{"id":1681,"date":"2010-08-14T00:01:05","date_gmt":"2010-08-14T03:01:05","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/presenteando-anadiomena"},"modified":"2010-08-14T00:01:05","modified_gmt":"2010-08-14T03:01:05","slug":"presenteando-anadiomena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/presenteando-anadiomena\/","title":{"rendered":"Presenteando Anadi\u00f4mena"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Ent\u00e3o um dia eu estive em uma praia deserta, vestindo meu cal\u00e7\u00e3o do Internacional. Parecia mesmo Cassandoca, em Ubatuba. Ali eu tive <a href=\"\/\/dialetica.org\/marmota\/sonhando-com-anadiomena\" target=\"_blank\"><b>uma vis\u00e3o<\/b><\/a> que mudou minha vida. Era V\u00eanus Anadi\u00f4mena, eterna amante saindo das \u00e1guas em busca do amor verdadeiro. Aquele di\u00e1logo, reproduzido em prosa, tornou-se oferenda capaz de aflorar das \u00e1guas outras lembran\u00e7as doces, verdadeiras, fundamentais. Uma alegria semelhante aos ventos inesperados na tarde quente soprou enquanto permanecia sentado em uma pedra, tentando guardar aquela sensa\u00e7\u00e3o para mim.<\/p>\n<p>De repente, fechava meus olhos e, mesmo sem querer, l\u00e1 estava eu naquela praia. Mas n\u00e3o era como da primeira vez: a not\u00edcia daquela apari\u00e7\u00e3o ef\u00eamera invadiu o inconsciente coletivo. Todos queriam saber quem era o barrigudo, carregado de frustra\u00e7\u00f5es, despertou uma deusa. Muitos torciam por um encontro para a eternidade. V\u00e1rios alertavam: deuses s\u00e3o ef\u00eameros e inconstantes&#8230;<\/p>\n<p>Mais uma vez, a gota que o orvalho escorreu da noite nos l\u00e1bios da aurora atingiu os seis azuis daquela criatura mult\u00edpede, alada&#8230; Linda. Ah se eu pudesse tir\u00e1-la desse mundo de sonhos e lev\u00e1-la para minha casa&#8230; N\u00e3o precisei pedir: ela segurou na minha m\u00e3o e, como se troc\u00e1ssemos alian\u00e7as, selamos nossa uni\u00e3o.<\/p>\n<p>Passei a dedicar horas da minha vida ali, naquela pedra, admirando o horizonte e sorrindo, bobo, feliz. Descobri que Anadi\u00f4mena, verdadeira p\u00e9rola, vivia em uma concha, onde colecionava outras de v\u00e1rias partes do mundo. Passei a atirar conchas na \u00e1gua, imaginando ser uma forma singela de representar o quanto me sentia bem em ficar ali. A retribui\u00e7\u00e3o era sempre maravilhosa: aparecia, sempre brilhando mais que o sol, e chegava bem pertinho. Lembrava que, entre sonho e realidade, n\u00e3o havia dist\u00e2ncia intang\u00edvel.<\/p>\n<p>At\u00e9 que um dia fechei os olhos, adormeci, atirei uma conchinha, mas o tempo fechou. Nuvens pesadas, chuva forte. E uma onda surpreendente me jogou para fora da pedra.<\/p>\n<p>Corri para qualquer lado. De repente, me vi perdido no meio da mata. Fiz o que pude para demonstrar for\u00e7a, mas o frio e a chuva eram mais fortes. N\u00e3o consegui segurar minha fraqueza. Ajoelhei, ergui os bra\u00e7os e pedi aux\u00edlio \u00e0 primeira entidade que pudesse aparecer.<\/p>\n<p>Surgiu uma figura alta, barbuda, com um belo traje. Chamou a aten\u00e7\u00e3o o fato de n\u00e3o ter uma perna. Ofereceu algumas folhas.<\/p>\n<p>&#8211; Mastigue isso. Vai tranquilizar sua mente.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00ea \u00e9 loco? Botar isso na boca? E quem \u00e9 voc\u00ea? Um saci maconhista?<\/p>\n<p>Aquela figura sorriu, pacientemente.<\/p>\n<p>&#8211; Sou Ossanha, meu caro. O Orix\u00e1 das plantas e das matas. Tenho o reino e poder das plantas, al\u00e9m de tranquilidade e equil\u00edbrio emocional que podem ajud\u00e1-lo. Agora mastigue e mantenha a calma. Vai ficar tudo bem.