{"id":1739,"date":"2007-03-06T13:32:04","date_gmt":"2007-03-06T15:32:04","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/o-primeiro-beijo-que-eu-nao-dei"},"modified":"2024-09-06T10:08:14","modified_gmt":"2024-09-06T13:08:14","slug":"o-primeiro-beijo-que-eu-nao-dei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/o-primeiro-beijo-que-eu-nao-dei\/","title":{"rendered":"O primeiro beijo que eu n\u00e3o dei"},"content":{"rendered":"<p>(Antes de come\u00e7ar, preciso pedir desculpas sinceras ao <a href=\"http:\/\/pirao.wordpress.com\/2007\/03\/02\/cinco-beijos-ou-nao\" target=\"_blank\" title=\"Vai ler os cinco n\u00e3o-beijos dele!\" rel=\"noopener\"><b>Marcos Vasconcelos<\/b><\/a> e ao <a href=\"http:\/\/www.interney.net\/blogs\/enloucrescendo\/2007\/03\/04\/recomendando_quem_escreveu_sobre_os_5_me\" target=\"_blank\" title=\"Definitivamente, esse meme \u00e9 genial\" rel=\"noopener\"><b>Ian Black<\/b><\/a>. O primeiro me convidou para continuar a corrente criada pelo segundo. Mas eu tive que deturpar um pouco a id\u00e9ia original.)<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>No come\u00e7o do S\u00e9culo XX, a cidade de Pelotas crescia num ritmo fren\u00e9tico, os pr\u00f3speros fazendeiros da \u00e9poca acumulavam riquezas. Assim, eles possuiam recursos suficientes para mandar seus filhos para a Europa, principalmente na Fran\u00e7a, onde poderiam estudar e retornar ao Brasil preparados para administrar os neg\u00f3cios. O fato \u00e9 que os jovens voltavam de l\u00e1 com outra apar\u00eancia: um ar nobre e garboso, completamente diferente dos modos t\u00edpicos da grossa gauchada.<\/p>\n<p>Ou seja, uma viadagem.<\/p>\n<p>Desde aquela \u00e9poca, a &#8220;lenda&#8221; segue inabal\u00e1vel, inclusive com brincadeiras como a cl\u00e1ssica placa &#8220;venham comer noz em Pelotas&#8221; na entrada da cidade, um trocadalho do carilho envolvendo o tradicional fruto seco natalino a uma conota\u00e7\u00e3o que dispensa maiores explica\u00e7\u00f5es. Evidentemente, essa placa n\u00e3o existe. Posso garantir.<\/p>\n<p>Mais do que uma fama sem gra\u00e7a, Pelotas representou para mim, durante muito tempo, uma esp\u00e9cie de ref\u00fagio. A cidade onde os meus pais nasceram virou uma esp\u00e9cie de <a href=\"https:\/\/marmota.org\/blog\/todos-os-meus-27-30-finais-de-ano\/\" target=\"_blank\" title=\"Haja paci\u00eancia para rever os meus finais de ano...\" rel=\"noopener\"><b>tradi\u00e7\u00e3o anual<\/b><\/a> para a minha fam\u00edlia. O sagrado Natal e o n\u00e3o menos sagrado reveillon num lugar onde apelava para resolver todos os problemas do meu dia-a-dia.<\/p>\n<p>Entre eles, meus quase-relacionamentos &#8211; e isso nada tem a ver com a influ\u00eancia de Pelotas na minha vida. Eu sempre fui muito ruim de paquera. Nunca me aproximava das meninas que me interessava. Timidez, falta de coragem, sei l\u00e1. E quando achava que gostava de algu\u00e9m, guardava isso para mim. Dificilmente externava isso, e quando isso acontecia, era sempre desastroso. N\u00e3o dava sequer para imaginar como seria segurar a m\u00e3o dela, abra\u00e7\u00e1-la, beij\u00e1-la.