{"id":1502,"date":"2009-05-23T00:02:10","date_gmt":"2009-05-23T03:02:10","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/a-diferenca-entre-chutar-ou-nao-o-balde"},"modified":"2009-05-23T00:02:10","modified_gmt":"2009-05-23T03:02:10","slug":"a-diferenca-entre-chutar-ou-nao-o-balde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/a-diferenca-entre-chutar-ou-nao-o-balde\/","title":{"rendered":"A diferen\u00e7a entre chutar ou n\u00e3o o balde"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/><b>Fortaleza (CE)<\/b> &#8211; Duas cenas breves que testemunhei no Aeroporto de Guarulhos nesta sexta despertaram uns tr\u00eas neur\u00f4nios meus em busca de alguma conclus\u00e3o sobre o que nos incentiva a seguir trabalhando, ainda que haja um abismo entre realiza\u00e7\u00e3o profissional e a simples execu\u00e7\u00e3o de tarefas rotineiras.<\/p>\n<p>A primeira diz respeito a um auxiliar novato da empresa a\u00e9rea, que aproveitou o raro movimento tranquilo no check-in para treinar procedimentos de atendimento. &#8220;Pr\u00f3ximo, senhor. Senhor! Aqui, senhor&#8221;, insistiu em voz alta, apontando para mim &#8211; e abstraindo a presen\u00e7a de um man\u00e9, feito paisagem, atrapalhando o meu caminho&#8230;<\/p>\n<p>Enfim, o rapaz pulou o boa tarde e j\u00e1 foi logo perguntando: &#8220;qual seu destino, senhor?&#8221;. Informei, entregando minha identidade e o cart\u00e3o do programa de milhagem. Sem que eu pudesse questionar, pegou apenas o documento. &#8220;U\u00e9, normalmente eles deixam os dois juntos&#8230;&#8221;, pensei.<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o descobri que o atendente era trainee. O cara digitava alguma coisa, olhava para o meu RG, voltava para o terminal, torcia as sobrancelhas, voltava a digitar&#8230; &#8220;\u00c9 Andr\u00e9 o seu nome, n\u00e9?&#8221;. Dei um desconto. Se estivesse preocupado em acertar um processo que n\u00e3o domino, tamb\u00e9m faria uma pergunta idiota. <\/p>\n<p>Respondi que sim, mas decidi atrapalh\u00e1-lo: &#8220;escuta, n\u00e3o vai precisar disso aqui?&#8221;, apontando para o cart\u00e3o de milhagem. &#8220;Ah sim, voc\u00ea vai pontuar, n\u00e9?&#8221;. Imagino que, em meu lugar, voc\u00ea diria &#8220;ent\u00e3o, na verdade meu nome \u00e9 Muricy Ramalho, e como a coisa n\u00e3o est\u00e1 boa pro meu lado estou fugindo de S\u00e3o Paulo. O Milton Cruz vai comandar o time no cl\u00e1ssico. Estou usando o nome desse laranja aqui, est\u00e1 me fazendo um favor por isso quero que as milhas desse v\u00f4o sirva como pr\u00eamio&#8221;.<\/p>\n<p>No fim, apenas balancei a cabe\u00e7a afirmativamente e sorri. &#8220;Prefere janela ou corredor, senhor?&#8221;. Digo que tanto faz, desde que n\u00e3o seja aquele assento horrendo \u00e0 frente da sa\u00edda de emerg\u00eancia. O rapaz preencheu algo, &#8220;catando milho&#8221; e soletrando: &#8220;\u00e9sse, um, d\u00e1bliu&#8230; Ei, como faz pra marcar janela aqui?&#8221;, perguntou \u00e0 loira bonitinha do guich\u00ea ao lado. &#8220;\u00c9 S1W e enter&#8221;, respondeu. Puxa, bem que eu podia ter sido atendido por ela&#8230;<\/p>\n<p>De repente, o cart\u00e3o de embarque pula em minha dire\u00e7\u00e3o. O rapaz me entrega dobradinho, sem as tradicionais canetadas com o hor\u00e1rio limite para embarque, port\u00e3o, essas coisas. &#8220;Ah, voc\u00ea tem bagagem?