{"id":150,"date":"2008-03-12T23:53:18","date_gmt":"2008-03-13T02:53:18","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/quebra-cabecas"},"modified":"2008-03-12T23:53:18","modified_gmt":"2008-03-13T02:53:18","slug":"quebra-cabecas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/quebra-cabecas\/","title":{"rendered":"Quebra-cabe\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Dias atr\u00e1s, em mais uma volta por aqueles corredores climatizados e acarpetados da Fnac Paulista, tive uma vis\u00e3o muito agrad\u00e1vel. Uma pessoa incr\u00edvel, daquelas que n\u00e3o entram na sua vida por acaso, estava na minha frente. H\u00e1 muito tempo n\u00e3o nos v\u00edamos, e parecia estar na ali justamente por minha causa&#8230; N\u00e3o era mesmo coincid\u00eancia. Ela sorriu, se aproximou, me deu um abra\u00e7o e uma caixa, embalada num belo papel de presente azul.<\/p>\n<p>N\u00e3o quis abrir ali, mesmo bastante surpreso e curioso. Convidei-a para um caf\u00e9 no Franz &#8211; pretexto para ficar mais tempo ao seu lado e abrir o embrulho. J\u00e1 em uma das mesas, enquanto ped\u00edamos, descobri do que se tratava: era um quebra-cabe\u00e7as, daqueles de tr\u00eas mil pe\u00e7as. Antes mesmo de agradecer o presente &#8211; e sua presen\u00e7a, ela diz:<\/p>\n<p>&#8211; Tenho certeza de que lhe ser\u00e1 \u00fatil. Tempos atr\u00e1s, comecei a montar um quebra-cabe\u00e7as semelhante, e enquanto permanecia diante desse desafio, refletia a respeito do que estava fazendo. Sabe, com uma \u00fanica pe\u00e7a na m\u00e3o, \u00e9 extremamente dif\u00edcil encontrar uma que se encaixe com ela, naquele bolo inteiro de duas mil novecentas e noventa e nove pe\u00e7as. Sem falar que umas s\u00e3o mais complexas que as outras: as mais comuns est\u00e3o prontas para receberem pelo menos quatro tipos de pe\u00e7a. As das laterais, no entanto, podem encontrar apenas tr\u00eas. E as pe\u00e7as do canto, ent\u00e3o? S\u00e3o apenas duas chances.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma tarefa das mais simples. Mas a coisa tende a ficar melhor \u00e0 medida em que voc\u00ea percebe as caracter\u00edsticas da pe\u00e7a que est\u00e1 na sua m\u00e3o. Repare nas cores, no formato, na orienta\u00e7\u00e3o&#8230; Conhecendo a bem, \u00e9 mais f\u00e1cil descobrir, no meio daquele bolo de duas mil novecentas e noventa e nove pe\u00e7as, ao menos uma que se encaixe. Isso leva tempo. No come\u00e7o, voc\u00ea vai classificar algumas como perfeitas. Todo marinheiro de primeira viagem se engana&#8230; \u00c9 preciso analisar muitas pe\u00e7as nesta caixa para ter experi\u00eancia suficiente e observar certas arestas que lhe d\u00e3o a r\u00e1pida conclus\u00e3o de incompatibilidade.<\/p>\n<p>Eu mesmo encontrei dificuldades enquanto montava o meu quebra-cabe\u00e7as. Quantas vezes acreditava ter encontrado uma de encaixe perfeito&#8230; A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 magn\u00edfica, mas sempre corremos o s\u00e9rio risco de nos frustrarmos. E n\u00e3o h\u00e1 decis\u00e3o mais dolorosa do que jogar aquela pe\u00e7a, que outrora parecia t\u00e3o boa, naquele imenso bolo de duas mil novecentas e noventa e nove&#8230; Parece at\u00e9 ego\u00edsmo, veja voc\u00ea, descartar pe\u00e7as assim. Mas faz parte do jogo: \u00e9 preciso respirar fundo e seguir procurando. Al\u00e9m do que, a tal pecinha abandonada mant\u00e9m o seu valor dentro do quebra-cabe\u00e7as, e logo ela descobre outra no meio das outras e se ajeita na mesa.