<\/p>\n<p>Isso talvez seja suficiente para confessar uma coisa inadmiss\u00edvel nos dias de hoje: meu primeiro beijo foi aos dezoito anos.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>Um ano antes desse momento especial na vida da maior parte dos seres humanos, em dezembro de 1994, a tradicional &#8220;temporada&#8221; em Pelotas seria perfeita para acumular muita energia. Em 95, iria buscar um est\u00e1gio na \u00e1rea de eletrot\u00e9cnica e assegurar o meu diploma. No dia 27 de dezembro, j\u00e1 instalado no cantinho da Cohab Fragata, recebi o tradicional convite da Ver\u00f4nica:<\/p>\n<p>&#8211; Tu sabes que hoje tem festa, n\u00e9?<\/p>\n<p>Claro que sabia. O anivers\u00e1rio da Ver\u00f4nica fazia parte do calend\u00e1rio anual de eventos da minha vida desde 1990, quando aquela turma de vizinhos chegou \u00e0 Cohab, vinda de Cangu\u00e7u. Fui ao centro da cidade comprar um presente e, j\u00e1 no fim da noite, estava ao lado dos meus primos na festa. Cumprimentei a dona Cileide com o meu gesto habitual, como se esmagasse um copo descart\u00e1vel &#8211; ela detestava jogar fora os copos pl\u00e1sticos nas festas das filhas. Foi s\u00f3 entregar o presente da Ver\u00f4nica para ter a primeira surpresa.<\/p>\n<p>&#8211; Oi D\u00e9, quero que tu conhe\u00e7a o Rodrigo, o meu namorado!<\/p>\n<p>Era um rapaz estranho, roupa preta e gel no cabelo. Estendi minha m\u00e3o, disse &#8220;muito prazer&#8221;. O rapaz olhou para a minha cara, pegou minha m\u00e3o de leve e disse:<\/p>\n<p>&#8211; O prazer \u00e9 todo meeeeu&#8230;<\/p>\n<p>Por um instante esqueci aquele papo dos rapazes indo \u00e0 Fran\u00e7a no come\u00e7o do s\u00e9culo passado e tive que admitir: esse a\u00ed deve ser um nativo pelotense! (Ok, piada fraca).<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a chegar mais gente para a festa. Meus primos, primas, o pessoal da rua. Conversava animadamente com alguns deles quando fui subitamente interrompido.<\/p>\n<p>&#8211; Oi D\u00e9! Lembra de mim?<\/p>\n<p>Dei um sorriso enorme diante da Rosa, irm\u00e3 mais velha do Eduardo, da casa 62. Claro que lembrava dela. N\u00e3o tinha como esquec\u00ea-la. Acho que eu n\u00e3o a encontrava h\u00e1 uns dois anos. Lembro que a \u00faltima vez tinha sido na P\u00e1scoa de 1992, meses antes do meu av\u00f4 falecer. Naquele ano, os garotos da Cohab inventaram um &#8220;clubinho&#8221;, coisa de crian\u00e7a tirada da cabe\u00e7a de tr\u00eas grandes amigas: Ver\u00f4nica, Rosa e Gl\u00e1ucia. Essa \u00faltima brigou feio com a Ver\u00f4nica meses depois. O clubinho acabou, e nunca mais tive not\u00edcias dela.<\/p>\n<p>&#8211; Incr\u00edvel, D\u00e9, mas voc\u00ea n\u00e3o mudou nada! Continua o mesmo engra\u00e7adinho de sempre!<\/p>\n<p>&#8211; Puxa, obrigado! Bom, eu j\u00e1 n\u00e3o posso dizer o mesmo&#8230; Voc\u00ea est\u00e1 ainda mais linda!<\/p>\n<p>Era uma declara\u00e7\u00e3o idiota, sem nenhuma pretens\u00e3o. Mas eu confesso que n\u00e3o sou nada discreto e, da mesma forma, j\u00e1 desempenhei com maestria o papel de idiota por v\u00e1rias vezes. De repente, aparece o tal Rodrigo.<\/p>\n<p>&#8211; Quer comer do salsich\u00e3o?