{"id":1736,"date":"2006-12-27T12:35:58","date_gmt":"2006-12-27T15:35:58","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/nova-carta-ferroviaria-do-papai-noel"},"modified":"2006-12-27T12:35:58","modified_gmt":"2006-12-27T15:35:58","slug":"nova-carta-ferroviaria-do-papai-noel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/nova-carta-ferroviaria-do-papai-noel\/","title":{"rendered":"Nova carta (ferrovi\u00e1ria) do Papai Noel"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\">Aquele velho batuta de barba branca est\u00e1 me acostumando mal. Passei a noite do dia 24 inteira aguardando por um sinal qualquer. Uma lembrancinha, um recado, qualquer sinal de vida do gorducho vermelho. Nada feito.<\/p>\n<p>Tive que esperar por mais uma madrugada at\u00e9 encontrar um embrulho enorme embaixo da \u00e1rvore. Ao abrir duas surpresas: um lindo kit da Frateschi, para aficcionados do ferromodelismo &#8211; vers\u00e3o para adultos do Ferrorama, brinquedo que sempre quis na minha inf\u00e2ncia. Veio ainda uma curiosa pedrinha cor-de-rosa, que remete a uma das minhas frases preferidas, tirada daquele cl\u00e1ssico desenho do Charlie Brown.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/presente2712.jpg\"><\/div>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o, como n\u00e3o poderia deixar de ser, veio no fim da noite, por e-mail.<\/p>\n<p>&#8212; original message &#8212;<br \/>\nFrom: Papai Noel<br \/>\nFecha: 26\/12\/2006 22:33:44<br \/>\nTo: Andr\u00e9 Marmota<br \/>\nSubject: Feliz Natal<\/p>\n<p>Ho, ho, ho! Adivinha quem \u00e9, meu amiguinho Marmota!<\/p>\n<p>\u00c9 com muita felicidade que lhe escrevo mais uma vez nessa \u00e9poca t\u00e3o querida por n\u00f3s! Eu s\u00f3 lamento profundamente o atraso&#8230; Infelizmente, nem todo mundo em seu pa\u00eds se comportou direito. Estou me referindo aos controladores de v\u00f4o em sua terra. Acredite, meu rapaz, cheguei a ficar mais de quatro horas com meu tren\u00f3 parado, sem autoriza\u00e7\u00f5es&#8230; Uma l\u00e1stima.<\/p>\n<p>Mas enfim, nobre colorado. Quero reafirmar aqui a satisfa\u00e7\u00e3o que tenho em saber que, ao contr\u00e1rio da maioria das pessoas hoje em dia, voc\u00ea continua desejando presentes sentimentais e n\u00e3o materiais. Bem, voc\u00ea j\u00e1 sabe o quanto eu fico triste diante da deterioriza\u00e7\u00e3o dos valores humanos&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o esqueci minha trapalhada com voc\u00ea no ano passado, quando lhe trouxe a pessoa certa no lugar errado. Dessa vez, resolvi ignorar seu pedido de sempre e lhe dar um presente por minha conta e risco. Lembrei ent\u00e3o de uma antiga vontade sua, que voc\u00ea sonhava em ganhar quando era crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Por isso, meu querido amigo, \u00e9 com alegria que anuncio: seu presente \u00e9 um trem el\u00e9trico. Mesmo assim, meu rapaz, preciso admitir que fiquei um pouco ensimesmado, pensando se voc\u00ea iria gostar do presente. Afinal, eu sei que, ultimamente, voc\u00ea n\u00e3o anda muito afeito a sonhos. Para refor\u00e7ar meu desejo, coloquei, dentro do embrulhinho, uma pedra.<\/p>\n<p>Sim, senhor, sei que voc\u00ea adora essa met\u00e1fora simp\u00e1tica. Bem, para que voc\u00ea n\u00e3o fique t\u00e3o zangado: n\u00e3o \u00e9 exatamente uma pedra. Na geologia, esse tipo de rocha \u00e9 conhecido como geodo. Ela tem esse nome por conta de uma caracter\u00edstica bem marcante: por fora \u00e9 uma pedrinha comu. Por dentro, ela tem uma cavidade oca, preenchida e revestida por minerais que formam a apar\u00eancia magn\u00edfica de um cristal.