{"id":1710,"date":"2003-04-27T04:01:00","date_gmt":"2003-04-27T07:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/castigo-divino-ou-a-historia-se-repete"},"modified":"2003-04-27T04:01:00","modified_gmt":"2003-04-27T07:01:00","slug":"castigo-divino-ou-a-historia-se-repete","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/castigo-divino-ou-a-historia-se-repete\/","title":{"rendered":"Castigo divino (ou A hist\u00f3ria se repete)"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\">Antes de come\u00e7ar este longo epis\u00f3dio relacionado a <a href=\"\/blog\/2003\/04\/26\/461\" target=\"_blank\"><b>imagem da semana<\/b><\/a>, reproduzo aqui um antigo texto, escrito h\u00e1 cerca de um ano, ainda na era pr\u00e9-blog.<\/p>\n<p><tt>Adilson, Andr\u00e9, Narazaki e Sakate se encontraram na \u00faltima sexta-feira santa. Os quatro pensaram seriamente em encontrar uma churrascaria rod\u00edzio e cometer uma blasf\u00eamia. Sem sucesso, os quatro resolveram jogar uma partidinha de boliche amistosa no Shopping An\u00e1lia Franco.<\/p>\n<p>As emo\u00e7\u00f5es come\u00e7aram no trajeto, todos a bordo do Fuzom\u00f3vel. Circulando durante \u00e0 noite pela cidade, o rapaz certamente acumulou mais 672 pontos na carteira. O \"mortorista\" ainda gastou meio tanque de combust\u00edvel andando pela cidade com os est\u00fapidos. J\u00e1 no local da peleja, os quatro tiveram uma nova frustra\u00e7\u00e3o: restaurantes fechados e sem um vest\u00edgio sequer de uma suculenta picanha mal passada.<\/p>\n<p>\"Assim \u00e9 demais, deveria ter comido os jab\u00e1s das escuderias\", reclamou Narazaki, que estava sem comer h\u00e1 horas em fun\u00e7\u00e3o da cobertura da F\u00f3rmula 1 em Interlagos. Depois do joguinho, mais uma volta pela cidade at\u00e9 chegar a mais uma parada, desta vez para apreciar o cl\u00e1ssico bauru do Ponto Chic. Carne, afinal. Mas j\u00e1 era s\u00e1bado.<\/tt><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria rendeu coment\u00e1rios entre os amigos durante semanas. Um ano depois, novamente viv\u00edamos a data sagrada para os cat\u00f3licos. No esfor\u00e7o de criar uma tradi\u00e7\u00e3o em estupidez, os mesmos amigos se reuniram outra vez na noite da Paix\u00e3o de Cristo. Miss\u00e3o: churrasco. <\/p>\n<p>Al\u00e9m dos quatro citados acima, Lello e Max tamb\u00e9m foram convidados &#8211; com isso, dividimos o grupo entre o Fuzom\u00f3vel e o Marmoturbo. &#8220;Apesar de ser temente a Deus, n\u00e3o acredito que \u00e9 pecado comer carne na Sexta-feira Santa&#8221;, argumentou Max. Realmente, com f\u00e9 no cora\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m acho que \u00e9 poss\u00edvel. &#8220;Os her\u00e9ticos da turma se resumem a mim e ao Lello. Todos os demais s\u00e3o fi\u00e9is cordeiros seguidores do Velho e do Novo Testamento. Estou ansioso para cravar meus dent\u00f5es numa picanha suculenta&#8221;, babava Adilson.<\/p>\n<p>Pouco antes das dez horas, os seis intr\u00e9pidos iniciaram a longa jornada pela cidade de S\u00e3o Paulo. Primeira parada: Marginal Tiet\u00ea. Assim como no ano passado, passamos em frente a nossa churrascaria preferida. &#8220;N\u00e3o me lembro bem do que aconteceu no ano passado. Ser\u00e1 que n\u00f3s n\u00e3o chegamos tarde demais? N\u00e3o tinha nenhuma outra churrascaria aberta?&#8221;, perguntava Adilson, o mais entusiasmado. N\u00e3o era o hor\u00e1rio: mais uma vez, ela estava com as portas fechadas.<\/p>\n<p>Mas a esperan\u00e7a reacendeu alguns metros depois, com uma grande faixa: &#8220;Pare aqui! Estamos funcionando! Temos carne e frutos do mar!&#8221;. \u00d3tima pedida para quem ainda relutava em comer carne. Antes de decretarmos o fim da viagem, nos aproximamos da entrada e perguntamos como a casa &#8211; que por sinal era muito chique &#8211; funcionava.<\/p>\n<p>&#8211; Tem carne a\u00ed? &#8211; questionamos, apenas para confirmar.<br \/>&#8211; Sim, senhor. E apetitosos frutos do mar, al\u00e9m de um farto buffet de saladas.