<\/p>\n<p>Em tempo, a tradicional lingui\u00e7a do churrasco recebe essa nomenclatura no sul do pa\u00eds. Mas mesmo conhecendo a terminologia, n\u00e3o aceitei.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>Em 20 de janeiro de 1995 eu j\u00e1 estava em S\u00e3o Paulo, pronto para cumprir uma s\u00e9rie de objetivos. Passei alguns dias gastando sola de sapato &#8211; e molhando-os nas enchentes que normalmente tomam conta de Sampa em janeiro. Fiz dezenas de entrevistas de est\u00e1gio, sem nenhum sucesso. Mas n\u00e3o demorou para que surgisse um rem\u00e9dio para o des\u00e2nimo: uma carta (era assim que as pessoas conversavam sem e-mail, lembra disso?). Chegou exatamente no dia 14 de fevereiro.<\/p>\n<p>Era da Rosa! Come\u00e7ava pedindo desculpas pelo fato de ter &#8220;roubado&#8221; o meu endere\u00e7o com uma das minhas primas. Seguia cheia de elogios e frases inspirando saudades&#8230; Em menos de 24 horas, a resposta j\u00e1 estava a caminho do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Finalmente em maio, pouco antes do meu anivers\u00e1rio, consegui minha t\u00e3o sonhada vaga de est\u00e1gio. Nesse meio tempo, j\u00e1 havia recebido &#8211; e enviado &#8211; umas seis ou  sete cartas para a Rosa. Em cada uma delas, inventava alguma coisa: desde o tamanho do envelope at\u00e9 o conte\u00fado: fotos, c\u00f3pias de  revistas, poesias&#8230; Sempre com uma expectativa cada vez maior pela carta seguinte.<\/p>\n<p>No dia 14 de julho, anivers\u00e1rio dela, resolvi dar um telefonema. Fiquei horas no gancho, ignorando o pre\u00e7o da liga\u00e7\u00e3o interurbana (era essa a preocupa\u00e7\u00e3o antes do msn ou o skype). Foi s\u00f3 desligar o telefone para tomar uma decis\u00e3o louca: aproveitar o final das f\u00e9rias de inverno e viajar por uma semana.<\/p>\n<p>E cumpri a minha louca promessa: cheguei em Pelotas no dia 23 de julho, mesmo dia que o Brasil perdia a Copa Am\u00e9rica para o Uruguai nos p\u00eanaltis h\u00e1 poucos quil\u00f4metros dali, em Montevid\u00e9u. Assim como a do T\u00falio, minha estada no sul virou uma bola fora. Valeu apenas para rever o pessoal da Cohab e passar frio.<\/p>\n<p>A minha \u00fanica tentativa de ficar com a Rosa foi no Bail\u00e3o Estrela Ga\u00facha, na Duque de Caxias. Fomos eu, a Ver\u00f4nica e uma prima minha. Dancei muito, nos dois sentidos: a Rosa acabou nos bra\u00e7os de outro rapaz. Naquela noite, sabia que nunca mais colocaria os p\u00e9s naquele lugar. Mais do que isso, n\u00e3o havia clima para qualquer hist\u00f3ria com aquela louca irm\u00e3 do Eduardo.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>Acho que j\u00e1 disse isso antes, mas n\u00e3o custa repetir: qualquer assunto da minha vida relacionado ao Rio Grande do Sul n\u00e3o pode ser contado em horas ou dias. S\u00e3o meses, anos. E em 1995, esses assuntos eram temperados com dezenas de cartas. Em fevereiro, elas vinham apenas com o meu nome no campo &#8220;destinat\u00e1rio&#8221; dos envelopes. Dias depois, era &#8220;para o amigo&#8221;. No final de junho, recebi um &#8220;para o meu grande amigo&#8221;. E para a minha surpresa, a primeira carta do segundo semestre apareceu com um &#8220;para o gato&#8221;. Em setembro, chegou um &#8220;para o gostos\u00e3o&#8221;. Sem falar no conte\u00fado, cada vez mais apaixonado. Ora, se eu havia voltado das f\u00e9rias confuso, passei o segundo semestre ainda mais.