{"id":1757,"date":"2007-09-18T23:21:32","date_gmt":"2007-09-19T02:21:32","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/uma-oportunidade-unica-para-alguem-especial"},"modified":"2007-09-18T23:21:32","modified_gmt":"2007-09-19T02:21:32","slug":"uma-oportunidade-unica-para-alguem-especial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/uma-oportunidade-unica-para-alguem-especial\/","title":{"rendered":"Uma oportunidade \u00fanica para algu\u00e9m especial"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/ferias.gif\" align=\"right\" \/><font size=\"3\">Por <b>Marcelo &#8220;Tuca&#8221; hernandes<\/b>, do blog <a href=\"http:\/\/www.fiapodejaca.com.br\" target=\"_blank\"><b>Fiapo de Jaca<\/b><\/a><\/font><\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea foi selecionado para conhecer um novo produto&#8221;, me disseram ao telefone, numa tarde qualquer, coisa de uns cinco anos atr\u00e1s. Perguntei do que se tratava, como tinham conseguido meu telefone, essas coisas. Secamente, o homem disse que n\u00e3o poderia revelar maiores detalhes, por quest\u00f5es estrat\u00e9gicas. Pessoas do meu perfil, segundo ele, seriam fundamentais para a avalia\u00e7\u00e3o desse produto especial, que ocorreria no pr\u00f3ximo s\u00e1bado. Para isso, ele me passou o endere\u00e7o e o hor\u00e1rio do evento, ressaltando que, no fim, eu ganharia um brinde. Opa, brinde? Confirmei minha presen\u00e7a no ato. Afinal, eu n\u00e3o teria nada pra fazer no pr\u00f3ximo s\u00e1bado de tarde mesmo. Lucro certo.<\/p>\n<p>Me senti especial, imaginando que tipo de produto seria aquele, onde um seleto grupo atuaria como formador de opini\u00e3o. Seria um novo carro, onde afortunados feito eu ficariam a tarde inteira fazendo test drives? No fim, pediriam a minha opini\u00e3o. &#8220;Olha, sobre essa nova Ferrari&#8230; ela tem um desempenho aerodin\u00e2mico que est\u00e1 entre o bom e o \u00f3timo. Bem, achei acima da m\u00e9dia, mas poderia ser melhor.&#8221; N\u00e3o, eu n\u00e3o sou muito f\u00e3 de carros. N\u00e3o seria pra isso, considerei. Gosto de chocolates, por exemplo. Ent\u00e3o, quem sabe, eu avaliaria uma nova marca, especialmente designada pra pessoas de paladar refinado, j\u00e1 pensou? No fim, ap\u00f3s a minha valiosa opini\u00e3o, eu voltaria com sacolas personalizadas, cheias de chocolates. Quem sabe.<\/p>\n<p>Especulei at\u00e9 coisas medonhas. Como a suspeita de que tudo isso n\u00e3o passaria de golpe de uma dessas quadrilhas internacionais de tr\u00e1fico de \u00f3rg\u00e3os. Cogitei a possibilidade de descobrir que a famosa est\u00f3ria de acordar numa banheira cheia de gelo, sem um dos rins, seria verdadeira mesmo.<\/p>\n<p>Enfim, como minha curiosidade foi mais forte do que tudo, fui at\u00e9 o local, no dia e hor\u00e1rio combinado. Era um sobrado, localizado em uma dessas regi\u00f5es chiques de S\u00e3o Paulo, decorado com muito bom gosto em seu interior. Ao ver por l\u00e1 outros afortunados como eu, fiquei bem mais tranq\u00fcilo. Ap\u00f3s me identificar, fui gentilmente conduzido para um imenso jardim nos fundos, onde tinham v\u00e1rias mesas, quase todas ocupadas. L\u00e1, fui recebido por uma loira simp\u00e1tica, que n\u00e3o parava de sorrir pra mim, preocupada em garantir que eu me sentisse VIP. &#8220;Aceita um refrigerante? Salgadinho? Whisky?&#8221;. Ao perceber que o guaran\u00e1 era de lata, aceitei um. Bebida direto da garrafa, ainda n\u00e3o. Afinal, eu ainda n\u00e3o tinha descartado de vez a possibilidade de me doparem pra arrancarem um dos meus rins.<\/p>\n<p>Seguiu-se quase uma hora de conversa amena, com a loira interessad\u00edssima na minha vida. Ela n\u00e3o era bonita, tinha at\u00e9 um nariz meio torto que me desviou a aten\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios momentos. Mas era de uma simpatia que me deixava \u00e0 vontade, admito. Perguntava sempre sorrindo o que eu gostava de fazer, o que era a vida pra mim, essas coisas. Arregalava os olhos a cada coisa interessante que eu dizia ter feito. No fim, depois de tudo que eu falei, ela concluiu que eu era um cara que gostava de curtir a vida. Concordei. E, dentre tudo isso, viajar pra mim era fundamental, n\u00e3o \u00e9? Concordei, novamente. Cada vez mais, ela ia direcionando a conversa apenas para o tema &#8220;viagem&#8221;. Viagem, viagem e viagem. Matei a charada: estavam tentando me vender um desses t\u00edtulos de viagem.<\/p>\n<p>E era isso mesmo.