{"id":164,"date":"2008-03-24T23:53:19","date_gmt":"2008-03-25T02:53:19","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/a-triste-historia-do-cao-e-do-guarda"},"modified":"2008-03-24T23:53:19","modified_gmt":"2008-03-25T02:53:19","slug":"a-triste-historia-do-cao-e-do-guarda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/a-triste-historia-do-cao-e-do-guarda\/","title":{"rendered":"A triste hist\u00f3ria do c\u00e3o e do guarda"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/plantao.jpg\" align=\"right\" \/>Aten\u00e7\u00e3o, amiguinhos: o texto que voc\u00ea vai ver a seguir cont\u00e9m cenas chocantes, que v\u00e3o al\u00e9m da compreens\u00e3o humana. Se preferir, volte aqui mais tarde, quando tiver certeza de que nada pode estragar o seu dia.<\/p>\n<p>A rua onde moro \u00e9 um pequeno o\u00e1sis de paz e sossego dentro de um bairro perif\u00e9rico paulistano considerado violento. \u00c9 comum encontrar a garotada empinando pipa ou jogando bola num s\u00e1bado \u00e0 tarde. \u00c9 nesse contexto que surge Tomba &#8211; um c\u00e3o que parece um Rottweiler, mas na verdade \u00e9 da ra\u00e7a Tomba. Tomba lata.<\/p>\n<p>A dona do Tomba mora na casinha mais humilde da rua. Mal tem dinheiro para sustentar as dezenas de familiares que vivem no mesmo teto, que dir\u00e1 tomar conta de Tomba como merece. Mesmo tendo alguns meses de vida, Tomba mete medo em quem passa perto do port\u00e3o. Temor potencializado quando a matriarca solta o bichinho pela rua, sem a menor cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Preocupados, os pais de fam\u00edlia saem para a rua, proferindo discursos inflamados. &#8220;Onde j\u00e1 se viu deixar esse monstro solto por a\u00ed? E a seguran\u00e7a dos nossos filhos?&#8221; Alguns foram conversar com a dona do Tomba, que n\u00e3o deu a menor pelota para as reclama\u00e7\u00f5es. Alguns mais valent\u00f5es tentaram segurar o animal, mas acabaram afugentados com seus latidos amea\u00e7adores. Um deles, t\u00e3o borrado que estava, chegou a errar de casa durante a correria&#8230;<\/p>\n<p>No fim da noite, surge o guarda, que mora no fim da rua. Chegou como de costume, a bordo da viatura que sempre encosta alguns metros antes. Enquanto caminhava em dire\u00e7\u00e3o a sua casa, percebe a presen\u00e7a do Tomba. Com cara de quem teve um dia cheio &#8211; ou de quem tamb\u00e9m j\u00e1 estava incomodado com a presen\u00e7a daquele animal por perto. Tentou intimid\u00e1-lo, mas seus gritos n\u00e3o eram capazes de superar o forte latido de Tomba.<\/p>\n<p>Quem estava acordado ouviu perfeitamente: a voz do guarda desaparece. Os latidos de Tomba aumentam. Um \u00fanico tiro. E o \u00faltimo \u00faivo do c\u00e3o indefeso.<\/p>\n<p>A mesma viatura que trouxe o guarda levou-o para a delegacia, ao lado da dona do Tomba e algumas testemunhas. Alguns se mostraram solid\u00e1rios ao guarda, j\u00e1 que &#8220;n\u00e3o aguentavam mais&#8221;, ou ainda, &#8220;como pode tratar melhor esse c\u00e3o do que seus pr\u00f3prios filhos&#8221;. Outras defendiam a mulher &#8211; ainda que ela garantisse com todas as letras: &#8220;meu cachorro era muito bem tratado&#8221;.<\/p>\n<p>Seu delegado que decida agora quem estava mais errado. Certo mesmo \u00e9 o sentimento inexplic\u00e1vel dos pais, das mulheres e das crian\u00e7as que passavam na manh\u00e3 seguinte naquela cal\u00e7ada, diante do Tomba, coberto por um len\u00e7ol velho.<\/p>\n<p>Coisas desse nosso mundo c\u00e3o.<\/p>\n<p><i>(Postado em 17\/11\/2004)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aten\u00e7\u00e3o, amiguinhos: o texto que voc\u00ea vai ver a seguir cont\u00e9m cenas chocantes, que v\u00e3o al\u00e9m da compreens\u00e3o humana. Se preferir, volte aqui mais tarde, quando tiver certeza de que nada pode estragar o seu dia. 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