<\/p>\n<p>Finalmente, outro final do ano. Eu j\u00e1 era um t\u00e9cnico diplomado, meu est\u00e1gio havia terminado, j\u00e1 tinha rodado no vestibular da Fuvest e preocupado com as outras provas em janeiro. Mas nada disso abalaria a minha estada de ver\u00e3o em Pelotas. E desta vez, nem esperei os meus pais: fui com o meu irm\u00e3o j\u00e1 no dia 16 de dezembro &#8211; acho que nunca mais terei a mesma chance de antecipar as minhas f\u00e9rias dessa forma.<\/p>\n<p>Fiquei alguns dias em Porto Alegre e, na tarde do dia 21, j\u00e1 estava na Cohab Fragata. Em uma \u00fanica tarde, deu tempo de reencontrar toda a turma da rua, al\u00e9m da ansiosa dupla Ver\u00f4nica e Rosa, que n\u00e3o desgrudaram de mim um minuto sequer. Estavam loucas para me contar a novidade:<\/p>\n<p>&#8211; Esse ano tu n\u00e3o vais no meu anivers\u00e1rio, viu? &#8211; comentou Ver\u00f4nica, com um ar enigm\u00e1tico.<\/p>\n<p>&#8211; U\u00e9, n\u00e3o? Claro que vou! \u00c9 sagrado: todo ano tem festa!<\/p>\n<p>&#8211; Ah, guri&#8230; Eu n\u00e3o disse que n\u00e3o vai ter festa&#8230; S\u00f3 que vou comemorar o meu&#8230; Noivado!<\/p>\n<p>Noivado?!? Vejam s\u00f3, a Ver\u00f4nica mandou o Rodrigo procurar o salsich\u00e3o da vida dele meses depois. Ent\u00e3o encontrou Periquito, um jovem motorista de t\u00e1xi. Paix\u00e3o \u00e0 primeira vista: come\u00e7aram a namorar em setembro e marcaram uma grande festa de noivado para o hist\u00f3rico dia 27 de dezembro.<\/p>\n<p>&#8211; Eu e a Rosa estamos preparando a decora\u00e7\u00e3o da festa. Amanh\u00e3 vamos cuidar das lembrancinhas. Voc\u00ea ajuda a gente? &#8211; \u00d3bvio que eu n\u00e3o recusei.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>Chovia muito em Pelotas no dia seguinte. Passei a tarde toda na casa da Ver\u00f4nica confeccionando lembrancinhas e jogando conversa fora. Lembrei de todos os acontecimentos do passado, desde o dia em que a conheci, naquela distante festa de 1990. Em cinco anos, a mesma festa seria um pr\u00e9-cas\u00f3rio. Incr\u00edvel.<\/p>\n<p>Num momento qualquer daquela tarde, a Ver\u00f4nica deixou a cozinha. N\u00e3o lembro o motivo, mas deve ter sido obra do roteirista: pude ficar sozinho ao lado da Rosa. Fitei seus olhos castanhos durante alguns segundos sem pronunciar nenhuma palavra, contemplativo. Ela retribuiu com o seu belo olhar e, como se quisesse dizer alguma coisa, pegou na minha m\u00e3o.<\/p>\n<p>De repente, tudo que me fazia lembrar da Rosa passou pela minha cabe\u00e7a. O nosso reencontro, as cartas, a horrenda viagem de julho&#8230; Aquela sensa\u00e7\u00e3o estranha de que eu estava ao lado da pessoa certa foi tomada por um receio muito grande. N\u00e3o tinha mais certeza do que eu queria.<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1 tudo bem, D\u00e9? &#8211; perguntou, notando a s\u00fabita mudan\u00e7a no meu semblante. Fiquei mais alguns segundos em sil\u00eancio, levantei da cadeira e sa\u00ed de cena.