<\/p>\n<p>Bem, da\u00ed, resolvi entrar no jogo, fazendo o papel do cliente ideal, querendo ver at\u00e9 onde tentariam insistir. Era uma tarde de s\u00e1bado de inverno, gelada, e aquilo seria bem mais interessante do que ficar em casa, \u00e0 toa, pensei. Ali, pelo menos, eu encheria a pan\u00e7a de salgadinhos, guaran\u00e1 e whisky &#8211; sim como n\u00e3o queriam meus rins, mas apenas alguns reais, resolvi relaxar, tomando uns drinquezinhos. Assim, bebericando com gosto, revelei todos os lugares do Brasil e do mundo que eu gostaria de conhecer, enquanto ela ia me ouvindo maravilhada, certa de que havia conquistado um cliente. Fui dando corda.<\/p>\n<p>Num dado momento, ela me convidou pra assistir a proje\u00e7\u00e3o de um v\u00eddeo, no tel\u00e3o instalado em uma das salas. Aceitei a proposta. Nesse v\u00eddeo, passavam imagens e imagens de casais apaixonados e fam\u00edlias na felicidade suprema de uma viagem, em locais de paisagens paradis\u00edacas. E tome cenas clich\u00eas de confraterniza\u00e7\u00f5es \u00e0 beira-mar, beijos ao p\u00f4r-do-sol, no \u00eaxtase da classe m\u00e9dia branquinha e de sorriso colgate. No meio da proje\u00e7\u00e3o, a loira, empolgada, comentou comigo: &#8220;Quanta coisa bonita, n\u00e9? Vendo tudo isso, d\u00e1 uma vontade danada de viajar, n\u00e9? Aposto que voc\u00ea t\u00e1 louquinho pra fazer as malas!&#8221;. Eu, j\u00e1 com um leve efeito do whisky na cabe\u00e7a, me limitei a responder, como se eu fosse um desses personagens de comerciais da Polishop: &#8220;Nossa, \u00e9 verdade&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Ao voltarmos para o jardim, come\u00e7ou o ataque. Durante quase uma hora, ela tentou me convencer a comprar um t\u00edtulo de viagem. N\u00e3o adiantou eu dizer que estava guardando dinheiro pra um novo carro, onde cada centavo economizado era fundamental. Ela n\u00e3o se conformava que eu, um cara que adorava viajar e curtir a vida, tinha a ousadia de dispensar uma oportunidade daquelas. E tome c\u00e1lculo disso, daquilo, mais descontos. Nada, eu continuava irredut\u00edvel. &#8220;Olha, quem sabe no fim do ano, hein? Agora, infelizmente, n\u00e3o d\u00e1.&#8221; Imagina, aquela promo\u00e7\u00e3o maravilhosa s\u00f3 duraria naquele dia. Outra oportunidade como aquela, nunca mais. Nunca mais! Era pegar ou largar!<\/p>\n<p>Entregando os pontos, ela me passou pra um rapaz que mais parecia um rob\u00f4, de t\u00e3o artificial que era a simpatia do mesmo. Pelo que percebi, ele era desses que tentavam, a todo custo, convencer os &#8220;clientes&#8221; mais dif\u00edceis, de forma agressiva. &#8220;T\u00e1 bom esse plano aqui pra voc\u00ea? T\u00e1, n\u00e9? Vamos fechar ent\u00e3o!&#8221; E tome mais contas. Mais descontos. Mais vantagens. Mais amea\u00e7as de ultra-super-promo\u00e7\u00f5es desse tipo que jamais voltariam a oferecer pra mim. S\u00f3 faltou o cara colocar um rev\u00f3lver na minha cabe\u00e7a. E eu, nada, s\u00f3 bebericando o meu whisquinho. &#8220;O meu carro novo, entende?&#8221; Percebi que muitas pessoas nas mesas ao redor assinavam cheques. &#8220;Minha nossa&#8221;, pensei, &#8220;o v\u00eddeo funcionou com esses a\u00ed&#8230;&#8221;. Ao notar que a coisa n\u00e3o andaria comigo mesmo, o rapaz, resignado, foi buscar o meu brinde: uma estadia de tr\u00eas dias num hotel tr\u00eas estrelas de Recife &#8211; s\u00f3 isso, nada de passagem -, com prazo de validade de seis meses, que s\u00f3 eu teria direito a desfrutar. Fui embora j\u00e1 meio cambaleante do whisky, estufado de salgadinhos, com o cupom-brinde nas m\u00e3os. Me despedi da loira que me atendeu, ainda meio intrigado com aquele desvio no nariz dela. Ao contr\u00e1rio da simpatia do in\u00edcio, ela me respondeu com um &#8220;tchau&#8221; bem mal humorado.<\/p>\n<p>Voltei sorrindo pra casa, certo que vivi uma tarde divertida, boca-livre das boas. Pena que eu n\u00e3o passei perto de Recife nos seis meses seguintes. Tudo bem.<\/p>\n<p><i>Enquanto Marmota tenta fugir das roubadas, a s\u00e9rie <b>Col\u00f4nia de F\u00e9rias<\/b> apresenta textos gentilmente preparados por seus amigos, aconselhando a todos: tenha cuidado onde pisa. <\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marcelo &#8220;Tuca&#8221; hernandes, do blog Fiapo de Jaca &#8220;Voc\u00ea foi selecionado para conhecer um novo produto&#8221;, me disseram ao telefone, numa tarde qualquer, coisa de uns cinco anos atr\u00e1s. Perguntei do que se tratava, como tinham conseguido meu telefone, essas coisas. Secamente, o homem disse que n\u00e3o poderia revelar maiores detalhes, por quest\u00f5es estrat\u00e9gicas. 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