<\/p>\n<p>Percebeu que seu geodo veio repartido, especialmente para que voc\u00ea perceba isso? Agora, sempre que voc\u00ea disser &#8220;e eu, uma pedra&#8221;, pode dizer &#8220;e eu, um geodo&#8221;. Porque todos somos assim. Por fora, muitas vezes transmitimos uma imagem \u00e1spera, dura, pouco atraente. \u00c9 a nossa armadura. Nosso brilho, aquilo que h\u00e1 de mais lindo, est\u00e1 no interior.<\/p>\n<p>Repare ainda que existem duas metades de geodo. Ou melhor: se continuarmos com essa representa\u00e7\u00e3o humanizada, \u00e9 preciso refor\u00e7ar que cada uma das partes \u00e9 um geodo \u00fanico, meu amiguinho. A outra parte existe apenas para que voc\u00ea se recorde: ainda que apare\u00e7a outra pedra em sua vida, seu brilho interior permanece o mesmo. O mesmo acontece com a outra. Mas as duas pedrinhas, ainda que tenham formas distintas, fazem todo sentido quando est\u00e3o juntas.<\/p>\n<p>Entenda onde quero chegar, nobre geodo rosado: voc\u00ea n\u00e3o precisa abdicar seus sonhos, seu brilho, nada disso que te preenche, apenas para que qualquer pedregulho se aproxime. Quando voc\u00ea menos esperar, voc\u00ea vai identificar a pedrinha que d\u00e1 todo sentido. Ent\u00e3o voltamos ao trem el\u00e9trico: mesmo sem companhia, este presente pode aflorar em voc\u00ea justamente a percep\u00e7\u00e3o de que os sonhos s\u00e3o fundamentais na vida de qualquer um. At\u00e9 mesmo a sua vidinha regrada e de poucas mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>E n\u00f3s sabemos que os sonhos, para se realizarem, precisam de esfor\u00e7o, dedica\u00e7\u00e3o e tempo para ser embasados, constru\u00eddos e lapidados na terra onde voc\u00ea tem os p\u00e9s bem cravados. Como cantava aquela bandinha de m\u00fasica da sua meninice, lembre-se que \u201co cora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma esta\u00e7\u00e3o pra embarcar no trem azul dos sonhos que vai passar\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 posso ouvir sua pergunta: \u201cMas Noel, meu velho, o trem que ganhei \u00e9 vermelho, n\u00e3o azul!\u201d. Ora, e voc\u00ea acha que me esqueceria da sua cor favorita, meu amiguinho maquinista! Agora voc\u00ea tem um trenzinho vermelho, que vai te levar, com ou sem o geodo extra, para o ano novo!<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, voc\u00ea anda reclamando demais de 2006, sem qualquer raz\u00e3o. Porque veja s\u00f3: seu Inter foi campe\u00e3o; voc\u00ea passeou por Buenos Aires e Montevid\u00e9u; participou do anivers\u00e1rio de 90 anos de sua v\u00f3; desempenhou seu trabalho dignamente; preparou um DVD daquela viagem de maneira especial&#8230;<\/p>\n<p>Foi um ano que voc\u00ea tamb\u00e9m se predisp\u00f4s a gostar um pouquinho de poesia, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Segue um poema do Bandeira, que tem tudo a ver com esse seu presentinho. Chama-se Trem de Ferro, conhece?<\/p>\n<p>Caf\u00e9 com p\u00e3o<br \/>\nCaf\u00e9 com p\u00e3o<br \/>\nCaf\u00e9 com p\u00e3o<\/p>\n<p>Virge Maria que foi isso maquinista?