<\/p>\n<p>&#8211; Mas tu j\u00e1 vai, guri? Tu n\u00e3o vais jantar com a gente? &#8211; gritou Ver\u00f4nica, ao me ouvir saindo de sua casa.<\/p>\n<p>Nossa, j\u00e1 era hora do jantar&#8230; E ainda chovia bastante. Corri em dire\u00e7\u00e3o ao meu quartel general, a casa da v\u00f3, no n\u00famero 92. N\u00e3o me dei conta que a Rosa estava bem atr\u00e1s de mim. S\u00f3 notei a presen\u00e7a dela quando ia fechar o port\u00e3o: l\u00e1 estava, na cal\u00e7ada, embaixo da chuva, com um sorriso sapeca estampado no rosto.<\/p>\n<p>&#8211; Rosa, vai pra casa. Assim voc\u00ea vai ficar doente &#8211; gritei. Resposta errada, como sempre.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo bem&#8230; Eu vou&#8230; Mas queria te convidar pra ir no centro amanh\u00e3 depois do almo\u00e7o. Vamos?<\/p>\n<p>Aceitei o convite e finalmente me despedi. Sa\u00ed na chuva por alguns instantes e dei os tradicionais tr\u00eas beijinhos na face, como se faz por l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; D\u00e9, posso te dar mais um?<\/p>\n<p>&#8211; Ah, pode, vai&#8230; &#8211; declarei, despretensiosamente.<\/p>\n<p>Foi despretensiosamente, de verdade!<\/p>\n<p>Virei o meu rosto, esperando mais um beijinho na bochecha. Mas ao inv\u00e9s dos l\u00e1bios, senti na minha face as m\u00e3os molhadas da Rosa. O que veio depois, naquela noite chuvosa de ver\u00e3o, n\u00e3o d\u00e1 para descrever.<\/p>\n<p>Mentira. D\u00e1 sim. Analisando friamente, a sensa\u00e7\u00e3o maior nem foi a do beijo em si, mas do baque provocado pela impetuosidade da Rosa. Como se n\u00e3o bastasse, a minha falta de experi\u00eancia no assunto, aliado ao fato de estar momentaneamente perdido no tempo e no espa\u00e7o, fez com que eu soltasse a frase mais adequada para encerrar aquele 22 de dezembro de 1995.<\/p>\n<p>&#8211; Rosa, como \u00e9 que se faz isso?<\/p>\n<p>Ela parou, sorriu e foi embora. Eu, molhado e embasbacado, fiquei aproveitando as gotas da chuva para acordar e, quem sabe, entender o que foi que eu n\u00e3o fiz.<\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>No dia seguinte, fomos ao centro. Passeamos pelo cal\u00e7ad\u00e3o da Andrade Neves de m\u00e3os dadas. Fui ao Mercado Municipal e comprei para ela uma correntinha com o seu nome. Voltamos para a Cohab e ela me convidou para entrar. Fiquei mais algumas horas no quarto dela, ouvindo CDs e trocando hist\u00f3rias passadas. Quase choramos juntos&#8230; Foi uma tarde inesquec\u00edvel. At\u00e9 porque, ela ainda me ensinou, pacientemente, &#8220;como \u00e9 que se faz isso&#8221;. Presente de Natal.<\/p>\n<p>No dia 27, fui com a Rosa ao noivado da Ver\u00f4nica. Foi no Col\u00e9gio Mariana Eufr\u00e1sia, na esquina da Pinheiro Machado com a Duque de Caxias. O lugar deixou de ser uma escola de ensino fundamental para dar lugar a uma grande festa. Tinha votos de parab\u00e9ns pelo anivers\u00e1rio e buqu\u00ea arremessado pela noiva. A prop\u00f3sito, adivinhem quem pegou.<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ea Rosa!!! Parab\u00e9ns!!!<\/p>\n<p>&#8211; Olha a\u00ed Andr\u00e9!!! Voc\u00ea \u00e9 o pr\u00f3ximo!!!