<br \/>&#8211; Beleza. Quanto morre?<br \/>&#8211; O pre\u00e7o, especial para este feriado, \u00e9 de 31 reais. Bebidas e sobremesas n\u00e3o inclusas.<br \/>&#8211; CARAL&#8230; Ops, Ah, sim. Obrigado.<\/p>\n<p>Antes de prosseguir a busca, pausa para reunir o conselho.<\/p>\n<p>&#8211; Trinta paus? Mas nem&#8230;<br \/>&#8211; J\u00e1 vi esse filme antes. Olha o bauru do ponto chic&#8230;<br \/>&#8211; Imagine, aqui na Marginal t\u00e1 cheio de churrascaria!<br \/>&#8211; \u00c9, mas se duvidar, o pre\u00e7o vai ser esse mesmo&#8230;<br \/>&#8211; Pessoal, tive uma id\u00e9ia. Eu conhe\u00e7o uma que \u00e9 classe A l\u00e1 na ZL.<br \/>&#8211; Beleza, vamo nessa.<\/p>\n<p>A tal churrascaria classe A ficava ao lado do Carrefour Aricanduva, t\u00e3o longe quanto a minha casa. No trajeto, sinal evidente do desespero provocado pela fome: Adilson, que ia na frente, notou uma churrascaria aberta e parou o carro. Era uma daquelas cujo cartaz com o pre\u00e7o \u00e9 maior que a placa com o nome do estabelecimento: R$ 7,90 por pessoa. Para os padr\u00f5es paulistanos, podemos definir o lugar como&#8230; joinha. Apelidei a espelunca com o singelo nome de &#8220;Churrascaria Boi Bumb\u00e1&#8221;. Nova reuni\u00e3o do conselho.<\/p>\n<p>&#8211; E a\u00ed? Essa t\u00e1 aberta!<br \/>&#8211; Sete e noventa pra comer nesse boi bumb\u00e1? C\u00ea t\u00e1 loco?<br \/>&#8211; Boa. Eu concordo. Viemos pra jantar, n\u00e3o pra nos matar.<br \/>&#8211; Ali\u00e1s, estou com fome. A gente t\u00e1 longe da Aricanduva?<br \/>&#8211; T\u00e1 um pouco. Mas relaxe. O lugar \u00e9 classe A, voc\u00eas v\u00e3o ver.<br \/>&#8211; Beleza. Fora Boi Bumb\u00e1.<\/p>\n<p>Eu estava convicto de que seria um risco entrar naquela biboca. Mas tenho certeza de que muitos se arrependeram de n\u00e3o t\u00ea-lo feito. Mais alguns quil\u00f4metros, incluindo algumas ruas pr\u00f3ximas que remetiam a algum cap\u00edtulo de &#8220;Turma do Gueto&#8221;, at\u00e9 finalmente emborcarmos os b\u00f3lidos no estacionamento do hipermercado, pouco depois das onze horas.<\/p>\n<p>Logo no guich\u00ea, a ducha fria. Churrascaria fechada. Um misto de riso e desespero que culminou em uma nova &#8211; e nervosa &#8211; reuni\u00e3o do conselho.<\/p>\n<p>&#8211; Put i keep are you, man! Tanta volta pra nada!<br \/>&#8211; E se a gente fosse ali no Macronalds ou no Habibs mesmo?<br \/>&#8211; Eu t\u00f4 com foooome!!!<br \/>&#8211; Porra! Que man\u00e9 Rabibis! Vamos comer carne!!!<br \/>&#8211; Ent\u00e3o vamos decidir logo. J\u00e1 est\u00e1 ficando tarde.<br \/>&#8211; E eu estou com fome!!!<br \/>&#8211; E se a gente antecipasse o final da hist\u00f3ria e fosse l\u00e1 no Ponto Chic da Paulista?<br \/>&#8211; N\u00e3o! Isso n\u00e3o!!! N\u00e3o quero repetir o mesmo final!!!<br \/>&#8211; Tudo bem. Vamos tentar o Outback do An\u00e1lia Franco. O que acham?<br \/>&#8211; Beleza. B\u00f3ra.<\/p>\n<p>Mais voltas, mais gasolina. E alguns coment\u00e1rios.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos gastar no Outback os mesmos trinta paus daquela primeira&#8230;<br \/>&#8211; Que nada. \u00c9 s\u00f3 n\u00e3o pedir a sobremesa.<br \/>&#8211; Querem saber? N\u00e3o vamos gastar nada. Algo me diz que l\u00e1 est\u00e1 fechado.<br \/>&#8211; Fechado uma ova! Eles ficam abertos at\u00e9 bem tarde!<\/p>\n<p>Finalmente, o shopping. E a constata\u00e7\u00e3o: restaurante aberto apenas at\u00e9 as onze da noite. Atraso de meia hora. Desta vez, a reuni\u00e3o do conselho n\u00e3o foi t\u00e3o tensa quanto a outra.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 estou vendo na minha frente o bauru do Ponto Chic&#8230;<br \/>&#8211; T\u00e1, mas antes, j\u00e1 que estamos aqui, que tal um bolichezinho?<br \/>&#8211; Que man\u00e9 boliche! Vamos decidir logo o que vamos comer!<br \/>&#8211; E o Burdog?<br \/>&#8211; Ah, p\u00e1ra! Se \u00e9 pra comer no Burdog, vou comer em casa!<br \/>&#8211; Tive uma id\u00e9ia. O Sujinho, da Consola\u00e7\u00e3o, fica aberto 24 horas.