{"id":144,"date":"2008-03-06T23:54:27","date_gmt":"2008-03-07T02:54:27","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/meus-oito-anos-de-idade"},"modified":"2008-03-06T23:54:27","modified_gmt":"2008-03-07T02:54:27","slug":"meus-oito-anos-de-idade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/meus-oito-anos-de-idade\/","title":{"rendered":"Meus oito anos de idade"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/plantao.jpg\" align=\"right\" \/>Em 1985, eu cursava a segunda s\u00e9rie do ensino prim\u00e1rio. Meu hor\u00e1rio era da uma \u00e0s cinco &#8211; em alguns dias chegava antes, a contragosto, para a horrenda aula de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica. O professor Ada\u00edlton chegou a procurar minha m\u00e3e na reuni\u00e3o de pais e mestres para question\u00e1-la &#8220;por que esse moleque fica sentado num canto ao inv\u00e9s de jogar com os outros&#8221;.<\/p>\n<p>Legal mesmo era a &#8220;tia&#8221; Miriam. Quer dizer, talvez s\u00f3 eu achasse. Ela alternava momentos de do\u00e7ura e simpatia com gritos hist\u00e9ricos de sil\u00eancio, em uma busca insana por disciplina. A &#8220;tia&#8221; Miriam era a respons\u00e1vel por todas as aulas: desde as no\u00e7\u00f5es elementares de matem\u00e1tica, como conjuntos (pertence e n\u00e3o-pertence, uni\u00e3o e interesec\u00e7\u00e3o), l\u00edngua portuguesa (sin\u00f4nimos e ant\u00f4nimos, diminutivo e aumentativo), ci\u00eancias e estudos sociais (que, num futuro distante, iria conhecer como hist\u00f3ria, geografia, f\u00edsica, qu\u00edmica, essas coisas de gin\u00e1sio).<\/p>\n<p>Dois anos mais tarde, eu viria a descobrir as vantagens de estudar pela manh\u00e3&#8230; Naquele ano, no entanto, acordava pregui\u00e7osamente tarde; continuava de pijama diante da TV em minha sala acarpetada (infelizmente, levei ainda mais tempo para descobrir que aquilo alfinetava minha rinite). Pouco depois do meio-dia, j\u00e1 almo\u00e7ado, esperava o &#8220;tio&#8221; Manoel (outro gasto desnecess\u00e1rio, j\u00e1 que minha escola ficava a poucas quadras).<\/p>\n<p>Sempre fui um moleque alheio \u00e0 brincadeiras, mesmo naquele velho \u00f4nibus Marcopolo. Preferia trocar id\u00e9ias est\u00fapidas com alguns dos meus amiguinhos. Que, diga-se, eram poucos: alguns malas zombavam comigo, por causa do sobrenome. Meus oito anos coincidiram com uma propaganda de bonecos da Turma da M\u00f4nica, que apresentou o casal Chico Bento e Rosinha. E alguns babacas do \u00f4nibus cantavam isso, apontando para mim na hora do &#8220;Rosinha&#8221;.<\/p>\n<p>S\u00f3 brincava de queimada, pol\u00edcia e ladr\u00e3o ou andava de bicicleta com a vizinhan\u00e7a nos finais de semana: quando voltava, era mais TV, li\u00e7\u00e3o de casa, jantar e cama. Mas quando o final de semana chegava, tanto o agito da rua quanto o meu antigo Odyssey (e ai da crian\u00e7a que n\u00e3o tivesse um videogame em casa&#8230;) ocupavam meu tempo livre. Tamb\u00e9m gostava das minhas despretensiosas leituras infanto-juvenis, como a S\u00e9rie Vaga-Lume ou o Tio Patinhas, al\u00e9m de perder algum tempinho com o meu r\u00e1dio de pilha.<\/p>\n<p>Nem faz tanto tempo assim&#8230; E entre as crian\u00e7as da \u00e9poca, algumas faziam estripulias ainda maiores. Todas cresceram naturalmente, apanharam dos pais e da vida, fizeram escolhas erradas para acertar na pr\u00f3xima&#8230; Detalhes que nos transformam em adultos na medida certa. Exatamente o oposto de <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/Noticias\/Vestibular\/0,,MUL338761-5604,00.html\" target=\"_blank\"><b>Jo\u00e3o Vitor<\/b><\/a>, que aos oito anos j\u00e1 est\u00e1 na quinta s\u00e9rie (entrou no ensino fundamental com tr\u00eas?), experimentou um vestibular (com direito a reda\u00e7\u00e3o sobre compras perdul\u00e1rias) e foi aprovado no curso de direito.<\/p>\n<p>Muitas coisas me deixaram perplexo diante desse epis\u00f3dio. A pior delas: Jo\u00e3o Victor \u00e9, indiscutivelmente, um garoto fora-de-s\u00e9rie. Mas dentro das exig\u00eancias normais, como a simples conclus\u00e3o do n\u00edvel m\u00e9dio, a universidade sequer deveria ter aceito sua inscri\u00e7\u00e3o para o vestibular. Foi mais longe: autorizou a matr\u00edcula! E s\u00f3 veio com esse papinho de &#8220;treineiro&#8221; quando o caso chegou \u00e0 m\u00eddia &#8211; j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 qualquer diferen\u00e7a entre uma modalidade e outra. \u00c9 quase como o <a href=\"http:\/\/www.interney.net\/blogs\/marmota\/2008\/02\/20\/disque_facu\" target=\"_blank\"><b>Disque-Facu!<\/b><\/a>.<\/p>\n<p>A segunda: os pais querem fazer a vontade do menino, que \u00e9 &#8220;ser juiz, mandar soltar e mandar prender, essas coisas&#8221;, e insistem em lev\u00e1-lo para a faculdade! Tudo bem que, no mundo de hoje, quanto menor o tempo perdido para atingirmos nossos objetivos profissionais, melhor. Mas tudo tem um limite, e aceitar com naturalidade a presen\u00e7a de uma crian\u00e7a em uma sala onde se discute m\u00e9todos cient\u00edficos e teoria geral do processo \u00e9 muito esquisito.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante: se voc\u00ea tem oito anos, aprovado ou n\u00e3o no vestibular, tem todo o direito de pensar nisso apenas daqui a dez anos. Enquanto isso, v\u00e1 brincar na lama, cair com um par de patins, jogar fliperama, empinar pipa, jogar bafo, colecionar times de bot\u00e3o&#8230; Ou qualquer outra coisa divertida que fazemos com essa idade. Porque quando a faculdade chegar de verdade, essas boas lembran\u00e7as v\u00e3o fazer falta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1985, eu cursava a segunda s\u00e9rie do ensino prim\u00e1rio. Meu hor\u00e1rio era da uma \u00e0s cinco &#8211; em alguns dias chegava antes, a contragosto, para a horrenda aula de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica. O professor Ada\u00edlton chegou a procurar minha m\u00e3e na reuni\u00e3o de pais e mestres para question\u00e1-la &#8220;por que esse moleque fica sentado num [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21],"tags":[],"class_list":["post-144","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-plantao-marmota"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=144"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=144"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=144"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=144"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}