<\/p>\n<p>Se eu era o pr\u00f3ximo ou n\u00e3o, sinceramente, n\u00e3o me importava. Queria mesmo era aproveitar aquele momento. Pela primeira vez neste conto de fadas, eu era o pr\u00edncipe encantado. Tratei de sair com a princesa praticamente todos os dias. Recebemos o ano de 1996 de m\u00e3os dadas, projetando um futuro maravilhoso. No dia tr\u00eas, fomos \u00e0 praia do Laranjal a bordo do Maverick do pai da Ver\u00f4nica, onde fizemos muita bagun\u00e7a &#8211; al\u00e9m de protagonizarmos v\u00e1rios momentos rom\u00e2nticos.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria tinha dia certo para acabar: cinco de janeiro. Eu precisava estar em S\u00e3o Paulo na semana seguinte: havia sido contratado (outro present\u00e3o de Natal) e precisava encarar o vestibular da C\u00e1sper L\u00edbero, mesmo sem ter estudado nada al\u00e9m de anatomia. Na hora da despedida, uma choradeira como eu nunca vi. Segundo ela, l\u00e1grimas n\u00e3o pararam de correr em seu rosto desde o dia anterior. Contei piadas, falei bobagens, mas nada adiantou. Sabia que era a despedida mais dolorosa entre todas que j\u00e1 estava acostumado a fazer ali. Terminei a minha estadia com um longo abra\u00e7o e um beijo que valeria at\u00e9 o final de ano seguinte.<\/p>\n<p>A saudade ainda ocupava um espa\u00e7o maior que a esperan\u00e7a dentro do cora\u00e7\u00e3o da Rosa. Mas a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7aria a mudar a partir da primeira carta que recebi em 1996. Veio num envelope vermelho e dizia basicamente o seguinte:<\/p>\n<p><tt>Pelotas, 13 de janeiro de 1996<\/p>\n<p>Oi, minha vida! Como tens passado sem mim?<\/p>\n<p>Eu estou suportando, na medida do poss\u00edvel... Afinal, este mesmo peda\u00e7o que parece ter sido arrancado de ti foi tirado de mim tamb\u00e9m... \u00c9 como se um vazio tomasse conta e eu n\u00e3o pudesse fazer nada. Ent\u00e3o coloco aquela nossa m\u00fasica pra tocar e a\u00ed a dor aumenta...<\/p>\n<p>Sinto falta das nossas conversas, dos nossos abra\u00e7os e dos nossos beijos que, fazendo um exame de consci\u00eancia, foram at\u00e9 poucos... Fazia tempo que ningu\u00e9m me chamava de querida... Fazia tempo que eu n\u00e3o me sentia t\u00e3o bem. E aquele teu telefonema ao chegar em S\u00e3o Paulo serviu como um anestesiante para a minha saudade!<\/p>\n<p>Aqui as coisas continuam as mesmas. A Ver\u00f4nica e o Periquito continuam brigando sem parar, ainda ontem eles jogaram as alian\u00e7as no ch\u00e3o. Mas n\u00e3o demorou muito para fazerem as pazes de novo. Ah, a vizinhan\u00e7a da Cohab passa por mim e pergunta: \"como \u00e9 que fica o namoro? Via correio? Por telefone? Ou ele vai vir pra c\u00e1 em seguidinha?\" Ah, e tem gente (tu sabes bem quem) que faz todo tipo de pergunta... \"Tu t\u00e1 namorando ou s\u00f3 ficou? E os pais deles te aceitaram? Vais ficar esperando at\u00e9 o final do ano?\" Mas eu n\u00e3o ligo pra isso. N\u00f3s sabemos o que aconteceu, sabemos que foi muito bonito e, infelizmente, muito r\u00e1pido.