<br \/>&#8211; \u00c9 legal l\u00e1. Podemos tentar.<br \/>&#8211; Eu j\u00e1 ouvi falar. Parece que eles fecham apenas um dia por ano, n\u00e9?<br \/>&#8211; \u00c9. Pela nossa sorte, deve ser na Sexta-feira Santa&#8230;<br \/>&#8211; Hahahahahahahahahahahahahahaha!<br \/>&#8211; Beleza. Sujinho, ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Voltamos praticamente ao nosso ponto de partida. Sem sequer tentar a zona Sul, poder\u00edamos perfeitamente arriscar alguma coisa na Avenida dos Bandeirantes. Mas depois de quebrar a cara, certamente optar\u00edamos por um caf\u00e9 da manh\u00e3 na padaria. No caminho de volta, passamos novamente pelo inesquec\u00edvel &#8220;Boi Bumb\u00e1&#8221;. J\u00e1 estava fechado, o que representava um al\u00edvio para mim.<\/p>\n<p>Ainda faltavam alguns minutos para a meia noite quando o celular tocou, j\u00e1 na subida da Consola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Cara, vamos tentar um \u00faltimo recurso. Paulista Grill, na Rebou\u00e7as. Se n\u00e3o der, vamos de Sujinho mesmo.<br \/>&#8211; Beleza. Toca o barco.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o havia qualquer expectativa. Est\u00e1vamos conformados com a hip\u00f3tese de encararmos novamente o sandu\u00edche com rosbife, o famigerado bauru do Ponto Chic, caso tudo desse errado. Pr\u00f3ximos ao Paulista Grill, no entanto, uma luz: parecia aberto! Sim! Pessoas estavam l\u00e1 dentro, sentados \u00e0 mesa com aquilo que procur\u00e1vamos durante toda a noite: um prato com carne&#8230;<\/p>\n<p>Paramos o carro ao lado da porta. De longe, o gesto do manobrista: mais uma vez, nada feito. E eu, uma pedra. No r\u00e1dio do carro, o locutor anuncia: meia-noite. J\u00e1 era s\u00e1bado de Aleluia. Na pr\u00e1tica, a partir daquele instante, terminava a &#8220;proibi\u00e7\u00e3o&#8221; respeitada pelos cat\u00f3licos, dogma que tentou ser quebrado pelos est\u00fapidos pelo segundo ano consecutivo.<\/p>\n<p>Foram horas em fun\u00e7\u00e3o de um objetivo, e outra vez as circunst\u00e2ncias puseram fim ao nosso desafio \u00e0s leis divinas. Parecia at\u00e9 castigo. Ou, quem sabe, uma li\u00e7\u00e3o, que pode ser resumida em uma \u00fanica palavra: respeito.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/sujinho2704.jpg\" align=\"right\">&#8220;Que nada. A li\u00e7\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil: ano que vem, vamos direto no Paulista Grill&#8221;, disseram alguns. Perfeitamente.<\/p>\n<p>Enfim, a noite terminou no Sujinho, mais um tradicional ponto de encontro dos paulistanos. Na porta, o aviso que poderia ter evitado todos os par\u00e1grafos anteriores: &#8220;abertos \u00e0 noite toda nesta sexta-feira&#8221;. Ainda deu tempo de &#8220;fugir&#8221; do flanelinha, em outra cena hil\u00e1ria desta odiss\u00e9ia. O jantar estava deliciosamente saboroso, n\u00e3o apenas pela qualidade dos pratos, mas por mais este inesquec\u00edvel encontro de amigos, capaz de render uma hist\u00f3ria marcante em nossas vidas.<\/p>\n<p>Links relacionados:<br \/><a href=\"http:\/\/www.churrascariamaninho.com.br\" target=\"_blank\"><b>Nossa churrascaria preferida<\/b><\/a><br \/><a href=\"http:\/\/pontochic.com.br\" target=\"_blank\"><b>Bauru do Ponto Chic<\/b><\/a><br \/><a href=\"http:\/\/www.carrefour.com.br\/site\/guia_bairro.asp?cod_loja=22\" target=\"_blank\"><b>Carrefour Aricanduva<\/b><\/a><br \/><a href=\"http:\/\/www.outbacksteakhouse.com\" target=\"_blank\"><b>Outback Steakhouse<\/b><\/a><br \/><a href=\"http:\/\/www.burdog.com.br\" target=\"_blank\"><b>Lanchonete Burdog (a de sempre)<\/b><\/a><br \/><a href=\"http:\/\/www.sujinho.com.br\" target=\"_blank\"><b>Sujinho da Consola\u00e7\u00e3o<\/b><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de come\u00e7ar este longo epis\u00f3dio relacionado a imagem da semana, reproduzo aqui um antigo texto, escrito h\u00e1 cerca de um ano, ainda na era pr\u00e9-blog. 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