{"id":159,"date":"2008-03-19T23:51:03","date_gmt":"2008-03-20T02:51:03","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/o-amor-natural"},"modified":"2008-03-19T23:51:03","modified_gmt":"2008-03-20T02:51:03","slug":"o-amor-natural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/o-amor-natural\/","title":{"rendered":"O amor natural"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/fiquepordentro.gif\" align=\"right\" \/>Voc\u00ea sabia que Carlos Drummond de Andrade tamb\u00e9m escreveu poemas er\u00f3ticos? Desconhecia essa parte de sua hist\u00f3ria at\u00e9 esses dias, quando recebi uma sequ\u00eancia de versos retiradas do livro <i>O Amor Natural<\/i>, publicado em 1992.<\/p>\n<p>Isso mesmo, cinco anos ap\u00f3s sua morte. Especialista em sil\u00eancio, o mineiro deixou para seus herdeiros a tarefa de public\u00e1-los &#8211; talvez para n\u00e3o precisar explicar qual foi sua fonte inspiradora&#8230; Mas enfim. Independente da associa\u00e7\u00e3o dos textos \u00e0 uma &#8220;rela\u00e7\u00e3o extracampo&#8221;, confesso que fiquei surpreso &#8211; especialmente por n\u00e3o ser muito f\u00e3 de poesia&#8230; S\u00e3o palavras fortes e audaciosas, mas ao mesmo tempo sem ser vulgar.<\/p>\n<p>Como raramente (pra n\u00e3o dizer nunca) esse tipo de literatura aparece aqui, vamos ver como nossos visitantes reagem.<\/p>\n<p><i>A l\u00edngua girava no c\u00e9u da boca. Girava! Eram duas bocas, no c\u00e9u \u00fanico.<br \/>\nO sexo desprendera-se de sua funda\u00e7\u00e3o, errante imprimia-nos seus tra\u00e7os de cobre. Eu, ela, elaeu.<br \/>\nOs dois nos mov\u00edamos possu\u00eddos, trespassados, eleu. A posse n\u00e3o resultava de a\u00e7\u00e3o e doa\u00e7\u00e3o, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, f\u00e1lus e vulva no espa\u00e7o cristalino, vulva e f\u00e1lus em fogo, em n\u00fapcia, emancipados de n\u00f3s.<br \/>\nA custo nossos corpos, i\u00e7ados do gelatinoso jazigo, se restitu\u00edram \u00e0 consci\u00eancia. O sexo reintegrou-se. A vida repontou: a vida menor.<\/p>\n<p>Sem que eu pedisse, fizeste-me a gra\u00e7a<br \/>\nde magnificar meu membro.<br \/>\nSem que eu esperasse, ficastes de joelhos<br \/>\nem posi\u00e7\u00e3o devota.<br \/>\nO que passou n\u00e3o \u00e9 passado morto.<br \/>\nPara sempre e um dia<br \/>\no p\u00eanis recolhe a piedade osculante de tua boca.<br \/>\nHoje n\u00e3o est\u00e1s sem sei onde estar\u00e1s,<br \/>\nna total impossibilidade de gesto ou comunica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o te vejo n\u00e3o te escuto n\u00e3o te aperto<br \/>\nmas tua boca est\u00e1 presente, adorando.<br \/>\nAdorando.<br \/>\nNunca pensei ter entre as coxas um deus.<\/p>\n<p>Voc\u00ea meu mundo meu rel\u00f3gio de n\u00e3o marcar horas; de esquec\u00ea-las. Voc\u00ea meu andar meu ar meu comer meu descomer. Minha paz de espadas acesas. Meu sono festival meu acordar entre gir\u00e2ndolas. Meu banho quente morno frio quente pelando. Minha pele total. Minhas unhas afiadas aceradas aciduladas. Meu sabor de veneno. Minhas cartas marcadas que se desmarcam e voam. Meu supl\u00edcio. Minha mansa on\u00e7a pintada pulando. Minha saliva minha l\u00edngua passeadeira possessiva meu esfregar de barriga em barriga. Meu perder-me entre p\u00ealos algas \u00e1guas ard\u00eancias. Meu p\u00eanis submerso. T\u00fanel cova cova cova cada vez mais funda estreita mais mais. Meu gemidos gritos uivos guais guinchos miados ofegos ah oh ai ui nhem ahah minha evapora\u00e7\u00e3o meu suic\u00eddio gozoso glorioso.