<\/p>\n<p>Esses dias eu li uma coisa que me chamou bastante a aten\u00e7\u00e3o: \"... para um adulto o amor \u00e9 t\u00e3o biologicamente necess\u00e1rio quanto o leite materno para um resc\u00e9m-nascido\". Vamos levar isso ao p\u00e9 da letra: \u00e9 necess\u00e1rio, \u00e9 preciso amar. Sem amor continuaremos a existir, mas teremos deixado de viver. Por isso, ame e ame muito, pois essa \u00e9 a melhor coisa do mundo.<\/p>\n<p>Por aqui, eu continuo rezando pelo teu sucesso no vestibular e no teu servi\u00e7o. Eu acho que tudo que eu tenho pra te dizer tu j\u00e1 disseste pra mim aqui: basta voc\u00ea existir para que eu sinta a tua falta, voc\u00ea se fez especial e \u00e9 dif\u00edcil esquecer o que passamos juntos. Eu ainda n\u00e3o me recuperei do melhor princ\u00edpio de ano que eu j\u00e1 tive, com certeza se tu tivesse aqui do meu lado agora os meus dias seriam mais felizes, pois tu enches o meu cora\u00e7\u00e3o de alegria.<\/p>\n<p>Ainda sinto a tua falta, e essa nossa \"paran\u00f3ia\" ainda vai durar alguns dias. Mas n\u00f3s somos jovens, e a gente se recupera. Eu aqui vou tentar achar o meu novo pr\u00edncipe sem deixar de ter um carinho muito especial por ti, e eu espero que tu encontres aquela que te dar\u00e1 muito valor: \u00e9 s\u00f3 voc\u00ea procurar que, em algum cantinho desta cidade grande, ela deve estar te esperando.<\/p>\n<p>Esperemos pelo destino, s\u00f3 ele dir\u00e1 o que ser\u00e1 de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Beijos da ga\u00facha que te adora.<\/p>\n<p>Rosa.<\/tt><\/p>\n<div align=\"center\">***<\/div>\n<p>Fui inteligente o suficiente para ser aprovado na Casper L\u00edbero (tudo bem, foi na segunda chamada), mas n\u00e3o era esperto o bastante para perceber que eu n\u00e3o tinha uma namorada. Ela tinha deixado muito claro: ela iria seguir sua vida e guardar aquele final de ano como uma eterna lembran\u00e7a de algo que n\u00e3o voltaria mais.<\/p>\n<p>Na minha cabe\u00e7a oca, que at\u00e9 hoje n\u00e3o aprende a escapar das armadilhas do cora\u00e7\u00e3o, s\u00f3 havia uma forma de constatar o que ainda existia entre n\u00f3s. Pedi uma folga na quarta que antecede o feriado da Semana Santa. Na ter\u00e7a eu j\u00e1 estava no \u00f4nibus Rio de Janeiro &#8211; Rio Grande, da Penha. Foi a pior viagem da minha vida. O \u00f4nibus atrasou a partida e quebrou duas vezes no caminho. Levei 26 horas entre S\u00e3o Paulo e Pelotas. Pouco antes das oito da noite da quarta, um t\u00e1xi sa\u00eddo da rodovi\u00e1ria chegava \u00e0 Cohab Fragata, trazendo um sujeito semi-careca (coisas da faculdade), mas louco para rever a Rosa.<\/p>\n<p>Ela estava na porta de casa. Parecia at\u00e9 que estava me esperando&#8230; Quando finalmente reconheceu quem estava saindo do t\u00e1xi, ela levou um susto.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o acredito!<\/p>\n<p>N\u00e3o tive a recep\u00e7\u00e3o que eu esperava: ganhei um abra\u00e7o e os tradicionais tr\u00eas beijinhos na face. Ainda segurando a mala quando come\u00e7amos a conversar.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que \u00e9 que tu est\u00e1s fazendo aqui?<\/p>\n<p>&#8211; Eu vim te ver! Gostou da surpresa?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9&#8230; Realmente foi uma surpresa&#8230; &#8211; respondeu, num tom de voz s\u00e9rio, evitando olhar diretamente para mim.