{"id":1397,"date":"2007-02-04T22:51:39","date_gmt":"2007-02-05T01:51:39","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/todos-los-personagens-de-mi-portunhol"},"modified":"2007-02-04T22:51:39","modified_gmt":"2007-02-05T01:51:39","slug":"todos-los-personagens-de-mi-portunhol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/todos-los-personagens-de-mi-portunhol\/","title":{"rendered":"Todos los personagens de mi portunhol"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/backfut.gif\" align=\"right\">Alguns dos nossos tr\u00eas ou quatro visitantes de sempre devem lembrar: em <a href=\"http:\/\/www.marmota.org\/blog\/2006\/08\"><b>agosto passado<\/b><\/a>, decidi aproveitar minhas f\u00e9rias para comemorar os noventa anos da minha v\u00f3 (que faleceu h\u00e1 um m\u00eas). Antes, passei por Porto Alegre para acompanhar de perto o t\u00edtulo do Inter na Libertadores e, logo depois, curtir alguns dias sozinho na Argentina e no Uruguai.<\/p>\n<p>Esse passeio j\u00e1 tem um bom tempo. Sa\u00ed de Porto Alegre numa sexta, dia 18 de agosto; fiquei em Buenos Aires at\u00e9 a segunda, dia 21, quando passei o dia todo em Colonia del Sacramento, no Uruguai. Na mesma noite, j\u00e1 estava em Montevid\u00e9u, onde fiquei at\u00e9 \u00e0s 21 horas de quarta, dia 23. Nessa altura, voc\u00ea deve estar perguntando: &#8220;mas por que s\u00f3 agora voc\u00ea decidiu falar sobre isso?&#8221;<\/p>\n<p>A resposta simplista \u00e9: n\u00e3o tive tempo de escrever.<\/p>\n<p>Mas tenho ainda a resposta bacana. Como n\u00e3o tinha ningu\u00e9m para compartilhar minhas hist\u00f3rias, decidi repetir um ritual semelhante ao da minha \u00faltima viagem \u00e0 Floripa, em 2003, e dos inesquec\u00edveis 20 dias na Europa, em 2004. Assim, passei a colecionar personagens: aqueles coadjuvantes que, de um jeito ou de outro, contribu\u00edram para que o passeio fosse inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>S\u00f3 que a minha listinha de personagens ficou gigantesca. N\u00e3o valeria a pena escrever um par\u00e1grafo inteiro para tanta gente, colocando-os no mesmo patamar de figuras realmente marcantes. Ent\u00e3o guardei as anota\u00e7\u00f5es num canto e s\u00f3 peguei de volta cinco meses depois. Dessa forma, escreveria apenas sobre as figuras que lembrei. Teria assim uma lista de personagens que realmente valem a pena.<\/p>\n<p>Ficaram de fora, por exemplo, a \u201cColombiana da \u00c1rvore\u201d, a \u201cMorena na cidade de Tigre\u201d, o \u201cMotorista de fam\u00edlia\u201d, o \u201cBobo da Pochete\u201d, entre outros que simplesmente esqueci. Todos os outros coadjuvantes daqueles dias gelados e solit\u00e1rios \u00e0s margens do Rio da Prata est\u00e3o a\u00ed.<\/p>\n<p><u>La juventud de Rebelde<\/u> &#8211; Ao inv\u00e9s de pagar uns sessenta pesos de t\u00e1xi entre Ezeiza e o centro de Buenos Aires, paguei um e pouquinho e embarquei no \u00f4nibus normal. Outro cidad\u00e3o, nitidamente perdido, fez o mesmo \u2013 s\u00f3 n\u00e3o sabia que o coletivo n\u00e3o tem cobrador, e que as moedas s\u00e3o obrigat\u00f3rias&#8230; Mas enfim. O \u00f4nibus levou o dobro do tempo e parou em todas as bocadinhas do caminho, mas valeu muito a pena. Era meio-dia de uma sexta-feira, hor\u00e1rio em que todos os estudantes das redondezas voltavam para casa. Parecia que estava diante de personagens da novela Carrossel. At\u00e9 que uma mocinha, mais atrevida, permaneceu em p\u00e9 bem perto de mim. Ela apertava os l\u00e1bios como se estivesse prestes a mandar beijos, permanecendo com um olhar malicioso&#8230; Essa a\u00ed saiu mesmo foi da novela Rebelde.