<\/p>\n<p>Oh minha senhora \u00f3 minha senhora oh n\u00e3o se incomode senhora minha n\u00e3o fa\u00e7a isso eu lhe pe\u00e7o eu lhe suplico por Deus nosso redentor minha senhora n\u00e3o d\u00ea import\u00e2ncia a um simples mortal vagabundo como eu que nem mere\u00e7o a gl\u00f3ria de quanto mais de&#8230; n\u00e3o n\u00e3o n\u00e3o minha senhora n\u00e3o me desabotoe a braguilha n\u00e3o precisa tamb\u00e9m se despir o que \u00e9 isso \u00e9 verdadeiramente fora de normas e eu n\u00e3o estou absolutamente preparado para semelhante emo\u00e7\u00e3o ou como\u00e7\u00e3o sei l\u00e1 minha senhora nem sei mais o que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem f\u00f4lego sem saliva para molhar a l\u00edngua e ensaiar um discurso coerente na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Esp\u00edrito Santo minha senhora eu eu eu \u00f3 minha senh&#8230; esses seios s\u00e3o seus ou \u00e9 uma apari\u00e7\u00e3o e esses p\u00ealos essas n\u00e1d&#8230; tanta nudez me deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja Deus \u00e9 o fim do mundo desabando no meu fim eu eu &#8230;<\/p>\n<p>Era manh\u00e3 de setembro<br \/>\ne ela me beijava o membro<br \/>\nAvi\u00f5es e nuvens passavam<br \/>\ncoros negros rebramiam<br \/>\nela me beijava o membro<br \/>\nO meu tempo de menino<br \/>\no meu tempo ainda futuro<br \/>\ncruzados floriam junto<br \/>\nEla me beijava o membro<br \/>\nUm passarinho cantava,<br \/>\nbem dentro da \u00e1rvore, dentro<br \/>\nda terra, de mim, da morte<br \/>\nMorte e primavera em rama<br \/>\ndisputavam-se a \u00e1gua clara<br \/>\n\u00e1gua que dobrava a sede<br \/>\nEla me beijava o membro<br \/>\nTudo que eu tivera sido<br \/>\nquanto me fora defeso<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o formava sentido<br \/>\nSomente a rosa crispada<br \/>\no talo ardente, uma flama<br \/>\naquele \u00eaxtase na grama<br \/>\nEla me beijava o membro<br \/>\nDos beijos era o mais casto<br \/>\nna pureza despojada<br \/>\nque \u00e9 pr\u00f3pria das coisas dadas<br \/>\nNem era preito de escrava<br \/>\nenrodilhada na sombra<br \/>\nmas presente de rainha<br \/>\ntornando-se coisa minha<br \/>\ncirculando-me no sangue<br \/>\ne doce e lento e erradio<br \/>\ncomo beijara uma santa<br \/>\nno mais divino transporte<br \/>\ne num solente arrepio<br \/>\nbeijava beijava o membro<br \/>\nPensando nos outros homens<br \/>\neu tinha pena de todos<br \/>\naprisionados no mundo<br \/>\nMeu imp\u00e9rio se estendia<br \/>\npor toda a praia deserta<br \/>\ne a cada sentido alerta<br \/>\nEla me beijava o membro<br \/>\nO cap\u00edtulo do ser<br \/>\no mist\u00e9rio de existir<br \/>\no desencontro de amar<br \/>\neram tudo ondas caladas<br \/>\nmorrendo num cais long\u00ednquo<br \/>\ne uma cidade se erguia<br \/>\nradiante de pedreiras<br \/>\ne de \u00f3dios apaziguados<br \/>\ne o espasmo vinha na brisa<br \/>\npara consigo furtar-me<br \/>\nse antes n\u00e3o me desfolhava<br \/>\ncomo um cabelo se alisa<br \/>\ne me tornava disperso<br \/>\ntodo em c\u00edrculos conc\u00eantricos<br \/>\nna fuma\u00e7a do universo<br \/>\nBeijava o membro<br \/>\nbeijava<br \/>\ne se morria beijando<br \/>\na renascer em setembro.<\/i><\/p>\n<p>Tentei ir atr\u00e1s para comprar e descobri que a \u00faltima edi\u00e7\u00e3o est\u00e1 esgotada &#8211; isso depois de longos dias procurando por O Amor Bacanal (ok, n\u00e3o resisti a piada fraca, podem me trucidar).<\/p>\n<p><i>(Postado em 29\/09\/2005)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea sabia que Carlos Drummond de Andrade tamb\u00e9m escreveu poemas er\u00f3ticos? Desconhecia essa parte de sua hist\u00f3ria at\u00e9 esses dias, quando recebi uma sequ\u00eancia de versos retiradas do livro O Amor Natural, publicado em 1992. Isso mesmo, cinco anos ap\u00f3s sua morte. Especialista em sil\u00eancio, o mineiro deixou para seus herdeiros a tarefa de public\u00e1-los [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-159","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fique-por-dentro"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/159","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=159"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/159\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=159"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=159"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=159"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}