<\/p>\n<p>Sentamos ali mesmo na frente do port\u00e3o, nosso cantinho, onde tudo havia come\u00e7ado e terminado. Falamos um bocado at\u00e9 que ela finalmente contou o que a mantinha t\u00e3o angustiada.<\/p>\n<p>&#8211; D\u00e9, estou namorando&#8230;<\/p>\n<p>Eu sou mesmo uma grande besta. S\u00f3 mesmo um idiota completo imaginava n\u00e3o ouvir essas palavrinhas. O nome do felizardo era Pablo, um rapaz que ela conheceu na Ufpel. Era \u00f3rf\u00e3o de pai e m\u00e3e, morava com a tia e via na Rosa um porto seguro, algu\u00e9m que pudesse lhe dar toda a estabilidade emocional poss\u00edvel. Em contrapartida, ele forneceria amor e carinho sempre que necess\u00e1rio, e n\u00e3o apenas uma vez por ano. Como num estalo, j\u00e1 tinha chegado o s\u00e1bado de Aleluia, data marcada para a triste viagem de volta.<\/p>\n<p>O tempo passou, as cartas da Rosa pararam de chegar, e a cada novo final de ano recebia dos meus primos algumas informa\u00e7\u00f5es novas: o casamento da Ver\u00f4nica e o primeiro filho dela; o casamento da Rosa com o Pablo, a mudan\u00e7a da Rosa com o marido para o Centro, o casamento do irm\u00e3o da Rosa, a <a href=\"https:\/\/marmota.org\/blog\/a-pessoa-certa-no-momento-errado\/\" target=\"_blank\" title=\"\u00c9 como se fosse a parte um\" rel=\"noopener\"><b>apari\u00e7\u00e3o da \u00cdris<\/b><\/a>, que logo em seguida casou tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>No \u00faltimo final de ano do mil\u00eanio, mais precisamente em dia 27 de outubro de 2000, a festa da Ver\u00f4nica (alguns quilos a mais, cabelo curto e tingido de ruivo) tinha um tom familiar. Seu filho Jo\u00e3o Paulo, j\u00e1 com tr\u00eas anos, brincava alegremente com as crian\u00e7as da rua. Meus outros primos da minha idade levaram seus c\u00f4njuges e rebentos. Os mais novos, aqueles do tempo do clubinho da crian\u00e7a, falavam em seus &#8220;rolos&#8221;.<\/p>\n<p>Diante daquilo tudo, um sujeito que acompanhou todas as mudan\u00e7as de idades, cores de cabelo e responsabilidades, e que parecia viver apenas das boas lembran\u00e7as. Talvez se eu fosse mais maduro e despachado, como qualquer cidad\u00e3o com a minha idade, conseguiria ignorar tantos detalhes e contar in\u00fameras historinhas como essa usando um ou dois par\u00e1grafos. Mas de tanto valorizar um beijo como se fosse o primeiro, ou uma paix\u00e3o de ver\u00e3o como se fosse uma hist\u00f3ria \u00e9pica e inesquec\u00edvel, continuo cada vez pior no quesito paquera, e ainda mais desiludido nessa coisa que voc\u00eas chamam de amor.<\/p>\n<p>Mas sabem de uma coisa? O tempo \u00e9 s\u00e1bio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Antes de come\u00e7ar, preciso pedir desculpas sinceras ao Marcos Vasconcelos e ao Ian Black. O primeiro me convidou para continuar a corrente criada pelo segundo. Mas eu tive que deturpar um pouco a id\u00e9ia original.) No come\u00e7o do S\u00e9culo XX, a cidade de Pelotas crescia num ritmo fren\u00e9tico, os pr\u00f3speros fazendeiros da \u00e9poca acumulavam riquezas. 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