{"id":1764,"date":"2007-10-17T23:43:20","date_gmt":"2007-10-18T02:43:20","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/no-mundo-encantado-do-sargento-amao"},"modified":"2007-10-17T23:43:20","modified_gmt":"2007-10-18T02:43:20","slug":"no-mundo-encantado-do-sargento-amao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/no-mundo-encantado-do-sargento-amao\/","title":{"rendered":"No mundo encantado do Sargento Am\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Seja bem vindo a nossa cidade, amigo motorista. Mas tenha cuidado: voc\u00ea est\u00e1 em um lugar com mais de seis milh\u00f5es de autom\u00f3veis. Aqui a lei \u00e9 a da buzina. Ou a da luz alta, se voc\u00ea estiver na estrada. N\u00e3o h\u00e1 nada que se possa fazer diante do inevit\u00e1vel: ao tomar posi\u00e7\u00e3o em seu ve\u00edculo, o nativo desta regi\u00e3o se transforma em uma amea\u00e7a. N\u00e3o importa o que aconte\u00e7a, estar\u00e1 sempre com a raz\u00e3o. Pior: no tr\u00e2nsito, \u00e9 capaz de qualquer coisa para mostrar que est\u00e1 certo.<\/p>\n<p>Est\u00e1 a p\u00e9? Mais grave ainda. Infelizmente, nossa cidade n\u00e3o foi feita para voc\u00eas. N\u00e3o existem cal\u00e7adas. As poucas faixas destinadas aos pobres andarilhos parecem estacionamentos. Tentaram catequiz\u00e1-los com novos c\u00f3digos e radares fotogr\u00e1ficos, mas essa gente se diz poderosa. Contam at\u00e9 com ind\u00fastrias paralelas, ligadas aos criadores desta legisla\u00e7\u00e3o, para livr\u00e1-los da puni\u00e7\u00e3o. Uma verdadeira ciranda da alegria, movida a muito dinheiro.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 preciso ir t\u00e3o longe para ver o avan\u00e7o dessa cultura. Esses dias perambulava pela rua, dessas de m\u00e3o \u00fanica, razoavelmente movimentada. Num relance, um caminh\u00e3o tipo ba\u00fa surgiu do nada. Estava na contra-m\u00e3o. Olhei com espanto, at\u00e9 ser abordado por um cururu &#8211; tamb\u00e9m chamados sem-no\u00e7\u00e3o, joselitos ou ainda champinhas.<\/p>\n<p>&#8211; Co\u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Bem, voc\u00ea sabe que isso aqui n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, n\u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; E puracaso voc\u00ea \u00e9 PULICIA?<\/p>\n<p>Nem pol\u00edcia nem louco de argumentar com o sujeito&#8230; Pois \u00e9, meu amigo, j\u00e1 dizia nosso presidente: tem lei que pega, tem lei que n\u00e3o pega. Para pegar, \u00e9 preciso que as pessoas falem dela para que haja respeito. E que se cumpra, evidentemente. Mas ao mesmo tempo, voc\u00ea n\u00e3o acha importante a presen\u00e7a de respons\u00e1veis pela fiscaliza\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o destes seres alterados?<\/p>\n<p>Concordo com voc\u00ea! \u00c9 por isso que contamos com pessoas dedicadas, verdadeiros her\u00f3is nessa terra de ningu\u00e9m. Sujeitos incr\u00edveis e imprescind\u00edveis como um homem que conheci nessas perigosas andan\u00e7as: o sargento Am\u00e3o.<\/p>\n<p>Conheci Am\u00e3o quando circulava noite afora, por uma rodovia perimetral de nosso apraz\u00edvel munic\u00edpio. Como de praxe, estava indignado com os ases do asfalto, que rasgavam o ch\u00e3o em seus b\u00f3lidos como se fossem personagens do cl\u00e1ssico <i>Dias de Trov\u00e3o<\/i>. Alguns quil\u00f4metros depois, uma surpresa: alguns deles foram intimados pelos oficiais da patrulha, comandados por um sargento bonach\u00e3o e com cara de mau. Reduzi a velocidade assim que o vi, apontando sua lanterna em minha dire\u00e7\u00e3o. Pediu para que eu parasse, assim como os outros.<\/p>\n<p>&#8211; Puxa, o senhor n\u00e3o imagina como \u00e9 bom ver o senhor! Acredita que estes cidad\u00e3os que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quieto. Documentos.