{"id":1634,"date":"2010-01-06T22:11:16","date_gmt":"2010-01-07T01:11:16","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/tres-historinhas-que-ouvi-no-reveilao-da-minha-rua"},"modified":"2010-01-06T22:11:16","modified_gmt":"2010-01-07T01:11:16","slug":"tres-historinhas-que-ouvi-no-reveilao-da-minha-rua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/tres-historinhas-que-ouvi-no-reveilao-da-minha-rua\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas historinhas que ouvi no reveil\u00e3o da minha rua"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Cansou de ouvir falar sobre chuva, corpos, Boris Casoy, BBB e outras ladainhas desse princ\u00edpio de ano? Pois puxe a cadeira e sente um pouquinho. Vou aproveitar meu pique de janeiro pra lhe contar alguns causos que ouvi nos \u00faltimos minutos de 2009, enquanto os fogos espocavam no extremo leste da capital paulista.<\/p>\n<p align=\"center\">***<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 90, um menino brincava com outras crian\u00e7as aqui dos arredores. Devia ter uns seis, sete anos. Era um garoto querido por todos, mas n\u00e3o tanto quanto pelos seus tios, que cuidavam dele ap\u00f3s os pais larg\u00e1-lo pelo mundo e sumirem. Nem mesmo esse hist\u00f3rico parecia terminar com o sorriso dele.<\/p>\n<p>Apesar de faceiro, o moleque tamb\u00e9m aprontava um bocado. Numa manh\u00e3 qualquer daquela \u00e9poca, inventou de sair de casa sem avisar, pular um muro e subir em cima de telhados alheios. Foi uma luta para &#8220;resgat\u00e1-lo&#8221; da rua&#8230; Enfim, era uma \u00e9poca divertida, onde a garotada n\u00e3o tinha preocupa\u00e7\u00f5es ou responsabilidades mais duras do que &#8220;n\u00e3o salte mais por a\u00ed&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>De um dia para outro, o baixinho sumiu. Dias depois, soubemos que sua av\u00f3 apareceu em S\u00e3o Paulo, &#8220;reivindicando&#8221; sua guarda &#8211; conv\u00e9m lembrar que as duas fam\u00edlias s\u00e3o humildes o suficiente para que esse tipo de &#8220;acordo&#8221; seja feito olho no olho, sem qualquer interven\u00e7\u00e3o judicial. Assim, aquela crian\u00e7a sorridente foi saltar muros e subir em telhados no interior, longe do carinho dos tios e vizinhos.<\/p>\n<p>Nunca mais tive not\u00edcias, at\u00e9 a meia-noite da virada. Soube que a hist\u00f3ria de vida daquele garoto passou por reviravoltas tremendas. A av\u00f3, ao contr\u00e1rio do que se supunha, deu de ombros e largou a cria\u00e7\u00e3o dele \u00e0 pr\u00f3pria sorte. Circulou entre unidades de deten\u00e7\u00e3o para menores e, como infelizmente ocorre nas &#8220;febens&#8221; do mundo, aprendeu o bastante para se envolver em novas roubadas e ser preso, ap\u00f3s completar dezoito anos.<\/p>\n<p>Muitos que n\u00e3o tiveram indulto celebraram a chegada de 2010 numa cela. Certamente nem todos conseguem associar esta imagem a um rosto, qualquer que seja. Pensar que um desses era um menino feliz, que morava ao seu lado e poderia ser um sujeito trabalhador como as outras crian\u00e7as da \u00e9poca, nos d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia muito forte. <\/p>\n<p align=\"center\">***<\/p>\n<p>Outro garoto, da mesma \u00e9poca, \u00e9 uma esp\u00e9cie de refer\u00eancia: seu nome \u00e9 usado frequentemente quando se v\u00ea um moleque fazendo malcria\u00e7\u00f5es. &#8220;V\u00ea se toma jeito, olha o exemplo do menino l\u00e1, mire-se nele&#8221;. Era como a gente, brincando de pega-pega, esconde-esconde, pula-corda e queimdada. Tamb\u00e9m adorava brincar aqui em casa, ao ponto de chamar minha m\u00e3e de m\u00e3e tamb\u00e9m. S\u00f3 tinha uma diferen\u00e7a: descobriu um c\u00e2ncer na bexiga, aos cinco anos.<\/p>\n<p>Foi o pai dele que, enquanto tinha o filho no colo se queixando de dores, descobriu o tumor ao acaso, passando a m\u00e3o em sua barriga e descobrindo um carocinho. Dali para a mesa de cirurgia, o processo foi r\u00e1pido, por\u00e9m tenso. O processo de recupera\u00e7\u00e3o, que incluia agressivas sess\u00f5es de quimioterapia, s\u00f3 fizeram com que ele tornasse ainda mais querido pelos moradores.