\u00eas pedidos eram &#8220;fa\u00e7a sumir essa senhora imediatamente&#8221;.<\/p>\n<p>Ela ficou ali, e passou a oferecer correntes prateadas (deve ser lata), com diversos pingentes, hmmmm, t\u00edpicos.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas n\u00e3o gostam de tumulto. Eu sei chegar nos turistas. Chego l\u00e1, fa\u00e7o um agrado, que nem o casal ali. Queriam que eu levasse eles no Pel\u00f4, sacum\u00e9, tinham medo e tal. Agora olhe, pra me ajudar. Estou gr\u00e1vida, visse? Esse \u00e9 o agog\u00f4, e aqui um de berimbau, tamb\u00e9m da capoeira. Nem eu nem voc\u00ea. Aqui \u00e9 a baiana, um s\u00edmbolo. Eu sei o que eu to fazendo, sou do terreiro da m\u00e3e menininha, \u00f3ia a guia aqui.<\/p>\n<p>Logo anunciou a extors\u00e3o. A correntinha com berimbau custava R$ 20. As outras, R$ 15 cada.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe aqui, essas duas por quinze, mais essa por vinte, mais essas fitinhas aqui. Nem eu nem voc\u00ea. Preciso comemorar meu anivers\u00e1rio. Voc\u00ea \u00e9 br\u00f3der, gostei de voc\u00ea. Agora some a\u00ed, quanto d\u00e1 essas aqui?<\/p>\n<p>Narazaki, despretensiosamente, disse: &#8220;quarenta&#8221;.  Eu confirmei, tentando disfar\u00e7ar o cinismo. A tia se perdeu nos c\u00e1lculos e sacou mais duas correntes vagabundas.<\/p>\n<p>&#8211; Tenha calma, fique tranquilo. Nem eu nem voc\u00ea. Fa\u00e7o todas essas aqui por quinze.<\/p>\n<p>J\u00e1 estava quase topando a pechincha, at\u00e9 que a louca se recomp\u00f4s: queria ter dito &#8220;cada uma por quinze&#8221;. Era dif\u00edcil se livrar dela. Narazaki at\u00e9 que conseguiu: &#8220;eu moro aqui&#8221;, afirmou. Eu n\u00e3o tive a mesma sorte.<\/p>\n<p>&#8211; Vou fazer o seguinte. N\u00e3o tenho muito dinheiro comigo, vou ver aqui as notinhas que me sobraram e a gente escolhe aqui quanto pode ser, tudo bem?<\/p>\n<p>A maluca se desesperou. Botou mais uma correntinha e outras tr\u00eas ou oito fitinhas no bolo. E tome nem eu nem voc\u00ea, n\u00e3o sei o qu\u00ea n\u00e3o sei o qu\u00ea compra logo essa porcaria por quarenta reais.<\/p>\n<p>Imaginava que tivesse pouqu\u00edssimas notas na carteira. Est\u00fapido: a maior delas estava bem vis\u00edvel:<\/p>\n<p>&#8211; Ali! Cinquenta! Tem cinquenta ali! Tome, segure dez. \u00c9 seu. Nem eu nem voc\u00ea. Tome mais fitinhas. Tem muito ax\u00e9. Calma, fique tranquilo. Eu gostei de voc\u00ea, \u00e9 de cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ofereci trinta. Ela n\u00e3o quis. Devolvi os dez e duas correntes. E a baiana me deu dois beijos na minha face! Nem eu nem voc\u00ea!!! Maldita nota de cinquenta. Maldita baiana. Pra piorar, me aparece a filha, uma crian\u00e7a de no m\u00e1ximo sete anos.<\/p>\n<p>&#8211; Deus vai te dar em dobro isso a\u00ed.<\/p>\n<p>Vai, sim. Vou entrar em oitenta igrejas de Salvador e pedir um real de cada fiel para conseguir esse dobro. &#8220;\u00c9 pra ela almo\u00e7ar&#8221;, completou a malandra. Pedi um sacolinha para enfiar aquelas tralhas, ela saiu correndo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sorveteria Cubana. Voltou rapidinho.<\/p>\n<p>&#8211; O seu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 pequenininho, mas o saco \u00e9 grande &#8211; finalizou a rampeira, j\u00e1 com os R$ 40 na m\u00e3o&#8230; Vontade de dizer que a senhora m\u00e3e dela, aquela hora da noite, estaria na zona. &#8220;\u00c9, ela te levou no bico&#8221;, gargalhou Narazaki, mesmo sabendo que aconteceria o mesmo com ele.<\/p>\n<p>Nem eu nem voc\u00ea, Nara. Devia era ter dado ouvidos aos meus pais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salvador (BA) &#8211; Minha \u00faltima experi\u00eancia no Pelourinho n\u00e3o tinha sido l\u00e1 muito positiva. Estava passeando com a fam\u00edlia, imaginando que todos iriam sentir a vibe positiva dos tambores, paralelep\u00edpedos e fachadas coloridas do centro hist\u00f3rico de Salvador. 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