{"id":1763,"date":"2007-10-15T23:11:03","date_gmt":"2007-10-16T02:11:03","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/eugenio-o-idiota"},"modified":"2007-10-15T23:11:03","modified_gmt":"2007-10-16T02:11:03","slug":"eugenio-o-idiota","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/eugenio-o-idiota\/","title":{"rendered":"Eug\u00eanio, o idiota"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Dias atr\u00e1s estava tomando um caf\u00e9 em algum canto da cidade. Sozinho, ora sorumb\u00e1tico, ora pensativo. Na mesa ao lado, duas mo\u00e7as conversavam amenidades, at\u00e9 que um casal de amigos delas aparece. Deviam ter no m\u00e1ximo 25 anos, estavam na flor da idade. &#8220;Gente, esse \u00e9 o Eug\u00eanio, meu namorado&#8221;, anunciou a rec\u00e9m chegada, apresentando um rapaz alto e sorridente. Mas era um sorriso esquisito, meio fake&#8230; Ao menos de onde estava, o sujeito n\u00e3o inspirava confian\u00e7a. Mas enfim, al\u00e9m de ser um p\u00e9ssimo observador, aquilo n\u00e3o me dizia respeito.<\/p>\n<p>Em poucos minutos, senti que o tal Eug\u00eanio n\u00e3o estava ali apenas para acompanhar a namorada e conhecer duas amigas. Ele queria mesmo era demonstrar seu dom de orat\u00f3ria para todos os fregueses. At\u00e9 a gar\u00e7onete desatenta deve ter ouvido o tal sorridente falar em &#8220;psican\u00e1lise e filosofia&#8221;. &#8220;N\u00e3o, porque os aspectos filos\u00f3ficos da psican\u00e1lise&#8230;&#8221;. &#8220;N\u00f3s precisamos estabelecer rela\u00e7\u00f5es coerentes entre psican\u00e1lise e filosofia&#8230;&#8221;. Quase ca\u00ed da cadeira quando uma das mo\u00e7as perguntou o que ele fazia da vida. &#8220;Ah, eu estudo Direito. Freud, Lacan e Winnicott s\u00e3o meus passatempos&#8221;. Mmmhhh, metido!<\/p>\n<p>N\u00e3o demorou para que Eug\u00eanio subisse definitivamente no pedestal. Passou a alternar cita\u00e7\u00f5es de grandes pensadores com exemplos edificantes de como \u00e9 capaz de impor sua personalidade para solucionar problemas di\u00e1rios, usando frases como &#8220;ent\u00e3o eu exigi que Fulano fizesse o que pedi, afinal eu sou o representante do n\u00e3o sei o qu\u00ea&#8230; Ele deu uma sugest\u00e3o infeliz, tinha certeza de que n\u00e3o daria certo. Ent\u00e3o Fulano mandou eu decidir sozinho. \u00c9 um in\u00fatil, escolhendo sempre a decis\u00e3o mais f\u00e1cil&#8221;. Mmmhhh, nojento!<\/p>\n<p>No meio da conversa, uma das mo\u00e7as (nitidamente a mais entediada) citou o programa &#8220;Malha\u00e7\u00e3o&#8221; como um exemplo de merchandising social, ao abordar temas relevantes para os jovens&#8230; N\u00e3o existe adjetivo capaz de descrever a express\u00e3o enojada de Eug\u00eanio. Queria engolir a pobre mocinha. &#8220;Calma, eu nao assisto Malha\u00e7\u00e3o, eu li isso em alguma reportagem&#8230;&#8221;, tentou consertar.  Naquela altura j\u00e1 estava com pena das duas meninas, mas n\u00e3o imaginava que o discurso de Eug\u00eanio pudesse piorar.<\/p>\n<p>Como sou bobo. A conversa mudou para literatura. Percebi uma das mo\u00e7as elogiando a exposi\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/sampaist.com\/2007\/05\/03\/clarice_lispector_no_museu_da_lingua_portuguesa.php\" target=\"_blank\"><b>Clarice Lispector &#8211; a hora da estrela<\/b><\/a>, no Museu da L\u00edngua Portuguesa. Antes que a mesa ratificasse aquele discurso, a mo\u00e7a entediada criticou, com sinceridade. &#8220;N\u00e3o acho t\u00e3o imperd\u00edvel assim, n\u00e3o gosto muito de Clarice&#8221;. Em qualquer roda de amigos de verdade, esse tipo de declara\u00e7\u00e3o poderia at\u00e9 ser rebatida, mas com respeito.<\/p>\n<p>Coisa que n\u00e3o se pode exigir do s\u00e1bio Eug\u00eanio. S\u00f3 faltou ele levantar da cadeira, indignado. &#8220;Mas como assim? E o que voc\u00ea faz enquanto anda de \u00f4nibus ou est\u00e1 em casa? Voc\u00ea l\u00ea?&#8221;. Tive que conter o riso, para que ningu\u00e9m percebesse. &#8220;Claro que eu leio. Adoro Jorge Amado, Erico Ver\u00edssimo&#8230; Vin\u00edcius, Bandeira, Quintana&#8230;&#8221;. Eug\u00eanio fez uma repugnante cara de conte\u00fado e emendou. &#8220;\u00c9, esse poetinha escrevia coisas simples, enquanto ela tratava de temas mais complexos&#8230; A\u00ed vai do gosto e alcance de cada um. Realmente \u00e9 mais facil gostar de Quintana do que de Clarice&#8230; Clarice \u00e9 para os fortes&#8221;. Mmmhhh, babaca!<\/p>\n<p>Quando eu pensei que j\u00e1 tinha oouvido tudo&#8230; Pouco antes de ir embora, Eug\u00eanio recitou mais uma brilhante cita\u00e7\u00e3o, e acabou perguntando para a menina entediada: &#8220;vem c\u00e1, \u00e9 iminente, com i, ou eminente, com e? Ah, obrigado&#8221;. Aliviada, a mo\u00e7a bombardeada pela fal\u00e1cia daquele idiota desabafou. &#8220;Nossa, mas que mala, hein?&#8221;. Com naturalidade, a outra respondeu. &#8220;Voc\u00ea vai se acostumar com o Eug\u00eanio. E ainda bem que voc\u00ea acertou essa \u00faltima. Ele sempre sabe qual a palavra certa, mas adora fazer isso para testar as pessoas&#8221;.<\/p>\n<p>Dizem que a perfei\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ap\u00f3s muitos erros. Isso quer dizer que amanh\u00e3 ou depois eu serei perfeito. Eu cometo erros todos os dias. Talvez por ser assim, costumo entender quando algu\u00e9m comete um deslize. J\u00e1 pessoas como Eug\u00eanio, que n\u00e3o falham nunca, s\u00e3o incompreens\u00edveis. Sei que n\u00e3o devia, mas isso me fez pensar. &#8220;Como \u00e9 que esse idiota consegue ter amigos&#8230; E uma namorada?&#8221; Sei l\u00e1, de repente o idiota era o outro, que estava tomando caf\u00e9 sozinho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dias atr\u00e1s estava tomando um caf\u00e9 em algum canto da cidade. Sozinho, ora sorumb\u00e1tico, ora pensativo. Na mesa ao lado, duas mo\u00e7as conversavam amenidades, at\u00e9 que um casal de amigos delas aparece. 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