<\/p>\n<p>Agora sim<br \/>\nCaf\u00e9 com p\u00e3o<br \/>\nAgora sim<br \/>\nVoa, fuma\u00e7a<br \/>\nCorre, cerca<br \/>\nAi seu foguista<br \/>\nBota fogo<br \/>\nNa fornalha<br \/>\nQue eu preciso<br \/>\nMuita for\u00e7a<br \/>\nMuita for\u00e7a<br \/>\nMuita for\u00e7a<\/p>\n<p>O\u00f4&#8230;<br \/>\nFoge, bicho<br \/>\nFoge, povo<br \/>\nPassa ponte<br \/>\nPassa poste<br \/>\nPassa pasto<br \/>\nPassa boi<br \/>\nPassa boiada<br \/>\nPassa galho<br \/>\nDa ingazeira<br \/>\nDebru\u00e7ada<br \/>\nNo riacho<br \/>\nQue vontade<br \/>\nDe cantar!<br \/>\nO\u00f4&#8230;<\/p>\n<p>Quando me prendero<br \/>\nNo canavi\u00e1<br \/>\nCada p\u00e9 de cana<br \/>\nEra um ofici\u00e1<br \/>\nO\u00f4&#8230;<br \/>\nMenina bonita<br \/>\nDo vestido verde<br \/>\nMe d\u00e1 tua boca<br \/>\nPra matar minha sede<br \/>\nO\u00f4&#8230;<br \/>\nVou mimbora vou mimbora<br \/>\nN\u00e3o gosto daqui<br \/>\nNasci no sert\u00e3o<br \/>\nSou de Ouricuri<br \/>\nO\u00f4&#8230;<\/p>\n<p>Vou depressa<br \/>\nVou correndo<br \/>\nVou na toda<br \/>\nQue s\u00f3 levo<br \/>\nPouca gente<br \/>\nPouca gente<br \/>\nPouca gente&#8230;<\/p>\n<p>Espero, querido amiguinho, que 2007 seja o ano dos sonhos pra voc\u00ea. Dos sonhos poss\u00edveis e, quem sabe, alguns sonhos imposs\u00edveis. Um ano em que voc\u00ea n\u00e3o precisar\u00e1 voar nas alturas como um tresloucado \u2013 coisa que nunca foi o seu perfil \u2013 mas voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o ter\u00e1 que ficar com os p\u00e9s t\u00e3o fincados assim no ch\u00e3o. No trem, j\u00e1 estar\u00e1 bom.<\/p>\n<p>Dedique-se ao seu trenzinho dos sonhos e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da cidade ao redor dele. Trabalhoso ser\u00e1, eu sei, mas nada \u00e9 mais gratificante do que ver florescer algo que lhe exigiu o m\u00e1ximo de for\u00e7a de vontade, desvelo, cuidado, aten\u00e7\u00e3o, paci\u00eancia, criatividade, sagacidade, devo\u00e7\u00e3o, ternura, alegria e amor \u2013 qualidades que voc\u00ea tem de sobra, sendo um cara bacana como sabemos que \u00e9. Se quiser, deixe o geodo bem perto da esta\u00e7\u00e3o: de repente, algu\u00e9m desembarca trazendo nas m\u00e3os aquela pedrinha especial&#8230;<\/p>\n<p>Espero que curta bastante o presente, assim como eu adorei procur\u00e1-lo. Um abra\u00e7o pra voc\u00ea e pra toda a sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>E, como de praxe,um feliz fim de Natal! Ho, ho, ho!<\/p>\n<p>Papai Noel<br \/>\nwww.santagreeting.net<\/p>\n<p>PS \u2013 A Mam\u00e3e Noel fez quest\u00e3o de embrulhar o seu presente nesse lindo papel com motivos infantis \u2013 \u00e9 que ela \u00e9 sua f\u00e3, l\u00ea seu blog todos os dias e te admira muito! Eu sinto um pouco de ci\u00fame, confesso, mas sou maior que isso. N\u00e3o v\u00ea minha barriga? (Piada fraca, como voc\u00ea gosta).<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m<br \/>\n<a href=\"\/blog\/2003\/12\/25\/789\" target=\"_blank\"><b>Carta do Papai Noel (2003)<\/b><\/a><br \/>\n<a href=\"\/blog\/2004\/12\/27\/1141\" target=\"_blank\"><b>Nova carta (oriental) do Papai Noel (2004)<\/b><\/a><br \/>\n<a href=\"\/blog\/2005\/12\/27\/1433\" target=\"_blank\"><b>Nova carta (rom\u00e2ntica) do Papai Noel (2005)<\/b><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aquele velho batuta de barba branca est\u00e1 me acostumando mal. Passei a noite do dia 24 inteira aguardando por um sinal qualquer. Uma lembrancinha, um recado, qualquer sinal de vida do gorducho vermelho. Nada feito. Tive que esperar por mais uma madrugada at\u00e9 encontrar um embrulho enorme embaixo da \u00e1rvore. 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