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/ossanha140810.jpg\" align=\"right\" \/>&#8211; N\u00e3o parece nada bem. Est\u00e1 vendo essa tempestade? Frente fria! Como eu posso ser feliz com Anadi\u00f4mena e um cal\u00e7\u00e3o do Inter? Ali\u00e1s&#8230; Espere a\u00ed! Voc\u00ea \u00e9 o cara daquela m\u00fasica infame! Coitado do homem que cai \/ No canto de Ossanha traidor \/ Atr\u00e1s de mandinga de amor \/ O amor s\u00f3 \u00e9 bom se doer \/ Vai vai vai&#8230; Sofrer! Ora, seu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me culpe. Nada tenho a ver com essa letra. V\u00e1 reclamar com Vin\u00edcius e Baden. E outra: voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 raciocinando. Afinal, o homem que diz &#8220;sou&#8221; n\u00e3o \u00e9, porque quem \u00e9 mesmo \u00e9 &#8220;n\u00e3o sou&#8221;. E o homem que diz &#8220;dou&#8221; n\u00e3o d\u00e1, porque quem d\u00e1 mesmo n\u00e3o diz. N\u00e3o concordas?<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1, t\u00e1. Com tanta \u00e1gua na cabe\u00e7a, n\u00e3o sei mais se sou ou se dou. S\u00f3 me diz uma coisa: essa tempestade vai passar ou vou ter que sair daqui? Posso gritar do alto daquela pedra alguma palavra m\u00e1gica, capaz de quebrar o encanto e nos deixar felizes de novo?<\/p>\n<p>&#8211; Encanto? N\u00e3o parou pra pensar que estas interp\u00e9ries s\u00e3o obras da natureza? Voc\u00ea devia aproveitar esta oportunidade pra pensar em voc\u00ea. Agora me diga: que coisas surgem em sua mente quando pensa em Anadi\u00f4mena?<\/p>\n<p>&#8211; Ah, as mais doces, amorosas, intensas&#8230; N\u00e3o consigo mais imaginar minha vida sem esse lugar aqui.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3timo. E como voc\u00ea demonstra isso a ela?<\/p>\n<p>&#8211; Mmmhhh&#8230; Eu fico admirando o horizonte&#8230; Atiro conchinhas para ela&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Conchinhas? CONCHINHAS???<\/p>\n<p>&#8211; U\u00e9&#8230; O que tem? Ela coleciona conchinhas, gosta delas.<\/p>\n<p>&#8211; Sim&#8230; Mas&#8230; S\u00f3 conchinhas??? Eu&#8230; Pensei que voc\u00ea a amasse!!!<\/p>\n<p>&#8211; Poxa, Ossanha, tem v\u00e1rias formas de mostrar isso, n\u00e3o acha? Observe outras praias por a\u00ed. Repare como tem gente atirando toda sorte de coisas na \u00e1gua, sem nenhum crit\u00e9rio ou raz\u00e3o. H\u00e1 uma banalidade t\u00e3o forte nisso tudo&#8230; Eu mesmo j\u00e1 dei presentes por a\u00ed  que me arrependo&#8230; Lembro daquelas cestas jogadas ao mar e vejo um vazio danado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Certo. Mas perceba: o vazio n\u00e3o est\u00e1 naquela cesta. Est\u00e1 em voc\u00ea.<\/p>\n<p>&#8211; Cuma?!<\/p>\n<p>&#8211; Meu amigo, esque\u00e7a o passado. Se voc\u00ea quer oferecer algo maior do que sua admira\u00e7\u00e3o e algumas conchas, mas s\u00f3 consegue ver o vazio de um cesto antigo, \u00e9 porque ele espera que voc\u00ea o preencha. Seus traumas, bobagens&#8230; Tudo de ruim que voc\u00ea associou a esta aus\u00eancia antes de subir naquela pedra pela primeira vez&#8230; Nada disso cabe entre voc\u00ea e sua amada Anadi\u00f4mena. Voc\u00ea consegue entender isso?<\/p>\n<p>&#8211; Cacetada&#8230; Estou me sentindo um idiota. L\u00f3gico que eu poderia ter feito mais, mas sabe&#8230; Eu julgava que eu pudesse ter deixado meus sentimentos claros, tudo esclarecido&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Entendo perfeitamente, meu caro. Agora, pense: agir assim significa pedir para n\u00e3o mexer no que te trava. Como se voc\u00ea dissesse: \u201c\u00e9 assim que eu vejo, eu sou desse jeito\u201d. Mas voc\u00ea precisa mesmo agir desse jeito? N\u00e3o consegue questionar? Se voc\u00ea nunca ofereceu algo mais a ela por algum presente mal entregue no passado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu preciso agir, l\u00f3gico! Mas&#8230; Essa chuva&#8230; Esse vento&#8230; N\u00e3o sei o que posso fazer agora.<\/p>\n<p>&#8211; Bom, como disse, o mais importante agora \u00e9 se acalmar. O tempo \u00e9 s\u00e1bio, e voc\u00ea saber\u00e1 decidir com serenidade. Sobre o presente&#8230; J\u00e1 pensou em palavras dentro de uma garrafa?<\/p>\n<p>&#8211; Palavras?