{"id":1733,"date":"2006-09-25T00:41:51","date_gmt":"2006-09-25T03:41:51","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/a-misteriosa-etica-do-famarismo"},"modified":"2006-09-25T00:41:51","modified_gmt":"2006-09-25T03:41:51","slug":"a-misteriosa-etica-do-famarismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/a-misteriosa-etica-do-famarismo\/","title":{"rendered":"A misteriosa \u00e9tica do &#8220;famarismo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/misterio.gif\" align=\"right\">Um dos personagens mais inesquec\u00edveis daquela viagem para a Alemanha que fiz h\u00e1 quase um ano era um dos cinco companheiros africanos lusoparlantes. Certamente a figura mais curiosa que j\u00e1 vi em toda a minha vida. N\u00e3o vou julg\u00e1-lo agora, da mesma forma que n\u00e3o o fiz enquanto convivemos lado a lado. At\u00e9 porque, seu pa\u00eds luta desde 1999 pela democratiza\u00e7\u00e3o, depois de uma longa e desgastante guerra civil. Ali\u00e1s, dentro de seu ramo de atividade, recebeu o pr\u00eamio de melhor profissional de comunica\u00e7\u00e3o em 2004, concedido pela federa\u00e7\u00e3o de futebol desta na\u00e7\u00e3o da costa ocidental africana.<\/p>\n<p>Nas primeiras horas ao seu lado, n\u00e3o vi nada de errado com ele. Era um tipo f\u00edsico diferente, magro, baixo &#8211; seu perfil lembra o do ET, o Extraterrestre, de Spielberg. Durante nossa primeira atividade em grupo, conversamos tranquilamente. Inclusive mostrou-se interessado em saber mais sobre o problema envolvendo a arbitragem no Brasil &#8211; uma prova de que o esc\u00e2ndalo do Ed\u00edlson e do Danelon cruzou o oceano e foi longe. Mas antes, a turma havia chamado sua aten\u00e7\u00e3o: o outono em Bonn n\u00e3o era dos mais quentes, e ele certamente ficaria com frio. Como ele n\u00e3o tinha nenhum agasalho extra, fiz quest\u00e3o de emprestar uma blusa que tinha levado a mais.<\/p>\n<p>Poucos dias se passaram at\u00e9 que nosso amigo cometeu seu primeiro deslize. Quando parte do grupo chegou ao hotel, encontrou o recepcionista desesperado, tentando se comunicar em alem\u00e3o ou ingl\u00eas com o estranho h\u00f3spede, sem sucesso. Aliviado, o simp\u00e1tico atendente explicou que estava cobrando por algumas chamadas telef\u00f4nicas feitas no quarto. &#8220;Mas eu n\u00e3o liguei, eu n\u00e3o liguei&#8221;, repetia, furioso, o nosso personagem. Algu\u00e9m percebeu que as liga\u00e7\u00f5es eram todas para o celular de um dos nossos guias. &#8220;Ah, mas ele disse que eu podia ligar para ele, ele disse que podia&#8221;&#8230; Resumidamente, ele n\u00e3o tinha culpa. Era como se o problema fosse o telefone.<\/p>\n<p>Na mesma semana, nosso amigo decidiu retornar do curso acompanhado &#8211; provavelmente para ter certeza de que chegaria bem ao hotel. Naquela tarde, por um descuido, pegamos o U-bahn errado. Nada preocupante: descemos na primeira (e erma) esta\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, tomamos o trem de volta e finalmente corrigimos nossa rota. No dia seguinte, as explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Pessoal, perdi-me outra vez.<br \/>\n&#8211; Mas o p\u00e1, tens que ter cuidado.<br \/>\n&#8211; Mas n\u00e3o fui eu, foram eles&#8230; Fala ingl\u00eas, tinha o mapa&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Fala ingl\u00eas e tinha o mapa&#8221; foi uma esp\u00e9cie de mantra repetido exaustivamente por toda a turma, sempre \u00e0s gargalhadas. Mas nem sempre consegu\u00edamos nos divertir com seu estranho comportamento: logo outras atitudes estranhas viraram motivo de fofoca entre os colegas. &#8220;Andr\u00e9, sabia que ele encomendou um aparelho de MD port\u00e1til daquela oferta em Col\u00f4nia? Pois \u00e9, e reparou ainda que ele n\u00e3o tirou a sua blusa o tempo todo?&#8221;. Traduzindo: como \u00e9 que algu\u00e9m vindo de uma na\u00e7\u00e3o sabidamente problem\u00e1tica economicamente comprava um MD mas n\u00e3o um agasalho?