<\/p>\n<p>Tudo bem, devia ser da personalidade dele. Obedeci pacientemente, entregando-lhe a documenta\u00e7\u00e3o de porte obrigat\u00f3rio. Enquanto procurava minha habilita\u00e7\u00e3o, Am\u00e3o deu uma volta completa ao redor do carro. Antes que eu pudesse entregar a carteira, seguiu o di\u00e1logo:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor sabia que a lanterna do seu lado esquerdo n\u00e3o est\u00e1 funcionando?<\/p>\n<p>&#8211; Como? N\u00e3o acredito&#8230; Se incomoda se eu der uma olhada?<\/p>\n<p>Sa\u00ed do carro e, com o aux\u00edlio da chave, retirei a prote\u00e7\u00e3o do farol traseiro. Mais alguns segundos para constatar o \u00f3bvio: a l\u00e2mpada estava queimada.<\/p>\n<p>&#8211; Puxa, que chato&#8230; E o carro \u00e9 novo&#8230; Pior que n\u00e3o tenho nenhuma sobressalente no porta-luvas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sinto muito, mas vou ter que autuar o senhor. Nesta semana, o senhor precisa levar o seu carro ao departamento para efetuar a vistoria.<\/p>\n<p>Uau! Uma multa por conta de uma l\u00e2mpada queimada! Esse cara \u00e9 fera! N\u00e3o deve sobrar um \u00fanico meliante vivo nas m\u00e3os dele! Tudo bem, levaria uma multa imbecil por conta de um problema t\u00e9cnico que nem cometi, mas ao menos ganhei um \u00eddolo!<\/p>\n<p>Quer dizer&#8230; Bem, n\u00e3o foi bem assim que as coisas terminaram. Am\u00e3o ficou alguns segundos parado, me olhando. Minha apar\u00eancia era tranquila: n\u00e3o estava preocupado com suas palavras, tampouco indignado. Simplesmente impass\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, vou te multar!<\/p>\n<p>&#8211; &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea ouviu bem? MULTAR! &#8211; repetiu, estendendo discretamente a m\u00e3o direita.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, eu entendi. Estou esperando, senhor&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Am\u00e3o. Sargento Molhando Am\u00e3o.<\/p>\n<p>Naquele instante, pude ler os pensamentos de Am\u00e3o. &#8220;Se eu multar esse paspalho, ele vai pagar normalmente, vai trocar a l\u00e2mpada, fazer a vistoria e seguir sua vida. Usei minha intimida\u00e7\u00e3o de gra\u00e7a. Droga!&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo bem, vai embora. Faz de conta que eu n\u00e3o vi.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, meu amigo. Mais uma vez, seja bem vindo, e sinta-se protegido no maravilhoso territ\u00f3rio comandado pelo sargento Am\u00e3o e seus fi\u00e9is aliados, onde manda quem tem voz e obedece quem tem dinheiro.<\/p>\n<p>E eu, uma pedra. Ainda por cima n\u00e3o sei desenhar: essa hist\u00f3ria, baseada em fatos reais, ficaria bem melhor em quadrinhos.<\/p>\n<p><i>(Postado em 16\/11\/2003. E em uma semana com <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/cotidiano\/ult95u336984.shtml\" target=\"_blank\"><b>rachas<\/b><\/a>, <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/cotidiano\/ult95u336963.shtml\" target=\"_blank\"><b>acidentes<\/b><\/a> e outra por\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/cotidiano\/ult95u336783.shtml\" target=\"_blank\"><b>imprud\u00eancias<\/b><\/a> pelo pa\u00eds, patrocinadas pela sensa\u00e7\u00e3o de impunidade, permanece horrivelmente atual).<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seja bem vindo a nossa cidade, amigo motorista. Mas tenha cuidado: voc\u00ea est\u00e1 em um lugar com mais de seis milh\u00f5es de autom\u00f3veis. Aqui a lei \u00e9 a da buzina. Ou a da luz alta, se voc\u00ea estiver na estrada. 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