<\/p>\n<p>O menino cresceu, sempre alegre e &#8211; o mais importante &#8211; saud\u00e1vel. Brincava, comemorava, estudava, passeava, trabalhava&#8230; Formou-se t\u00e9cnico em enfermagem e se meteu em altas aventuras nos mais loucos ambulat\u00f3rios, hospitais, pronto-socorros e afins.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o abracei novamente ao lhe desejar feliz ano novo &#8211; mas rapidamente, afinal o rapaz precisava dormir rapidamente, seu plant\u00e3o comecaria horas depois. Estava todo empolgado, pois tratava-se de um emprego rec\u00e9m conquistado, num desses hospitais famosos da capital. Ah, quando a vizinhan\u00e7a tomar conhecimento&#8230; A\u00ed sim esse papo de &#8220;siga o exemplo do menino l\u00e1&#8221; vai ficar insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas o mais curioso ele deixou para contar antes de sair. &#8220;Vou trabalhar com pacientes da oncologia!&#8221;, disse, entusiasmado, emendando que a vaga surgiu completamente ao acaso. Mesmo sem querer, ningu\u00e9m melhor do que ele para conversar e cuidar com quem passa por situa\u00e7\u00f5es semelhantes a dele. \u00c9 quando a medicina se encontra com aquilo que n\u00e3o podemos compreender sem uma cren\u00e7a: &#8220;foi Deus quem quis assim&#8221;.<\/p>\n<p align=\"center\">***<\/p>\n<p>Nem todo mundo estava plenamente alegre. Num dos abra\u00e7os que recebi, percebi que faltava algo no sorriso daquela jovem senhora. &#8220;O que foi? Teve um dia cansativo cuidando da casa e dos pentelhos que a bagun\u00e7am?&#8221;, questionei. &#8220;Ih, nem te conto&#8230; Passei o dia todo assim, pensando na vida, na morte&#8230;&#8221;. Eu, hein?!?. Mais tarde, ela me contou o estranho sonho que teve na noite anterior.<\/p>\n<p>Diz ela que, durante a madrugada quente do dia 31, sentiu como se sua alma desprendesse do corpo. Foi quando se viu diante de seus pais, j\u00e1 falecidos. Como se estivessem ali, ao lado da cama, vigiando o sono dela. &#8220;Voc\u00ea acredita?&#8221;, perguntou. Preferi dizer: &#8220;continue, o que mais?&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ela e os pais foram transportados para um ambiente sombrio, assustador, repleto de portas. Outras pessoas (ou almas, sei l\u00e1) circulavam por ali, como se estivessem procurando algu\u00e9m. &#8220;Ent\u00e3o eu me perdi dos meus pais, me senti ainda mais aflita e perdida nesse lugar estranho&#8221;, contou, com um brilho estranho no olhar.<\/p>\n<p>&#8220;Ser\u00e1 que \u00e9 para um lugar assim que vamos depois de morrer?&#8221;, questionou, enquanto conclu\u00eda o pesadelo. Antes de acordar, tensa e sentindo um estranho mal-estar, ainda enxergou um acidente a\u00e9reo. &#8220;Sonho com isso diversas vezes, e foi assim essa noite. Fiquei sem entender o que uma coisa tinha a ver com outra, mas foi horr\u00edvel do mesmo jeito&#8221;, concluiu, respirando fundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou esp\u00edrita, tamb\u00e9m n\u00e3o tenho refer\u00eancia alguma para interpretar nada disso. Poderia simplesmente perguntar o que ela bebeu ou comeu naquela noite. Naquele instante, s\u00f3 consegui perguntar: &#8220;mas voc\u00ea acendeu uma vela, um incenso, qualquer coisa?&#8221;. A resposta foi &#8220;claro que sim&#8221;. \u00c9 aquele velho chav\u00e3o \u00fatil para assuntos do g\u00eanero: yo no creo en brujas; pero que las hay, las hay.<\/p>\n<p align=\"center\">***<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias boas, ruins ou sem qualquer adjetivo poss\u00edvel&#8230; Assim ser\u00e1 permeado, inevitavelmente, o seu ano novo. Aproveite bem todas elas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cansou de ouvir falar sobre chuva, corpos, Boris Casoy, BBB e outras ladainhas desse princ\u00edpio de ano? Pois puxe a cadeira e sente um pouquinho. 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