{"id":148,"date":"2009-11-11T12:37:39","date_gmt":"2009-11-11T15:37:39","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/onde-voce-estava-na-noite-de-11-de-marco-de-1999"},"modified":"2009-11-11T12:37:39","modified_gmt":"2009-11-11T15:37:39","slug":"onde-voce-estava-na-noite-de-11-de-marco-de-1999","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/onde-voce-estava-na-noite-de-11-de-marco-de-1999\/","title":{"rendered":"Onde voc\u00ea estava na noite de 11 de mar\u00e7o de 1999?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/backfut.gif\" align=\"right\" \/><a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/Noticias\/Brasil\/0,,MUL1374665-5598,00.html\" target=\"_blank\"><b>&#8220;Nunca havia acontecido isso&#8221;<\/b><\/a>. A declara\u00e7\u00e3o de Jorge Samek, diretor de Itaipu, diz respeito ao fato dos 18 geradores da usina terem sido desligados completamente na noite deste dia 10 de novembro. Outra evolu\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos anos diz respeito ao complexo sistema el\u00e9trico, praticamente todo interligado &#8211; funciona assim: quando um gerador deixa de funcionar, a energia produzida por outras fontes \u00e9 &#8220;redirecionada&#8221;, tentando cobrir as falhas. Ao menos na zona leste de S\u00e3o Paulo, a luz havia voltado duas horas depois, gra\u00e7as ao funcionamento ininterrupto de usinas como <a href=\"http:\/\/www.emae.sp.gov.br\/henryborden.htm\" target=\"_blank\"><b>Henry Borden<\/b><\/a>, em Cubat\u00e3o.<\/p>\n<p>O ineditismo acaba a\u00ed. A luz apagou \u00e0s 22h13 desta ter\u00e7a, decretando debandada geral para quem estava fora de casa, somado a gritos hist\u00e9ricos e manifesta\u00e7\u00f5es ca\u00f3ticas. Minutos depois, gra\u00e7as ao infal\u00edvel AM, j\u00e1 era poss\u00edvel saber que o problema n\u00e3o era apenas do pr\u00e9dio, da rua, do bairro&#8230; Veio na minha lembran\u00e7a a mem\u00f3ria do dia 11 de mar\u00e7o de 1999: &#8220;isso tem jeito de pane no sistema de transmiss\u00e3o a partir de Itaipu, como h\u00e1 dez anos&#8221;. Ent\u00e3o o ministro das Minas e Energia anunciou &#8220;dez estados afetados&#8221;, lan\u00e7ando m\u00e3o das &#8220;interp\u00e9ries meteorol\u00f3gicas&#8221;. Meu revival tornou-se completo.<\/p>\n<p>O texto a seguir, publicado em 10 de mar\u00e7o de 2008, me ajudou a rever outros detalhes, em busca de compara\u00e7\u00f5es. Naquela ocasi\u00e3o, consegui usar o celular tranquilamente; nesta madrugada, foram apenas dois telefonemas entre in\u00fameros erros de conex\u00e3o e longas aus\u00eancias de servi\u00e7o. Naquela noite, alguns sem\u00e1foros a caminho de casa permaneciam no amarelo piscante; desta vez, predominava o breu. O impacto foi semelhante, mas fiquei com a impress\u00e3o que os transtornos foram maiores desta vez. Seguem minhas lembran\u00e7as n\u00e3o apenas pela evidente refer\u00eancia, mas tamb\u00e9m pelas \u00faltimas linhas: ser\u00e1 que, quem devia lembrar daquele apag\u00e3o de 1999, fez isso mesmo?<\/p>\n<p align=\"center\">***<\/p>\n<p>Avenida Paulista, 900. No quinto andar, as aulas prosseguiam normalmente na Faculdade C\u00e1sper L\u00edbero. Em uma das salas, alunos do 4\u00ba JO D acompanhavam as imperd\u00edveis aulas do professor Carlos Guardado. Em nosso antigo curr\u00edculo, aquelas \u00faltimas aulas de quinta-feira correspondiam \u00e0 disciplina &#8221; videotexto e inform\u00e1tica em jornalismo&#8221;. Conv\u00e9m lembrar que, em 99, a Internet j\u00e1 tinha pelo menos quatro anos, e ningu\u00e9m lembrava (se \u00e9 que sabiam) o que era &#8220;videotexto&#8221;.<\/p>\n<p>Ainda est\u00e1vamos no in\u00edcio do bimestre, com aulas muito interessantes e produtivas. Essa n\u00e3o era diferente: Guardado usou de todos os seus conhecimentos para explicar aos impacientes quartanistas como funciona o hardware de um computador. Passavam das dez da noite quando o assunto chegou \u00e0 mem\u00f3ria RAM &#8211; ainda me soa estranho imaginar as raz\u00f5es para um aluno de jornalismo precisar ouvir isso em sala de aula.<\/p>\n<p>&#8211; Pessoal, essa mem\u00f3ria tem esse nome por ser de acesso aleat\u00f3rio. Os dados n\u00e3o s\u00e3o armazenados nela, apenas enquanto est\u00e3o sendo usados. Ou seja, \u00e9 uma mem\u00f3ria vol\u00e1til. Se voc\u00ea estiver trabalhando em seu computador sem salvar os dados, e de repente faltar energia&#8230;<\/p>\n<p>Eram 22h16 quando as luzes da sala apagaram. &#8220;Puxa vida, eu n\u00e3o dava nada pela aula do Guardado e vejam s\u00f3 o efeito bacana que ele conseguiu&#8230;&#8221;, pensei. Apenas as luzes de emerg\u00eancia do quinto andar continuaram acesas nos minutos seguintes. Em uma sala pr\u00f3xima, <a href=\"http:\/\/bebediabo.zip.net\" target=\"_blank\"><b>Lello Lopes<\/b><\/a>, ent\u00e3o no terceiro ano, tinha aula com Claudio Arantes, professor de pol\u00edtica famoso por lembrar o nome de todos os seus alunos (se bem que ele sempre me chamou de C\u00e9sar). Enquanto todas as salas estavam sendo esvaziadas, l\u00e1 estava ele, em p\u00e9, diante da lousa.