<\/p>\n<p>&#8211; Sim. A palavra tem for\u00e7a, meu caro. Voc\u00ea diz que desvalorizou presentes no passado pois n\u00e3o via mais sentido neles&#8230; Uma palavra entregue com certeza, com significado&#8230; Ela marca uma vida. \u00c9 maior que qualquer medo. E dependendo do que escrever, voc\u00ea vai demonstrar que est\u00e1 todo ali, naquela pedra, vulner\u00e1vel&#8230; Mas \u00e9 a \u00fanica maneira de se entregar, meu rapaz. \u00c9 se deixar levar, a despeito de todos os traumas.<\/p>\n<p>Acordei daquele sonho tenso, mas entusiasmado para arremessar todas as garrafas que estavam ao meu alcance, antes que o tempo pudesse virar, na praia de Cassandoca. Todas com uma conchinha dentro e um papelzinho com a frase: \u201cimagine que cada conchinha que te dei fosse como se eu lhe dissesse eu te amo, e pense em cada garrafa dessas como se eu desejasse ench\u00ea-la com todo o amor que pudermos acumular juntos\u201d.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, perdi meu medo das ondas, da chuva, do frio, da vida.<\/p>\n<p align=\"center\">***<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 anivers\u00e1rio da minha amada Anadi\u00f4mena, e h\u00e1 dias n\u00e3o paro de pensar em duas coisas. Uma \u00e9 o fato de n\u00e3o estar l\u00e1, diante dela, para dizer meus votos de felicidades, desejos, experi\u00eancias e tudo o que vier \u00e0 cabe\u00e7a: s\u00f3 posso me contentar em fechar meus olhos e sentir a areia entre o dedos, a \u00e1gua chegando de mansinho, a brisa e o calor do sol.<\/p>\n<p>A segunda \u00e9 que, mesmo se pudesse, seria apenas eu, e n\u00e3o o Capit\u00e3o Neruda.<\/p>\n<p><i>Toda la noche he dormido contigo<br \/>junto al mar, en la isla.<br \/>Salvaje y dulce eras entre el placer y el sue&ntilde;o,<br \/>entre el fuego y el agua.<\/p>\n<p>Tal vez muy tarde<br \/>nuestros sue&ntilde;os se unieron<br \/>en lo alto o en el fondo,<br \/>arriba como ramas que un mismo viento mueve,<br \/>abajo como rojas ra&iacute;ces que se tocan.<\/p>\n<p>Tal vez tu sue&ntilde;o<br \/>se separ&oacute; del m&iacute;o<br \/>y por el mar oscuro<br \/>me buscaba<br \/>como antes<br \/>cuando a&uacute;n no exist&iacute;as,<br \/>cuando sin divisarte<br \/>navegu&eacute; por tu lado,<br \/>y tus ojos buscaban<br \/>lo que ahora<br \/>&mdash;pan, vino, amor y c&oacute;lera&mdash;<br \/>te doy a manos llenas<br \/>porque t&uacute; eres la copa<br \/>que esperaba los dones de mi vida.<\/p>\n<p>He dormido contigo<br \/>toda la noche mientras<br \/>la oscura tierra gira<br \/>con vivos y con muertos,<br \/>y al despertar de pronto<br \/>en medio de la sombra<br \/>mi brazo rodeaba tu cintura.<br \/>Ni la noche, ni el sue&ntilde;o<br \/>pudieron separarnos.<\/p>\n<p>He dormido contigo<br \/>y al despertar tu boca<br \/>salida de tu sue&ntilde;o<br \/>me dio el sabor de tierra,<br \/>de agua marina, de algas,<br \/>del fondo de tu vida,<br \/>y recib&iacute; tu beso<br \/>mojado por la aurora<br \/>como si me llegara<br \/>del mar que nos rodea.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ent\u00e3o um dia eu estive em uma praia deserta, vestindo meu cal\u00e7\u00e3o do Internacional. Parecia mesmo Cassandoca, em Ubatuba. Ali eu tive uma vis\u00e3o que mudou minha vida. Era V\u00eanus Anadi\u00f4mena, eterna amante saindo das \u00e1guas em busca do amor verdadeiro. Aquele di\u00e1logo, reproduzido em prosa, tornou-se oferenda capaz de aflorar das \u00e1guas outras lembran\u00e7as [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-1681","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-e-eu-uma-pedra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1681","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1681"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1681\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1681"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1681"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1681"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}