{"id":1420,"date":"2009-03-12T10:19:41","date_gmt":"2009-03-12T13:19:41","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/noite-alta-ceu-risonho"},"modified":"2009-03-12T10:19:41","modified_gmt":"2009-03-12T13:19:41","slug":"noite-alta-ceu-risonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/noite-alta-ceu-risonho\/","title":{"rendered":"Noite alta, c\u00e9u risonho"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/ferias.gif\" align=\"right\" \/><i>Pois \u00e9, eu tamb\u00e9m pensava que a s\u00e9rie de f\u00e9rias do blog tinha acabado&#8230; At\u00e9 receber o texto abaixo, do <a href=\"http:\/\/www.verbeat.org\/blogs\/donizetti\" target=\"_blank\"><b>Doni<\/b><\/a>, precedido de um pedido de desculpas &#8211; junto com a promessa de abrirmos definitivamente o <a href=\"http:\/\/dialetica.org\/marmota\/clube-dos-procrastinadores-anonimos\" target=\"_blank\"><b>Clube dos Procrastinadores An\u00f4nimos<\/b><\/a>. Pois eu fiquei bem feliz. Primeiro, por ser f\u00e3 das ondas curtas em dias chuvosos. Segundo, ainda penso que bons h\u00e1bitos com cara de &#8220;ultrapassados&#8221;, como ouvir r\u00e1dio AM e <a href=\"http:\/\/www.verbeat.org\/blogs\/donizetti\/2009\/03\/navegar-e-preciso.html\"><b>dialogar despretensiosamente<\/b><\/a>, jamais deveriam se perder no passado.<\/i><\/p>\n<p>As chuvas que caem quase todos os dias deste ver\u00e3o na cidade de S\u00e3o Paulo causam muitos estragos. As \u00e1guas levam nossos m\u00f3veis, carros e dignidade; e mesmo quem mora em lugares altos acaba sofrendo. Sim, a infraestrutura montada de servi\u00e7os como energia el\u00e9trica, telefonia (fixa e celular) e TV por assinatura n\u00e3o resiste ao primeiro ventinho seguido de alguns pingos; e no caso de quem mora na periferia a urina de um cachorro no poste j\u00e1 \u00e9 capaz de botar tudo a perder, imaginem ent\u00e3o uma tempestade. <\/p>\n<p> N\u00e3o foi diferente naquela noite. A \u00fanica ilumina\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, a dos raios que acendiam a janela durante alguns segundos, me ajudou a achar a antiga c\u00f4moda onde pensei que encontraria algumas velas e f\u00f3sforos. N\u00e3o encontrei, mas estava escondido ali um velho r\u00e1dio de pilhas, parceiro insepar\u00e1vel das noites de inf\u00e2ncia em que eu tentava enganar o medo de escuro com a voz dos locutores durante a madrugada. Do lado da cama, o controle da TV, que forneceu suas baterias para dar voz ao velho r\u00e1dio. Uma da madrugada, ondas m\u00e9dias, r\u00e1dio AM. Dif\u00edcil sintonizar uma esta\u00e7\u00e3o em meio a tanto chiado causado pela interfer\u00eancia dos raios; dif\u00edcil ouvir algo com tantos trov\u00f5es, mas encontrei um programa um pouco mais aud\u00edvel, e ali deixei. <\/p>\n<p> O locutor, carioca, conversava com ouvintes ao vivo, gente j\u00e1 de certa idade. Falavam da juventude distante, dos primeiros namoros, de pessoas queridas que j\u00e1 n\u00e3o estavam entre eles, depois pediam uma m\u00fasica. Naquele momento eu era novamente o garoto de 12 anos fascinado com o n\u00famero de pessoas que se mantinham acordadas durante a madrugada, conversando sobre os mais diversos assuntos, ao vivo, para tantos ouvirem. Para um menino quase sempre bem comportado, de hor\u00e1rios regrados, aquilo era o m\u00e1ximo da transgress\u00e3o. <\/p>\n<p> Eu me peguei sorrindo com este pensamento enquanto o locutor recebia a liga\u00e7\u00e3o de Alfredo. Morador da baixada fluminense, solteiro, 53 anos, ele lamentava n\u00e3o ter se casado com sua grande paix\u00e3o, Luiza. &quot;Na \u00faltima vez que soube dela&quot;, dizia Alfredo, &quot;ela estava de mudan\u00e7a para Volta Redonda com o marido&quot;. Alguns lamentos mais e ele pediu &quot;Abre Cora\u00e7\u00e3o&quot;, inusitada parceria de um int\u00e9rprete chamado Marcelo com o baterista <\/font><a href=\"http:\/\/www.jimcapaldi.com\/\" target=\"_blank\">Jim Capaldi<\/a>, da banda inglesa Traffic: <i>&quot;Meu amor&#8230;\/ Estou t\u00e3o sozinho\/ N\u00e3o consigo encontrar\/ Nada que me fa\u00e7a sentir melhor. S\u00f3 o sonho\/ Vive na mem\u00f3ria\/ Daquele tempo feliz,\/ Tempo em que voc\u00ea me quis&#8230; E me amou&quot;<\/i>. Senti por Alfredo, mas gostei de ter ouvido uma m\u00fasica de que sempre gostei. <\/p>\n<p> A liga\u00e7\u00e3o seguinte foi de uma senhora chamada Roberta, de Embu das Artes. Tive vontade de chacoalhar os bra\u00e7os diante do r\u00e1dio, na esperan\u00e7a de que ela prestasse aten\u00e7\u00e3o em mim e visse que \u00e9ramos da mesma cidade, que est\u00e1vamos muito mais pr\u00f3ximos do que se poderia imaginar. Era delicioso. Eu que sou t\u00e3o afeito \u00e0s novas tecnologias e t\u00e3o viciado em novas formas de comunica\u00e7\u00e3o estava ali, bobo porque ouvia um programa de r\u00e1dio na madrugada, com ao menos mais uma pessoa de minha cidade. Dona Roberta, j\u00e1 vi\u00fava, lembrava seu come\u00e7o de namoro com Ant\u00f4nio, homem que foi seu esposo durante 50 anos. A m\u00fasica pedida foi <a href=\"http:\/\/www.mpbnet.com.br\/musicos\/candido.das.neves\/letras\/noite_cheia_de_estrelas.htm\" target=\"_blank\">&quot;Noite Cheia de Estrelas&quot;<\/a>, composi\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/www.capitaldaseresta.kit.net\/candidodasneves.htm\" target=\"_blank\">C\u00e2ndido das Neves<\/a> gravada nos anos 30 pelo grande Vicente Celestino. <\/p>\n<p> Meu cora\u00e7\u00e3o disparou. O radialista pediu desculpas por n\u00e3o ter esta grava\u00e7\u00e3o, mas botou para tocar a vers\u00e3o do cantor <a href=\"http:\/\/www.inesqueciveljesse.com\/jesse.htm\" target=\"_blank\">Jess\u00e9<\/a>. <i>&quot;Noite alta, c\u00e9u risonho&#8230;&quot;<\/i>, e se eu pudesse iria at\u00e9 a casa da Dona Roberta naquele momento, tomar um ch\u00e1 e contar a ela que conheci os versos de &quot;Noite Cheia de Estrelas&quot; numa antiga hist\u00f3ria em quadrinhos, onde um personagem atrapalhado tentava fazer uma serenata para uma mocinha por quem estava apaixonado. A cada vez que come\u00e7ava a dizer <i>&quot;noite alta, c\u00e9u risonho&quot;<\/i> algo de errado acontecia. Eu ria, mas sonhava tocar um instrumento e encontrar amigos legais que topassem sair pela noite comigo, at\u00e9 a janela da menina que eu gostava, para que eu pudesse fazer para ela uma bela serenata tamb\u00e9m. Pedi para meu pai um viol\u00e3o, que nunca aprendi a tocar direito. Ele ainda est\u00e1 aqui e sei alguns acordes, mas serenatas j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o na moda. <\/p>\n<p> A energia el\u00e9trica voltou e acabou a nostalgia. Voltei para o computador e para meus textos, mas deixei o r\u00e1dio ligado ainda por mais alguns minutos. Lembrei-me ent\u00e3o de um momento. Um apartamento, muita bebida, risos e pessoas queridas. Uma amiga estava deslumbrante, vestia preto e tinha os cabelos soltos, do jeito que gosto e que sempre pedia a ela para deixar. Ajoelhada em meio a discos e cds sensacionais, ela batalhava com o dial do aparelho de som, procurando por uma esta\u00e7\u00e3o, e eu perguntei a ela porque n\u00e3o colocava um disco e vinha dan\u00e7ar. Ela respondeu que de vez em quando preferia o r\u00e1dio, porque sentia que enquanto o ouvia nunca estava sozinha. Daquele dia eu guardei mais a lembran\u00e7a de sua beleza ali do que o significado de sua resposta. Mas na noite em que fiquei sozinho com meu r\u00e1dio no escuro, entendi perfeitamente o que ela queria dizer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pois \u00e9, eu tamb\u00e9m pensava que a s\u00e9rie de f\u00e9rias do blog tinha acabado&#8230; At\u00e9 receber o texto abaixo, do Doni, precedido de um pedido de desculpas &#8211; junto com a promessa de abrirmos definitivamente o Clube dos Procrastinadores An\u00f4nimos. Pois eu fiquei bem feliz. Primeiro, por ser f\u00e3 das ondas curtas em dias chuvosos. 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