<\/p>\n<p>&#8211; Gente, a aula ainda n\u00e3o acabou! N\u00e3o v\u00e3o embora! Ainda n\u00e3o terminei o tema da aula de hoje! Podemos continuar, mesmo no escuro!<\/p>\n<p>Logo uma multid\u00e3o de alunos tomou o sagu\u00e3o e a \u00e1rea dos elevadores. Mesmo sem orienta\u00e7\u00e3o, todos desceram as escadas at\u00e9 o t\u00e9rreo alto, na sa\u00edda para a Paulista pelo famoso escad\u00e3o. Muitos gritos, assobios e piadinhas envolvendo o &#8220;fim do mundo&#8221; ecoavam pelo pr\u00e9dio. Muitos deles sa\u00eddos da minha boca e na do meu amigo Marcus Tadeu.<\/p>\n<p>O papo de &#8220;fim do mundo&#8221; era ing\u00eanuo. At\u00e9 porque, naquele instante, o que se pensava era num problema el\u00e9trico no pr\u00e9dio da Gazeta, que seria consertado naquela madrugada para tudo voltar ao normal no dia seguinte. Mas a imagem da avenida era ca\u00f3tica: carros parados, pouca ilumina\u00e7\u00e3o e muita gente perdida. A extens\u00e3o da falta de luz era bem maior que os nossos olhos pudessem alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Decidi ficar sentado no escad\u00e3o, observando aquele movimento anormal. Alguns amigos tamb\u00e9m sentaram, esperando por caronas que s\u00f3 viriam uma hora depois. Eram muitos na mesma situa\u00e7\u00e3o: esperando, fazendo companhia, temendo assaltos ou simplesmente contemplando a multid\u00e3o insana. S\u00f3 por volta da meia-noite, quando liguei o r\u00e1dio do carro, comecei a entender o que se passava.<\/p>\n<p>Era um blecaute de grandes propor\u00e7\u00f5es. Foram dez estados e 60 milh\u00f5es de pessoas atingidas nas regi\u00f5es sul, sudeste e centro-oeste. Enquanto os \u00e2ncoras das emissoras AM tentavam repercutir com bombeiros, defesa civil e outras autoridades, al\u00e9m de identificar as causas e o tamanho do problema, as ruas de S\u00e3o Paulo estavam vazias, mas com algumas luzes acesas apesar dos sem\u00e1foros embandeirados. Muitos ainda estavam presos em esta\u00e7\u00f5es do Metr\u00f4 ou em elevadores. Ao chegar em casa, s\u00f3 o radinho de pilha fazia companhia para a fam\u00edlia &#8211; a Globo precisou passar dois cap\u00edtulos de Chiquinha Gonzaga no dia seguinte, pois estava fora do ar.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 seria reestabelecida por volta das quatro e pouco da madrugada. Mas o problema levaria muito mais tempo. Nessa altura, o Governo Federal j\u00e1 tinha dado a causa: um raio na regi\u00e3o de Bauru. O blecaute fez com que o Brasil convivesse com o eminente risco de &#8220;apag\u00e3o&#8221;, fez com que FHC anunciasse medidas preventivas para a queda no consumo el\u00e9trico (claro que pagamos o pato, com as metas dom\u00e9sticas). Anos mais tarde, quando todos j\u00e1 haviam esquecido, as autoridades finalmente admitiram o que todo bauruense j\u00e1 sabia: se a causa foi um raio, <a href=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/bau-do-azenha\/o-raio-de-bauru\" target=\"_blank\"><b>ele n\u00e3o caiu em Bauru<\/b><\/a>. Ali\u00e1s, nem choveu ali naquela noite.<\/p>\n<p>Faz tempo que ningu\u00e9m ouve mais falar em &#8220;economizar energia&#8221;. Vez ou outra o Governo Federal \u00e9 questionado novamente em rela\u00e7\u00e3o ao aumento de demanda e a falta de investimentos tanto na gera\u00e7\u00e3o de eletricidade quanto na manuten\u00e7\u00e3o do sistema. J\u00e1 s\u00e3o nove anos desde o instante em que o pa\u00eds chacoalhou com o caos e, a \u00faltima not\u00edcia do g\u00eanero foi um <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/cotidiano\/ult95u378453.shtml\" target=\"_blank\"><b>novo apag\u00e3o em S\u00e3o Paulo<\/b><\/a>. As amea\u00e7as est\u00e3o prestes a voltar, pois quem devia lembrar daquela quinta-feira j\u00e1 esqueceu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Nunca havia acontecido isso&#8221;. A declara\u00e7\u00e3o de Jorge Samek, diretor de Itaipu, diz respeito ao fato dos 18 geradores da usina terem sido desligados completamente na noite deste dia 10 de novembro. 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