<\/p>\n<p>Enfim, \u00e9 mais f\u00e1cil teorizar sobre as dificuldades e os poss\u00edveis caminhos para se encontrar uma pe\u00e7a no meio do bolo de duas mil novecentos e noventa e nove, do que perder tempo com uma nova pe\u00e7a in\u00fatil na m\u00e3o, ou ficar lembrando das \u00faltimas que voc\u00ea tentou encaixar com a sua, mas novamente n\u00e3o conseguiu&#8230; E voc\u00ea se d\u00e1 conta que a busca vai ter que continuar&#8230; &#8211; nesse instante, ela foi interrompida pelo gar\u00e7om, que pediu licen\u00e7a para deixar as x\u00edcaras na mesa.<\/p>\n<p>E eu continuava em sil\u00eancio, ouvindo atentamente suas palavras, imaginando onde ela queria chegar. N\u00e3o precisei perguntar. Depois do primeiro gole de \u201cmoka\u201d, ela prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8211; Tudo isso pra dizer, meu eterno amigo, que este presente nem se compara com outro quebra-cabe\u00e7as. Um que tem cinco bilh\u00f5es de pe\u00e7as: eu, voc\u00ea, o gar\u00e7om, as pessoas que est\u00e3o nesta loja e fora dela&#8230; Pe\u00e7as extremanente heterog\u00eaneas, repletas de arestas e imperfei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que este \u00e9 muito mais dif\u00edcil. Mas n\u00e3o deixa de ser um desafio t\u00e3o interessante quanto o que voc\u00ea tem agora em suas m\u00e3os, nesta caixa. E as esperan\u00e7as, neste caso, ganham mais for\u00e7a se voc\u00ea lembrar que, enquanto voc\u00ea est\u00e1 procurando a sua pe\u00e7a, a sua pe\u00e7a est\u00e1 procurando voc\u00ea. Dependendo da sua f\u00e9, existe ainda a cren\u00e7a de que existe uma for\u00e7a maior, que independe de voc\u00ea, mas vai unir as duas pe\u00e7as, cedo ou tarde.<\/p>\n<p>Hoje voc\u00ea est\u00e1 aqui, abandonado no meio bolo. Mas isso, como te disse, faz parte do jogo, e n\u00e3o quer dizer que voc\u00ea esteja fora dele. Pelo contr\u00e1rio: fica mais claro em sua mente o tipo de pe\u00e7a que lhe conv\u00e9m. Com o tempo, voc\u00ea vai descobrir as diferen\u00e7as entre cada uma delas e vai gastar menos energia com pe\u00e7as duvidosas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vai descartar muitas e ser descartado tamb\u00e9m, sempre tomando decis\u00f5es incertas ou ouvindo desculpas maquiadas como certezas. Mas acredite que uma pe\u00e7a mal encaixada \u00e9 pior do que uma pe\u00e7a sozinha, a procura da pe\u00e7a certa&#8230; &#8211; concluiu, levantando e pedindo desculpas pela sa\u00edda \u00e0s pressas &#8211; era o \u201cadiantado da hora\u201d, justificou. Deixou o dinheiro do caf\u00e9 ao lado da caixa e saiu sorrindo, prometendo voltar quando terminar seu quebra-cabe\u00e7as. E eu, uma pe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p><i>(Postado em 11\/03\/2004)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dias atr\u00e1s, em mais uma volta por aqueles corredores climatizados e acarpetados da Fnac Paulista, tive uma vis\u00e3o muito agrad\u00e1vel. Uma pessoa incr\u00edvel, daquelas que n\u00e3o entram na sua vida por acaso, estava na minha frente. H\u00e1 muito tempo n\u00e3o nos v\u00edamos, e parecia estar na ali justamente por minha causa&#8230; N\u00e3o era mesmo coincid\u00eancia. 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