<\/p>\n<p>Ficou muito clara a mudan\u00e7a de postura: a figura comunicativa e interessada do primeiro dia foi se transformando, sabe-se l\u00e1 por que motivo. Pode ter sentido a hostilidade ou os coment\u00e1rios dos colegas, ou espertamente pode ter se passado por v\u00edtima, esperando algum apoio ou ajuda. O fato \u00e9 que ele n\u00e3o comprou eletr\u00f4nico nenhum, e assim que ganhou uma sacola de roupas de um dos funcion\u00e1rios da Deutsche Welle, ele devolveu a minha blusa. Lavada.<\/p>\n<p>Mas ele continuou, at\u00e9 o \u00faltimo dia, negando toda a responsabilidade por qualquer ato praticado, culpando sempre os outros ou mesmo objetos inanimados. Nunca era ele. Seu semblante, por\u00e9m, n\u00e3o transmitia nenhuma indica\u00e7\u00e3o de maldade, ingenuidade, burrice&#8230; N\u00e3o dava pra saber as raz\u00f5es que o deixavam assim. Um dos colegas africanos, diante desse sintoma pouco comum, usou o primeiro nome do nosso amigo para criar uma nova palavra, de origem puramente afro-germano-portuguesa: &#8220;famarismo&#8221;. Substantivo masculino, identifica quem comete a\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o se responsabiliza por elas por raz\u00f5es desconhecidas.<\/p>\n<p>A primeira not\u00edcia que tive do homem que inspirou o &#8220;famarismo&#8221; quando sa\u00ed da Alemanha foi a de que ele deixou Bonn e foi para Lisboa. Dizem, na maldade, fugindo de alguma coisa. Como diria Dona Milu, usar do &#8220;famarismo&#8221; em detrimento a uma postura transparente e que n\u00e3o deixe d\u00favidas, \u00e9 um grande mist\u00e9rio. E isso vale tanto para um humilde profissional da \u00c1frica quanto para <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/brasil\/ult96u83745.shtml\" target=\"_blank\"><b>um Presidente da Rep\u00fablica de um pa\u00eds sul-americano<\/b><\/a>.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/barrale.jpg\"><\/div>\n<p>Esse texto aproveita o gancho da \u00faltima semana antes da grande festa da democracia, al\u00e9m da sugest\u00e3o interessante da <a href=\"http:\/\/lauravive.blogspot.com\/2006\/09\/blogagem-coletiva-sobre-tica-dia-2509_25.html\" target=\"_blank\"><b>Laura, do blog Caminhar<\/b><\/a>, que prop\u00f4s uma blogagem coletiva sobre \u00e9tica.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o me pe\u00e7am para falar muito mais sobre pol\u00edtica. Tenho evidentemente as minhas opini\u00f5es, uma enquete bobinha (sem pretens\u00e3o de virar pesquisa eleitoral), muitas restri\u00e7\u00f5es ao partido do atual presidente e ao sistema de votos proporcionais para escolha do legislativo. Mas elas s\u00f3 valem para discuss\u00f5es acaloradas com pessoas de esquerda ou direita. N\u00e3o nego a sua import\u00e2ncia, mas a escolha dos nossos representantes ainda n\u00e3o \u00e9 feita baseada nos decib\u00e9is dos aplausos ou dos gritos.<\/p>\n<p>Quer <a href=\"http:\/\/www.idelberavelar.com\/archives\/politica\" target=\"_blank\"><b>debater e defender seu ponto de vista<\/b><\/a> com unhas e dentes? Muito legal. Quer votar usando um <a href=\"http:\/\/www.narizdepalhaco.com.br\" target=\"_blank\"><b>nariz de palha\u00e7o<\/b><\/a> e <a href=\"http:\/\/www.rirparanaochorar.com.br\" target=\"_blank\"><b>rir para n\u00e3o chorar<\/b><\/a>? Legal tamb\u00e9m<\/b><\/a>. Quer me convidar? Bacana, mas s\u00f3 se for para assistir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos personagens mais inesquec\u00edveis daquela viagem para a Alemanha que fiz h\u00e1 quase um ano era um dos cinco companheiros africanos lusoparlantes. Certamente a figura mais curiosa que j\u00e1 vi em toda a minha vida. N\u00e3o vou julg\u00e1-lo agora, da mesma forma que n\u00e3o o fiz enquanto convivemos lado a lado. 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