&#8221;. Pensei que n\u00e3o iria perguntar. Despachei minhas duas malas, as duas etiquetas foram impressas &#8211; uma foi colada, outra caiu embaixo da balan\u00e7a. &#8220;Na sua bagagem de m\u00e3o tem algum objeto perfurante, cortante&#8230;&#8221;. Disse que n\u00e3o, imaginando quando ele tomaria o cart\u00e3o de embarque da minha m\u00e3o para colar os comprovantes da bagagem.<\/p>\n<p>&#8220;Ei Rodrigo, voc\u00ea precisa anotar o peso de cada bagagem na etiqueta&#8221;, alertou outro funcion\u00e1rio. &#8220;Mas estou sem caneta aqui&#8221;, devolvou o novato. Com cara de &#8220;mas que tolinho&#8221;, puxou uma caneta do bolso e entregou ao rapaz. &#8220;Ei, n\u00e3o vai esquecer do meu cart\u00e3o de milhagem!&#8221;, emendei. Ah sim, mais isso. Nova consulta \u00e0 loirinha e as \u00faltimas digitadas lentas no sistema.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 s\u00f3 isso?&#8221;, perguntei. &#8220;Sim, senhor. Ah, sua bagagem de m\u00e3o tem algum objeto perfurante?&#8221;. Sorri ao negar outra vez, sem sequer confirmar qual seria port\u00e3o de embarque. Enquanto saio, uma voz comemora ao fundo: &#8220;Olha o Rodrigo, atendendo cliente!&#8221;. Bom pra ele, n\u00e9?<\/p>\n<p>Decidi celebrar o desempenho do esfor\u00e7ado e interessado novato com um cafezinho. Antes de pedir \u00e0 mocinha do caixa, peguei um chocolatinho no balc\u00e3o. Para que pudesse me atender, ela precisou interromper o bate-papo com um amigo. &#8220;O seu d\u00e1 cinco reais&#8221;, afirmou. Mas mo\u00e7a, nem vai seguir a orienta\u00e7\u00e3o da sua supervisora e perguntar se eu quero mais alguma coisa? Anote a\u00ed um caf\u00e9 e uma \u00e1gua.<\/p>\n<p>Enquanto registrava, a mocinha perguntou ao amigo: &#8220;e voc\u00ea, est\u00e1 com saudades desse aeroporto?&#8221;. &#8220;Nossa, nenhuma. N\u00e3o aguentava mais esse lugar aqui&#8221;. &#8220;\u00c9 cr\u00e9dito ou d\u00e9bito, mo\u00e7o?&#8221;. Respondi, perguntando pelo CPF na nota fiscal. &#8220;Nossa, eu tamb\u00e9m estou de saco cheio daqui&#8221;, disse a atendente, de olho no prov\u00e1vel ex-colega. Arregalei meus olhos!<\/p>\n<p>Antes de me entregar o comprovante, a figura que representava o estabelecimento naquele momento apontou seus dedos para o lado num\u00e9rico do teclado e, sem dizer uma palavra, esperou pelo meu CPF. Se eu tivesse mais tempo, perguntaria pela gerente e lhe diria: &#8220;olha, tem um rapaz ali no balc\u00e3o de check-in que \u00e9 um pouco atrapalhado, mas bastante entusiasmado. De repente, ele pode indicar algu\u00e9m pra vaga dessa folgada aqui&#8221;.<\/p>\n<p>Acredito que algu\u00e9m com s\u00f3lidos conhecimentos em gest\u00e3o de pessoas consiga identificar melhor esses padr\u00f5es de comportamento. Mas eu me arrisco a dizer que, em uma cidade gigantesca com poucas e complexas formas de transporte, e em empresas com alta rotatividade de funcion\u00e1rios e foco em processos irrelevantes para o bom andamento do neg\u00f3cio, infelizmente o jovem carinha do check-in seria capaz de dizer algo parecido em poucos dias.<\/p>\n<p>Da mesma forma, tamb\u00e9m n\u00e3o me surpreenderia se soubesse que a atendente do caf\u00e9 come\u00e7ou a trabalhar ali semana passada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fortaleza (CE) &#8211; Duas cenas breves que testemunhei no Aeroporto de Guarulhos nesta sexta despertaram uns tr\u00eas neur\u00f4nios meus em busca de alguma conclus\u00e3o sobre o que nos incentiva a seguir trabalhando, ainda que haja um abismo entre realiza\u00e7\u00e3o profissional e a simples execu\u00e7\u00e3o de tarefas rotineiras. 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