<\/p>\n<p><u>Le Gusta Futbol<\/u> &#8211; Na chegada ao delicioso Obelisco Center Hotel, uma recep\u00e7\u00e3o muito simp\u00e1tica. O rapaz identificou minha terra de origem e logo perguntou se eu gostava de futebol. Aproveitou para oferecer os passeios guiados aos est\u00e1dios: s\u00e1bado era dia de Boca x Independiente, e domingo tinha Racing x River Plate. Belos jogos. Mas o passeio pago, com direito a traslado e camarote, custava uns cento e poucos pesos (praticamente cem reais). N\u00e3o pagaria aquela fortuna, e tamb\u00e9m n\u00e3o iria sozinho a est\u00e1dio algum. Resumindo: nada de futbol.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/bsasboca0402.jpg\" align=\"right\"><u>Don Diego Cover<\/u> &#8211; Minha longa caminhada entre Puerto Madeiro e La Boca fez com que eu chegasse um pouco tarde ao m\u00edtico La Bombonera. Tamb\u00e9m perdi o pique de visitar o museu boquense, que n\u00e3o conhecia. Mas ao menos conheci um dos personagens daquele pedacinho da cidade: um sujeito com o mesmo porte de Maradona. Abordava todos os visitantes, convidando-os para a visita guiada. Tamb\u00e9m cobrava alguns pesinhos para tirar fotos. Devia ter tirado minha camisa do River da bolsa.<\/p>\n<p><u>Aficcionado de Tango Eletr\u00f3nico<\/u> &#8211; Dos tr\u00eas dias que estive em Buenos Aires, pelo menos em quatro deles eu caminhei pela Calle Florida. E em todas as vezes, a mesma lojinha de CDs e DVDs tocava o mesmo disco: uma colet\u00e2nea de \u201ctango eletr\u00f4nico\u201d, grandes sucessos do passado regravados com batida de discoteca. \u00c9 praticamente um poper\u00f4 argentino. O curioso \u00e9 que esse era o \u00fanico local na cidade onde ouvia essa encrenca. \u201cEsse cara deve ser o \u00fanico f\u00e3 desse estilo estranho\u201d, pensei.<\/p>\n<p><u>La Rubia de la Libreria<\/u> &#8211; Antes mesmo de chegar a Montevid\u00e9u, imaginava que n\u00e3o encontraria nenhum guia tur\u00edstico exclusivo da cidade. Felizmente, encontrei um guia de Buenos Aires da Lonely Planet, em espanhol, com muitos e extensos detalhes da capital uruguaia e de Colonia, tratadas no guia como &#8220;excurs\u00f5es&#8221;. Publica\u00e7\u00e3o perfeita! Tanto quanto a loira maravilhosa do caixa. Ela disse &#8220;boa noite&#8221;, sorriu, perguntou se era um presente (o livro, n\u00e3o eu), recebeu meu pagamento e desejou &#8220;boa leitura&#8221;. Ah, se ela me desse bola.<\/p>\n<p><u>Artista Pintado de la Calle<\/u> &#8211; A Florida re\u00fane a maior quantidade de artistas de rua por metro quadrado em todo o mundo. Isso inclui todos os seus apetrechos, inclusive o potinho de tinta prateada que chutei sem querer&#8230; O sujeito deixou de ser uma est\u00e1tua-viva para vir lamentar comigo \u2013 no limiar do nervosismo, mas ainda controlado \u2013 o quanto aquela tinta era cara, e que a quantidade chutada dava para v\u00e1rios dias. Tirei duas notas de dez pesos da carteira e perguntei se aquilo cobria o preju\u00edzo. Ele disse \u201c\u00e9, d\u00e1\u201d, pegou e se foi. Tratei de passar longe dele o resto do final de semana.<\/p>\n<p><u>Imbecil del show<\/u> &#8211; Definitivamente, as caminhadas na \u00e1rea mais agitada de Buenos Aires trouxeram algumas figuras estranhas. Um zeman\u00e9, postado na esquina da Florida com a Lavalle, abordava qualquer transeunte para entregar um panfletinho de show er\u00f3tico. O imbecil n\u00e3o tinha controle algum: em uma hora, passei pelo mesmo lugar umas tr\u00eas vezes. E em todas elas, l\u00e1 estava o babaca estendendo a m\u00e3o, segurando um papelzinho e dizendo: \u201cshow?\u201d. Man\u00e9.<\/p>\n<p><u>Via Negromonte de la Espelunca<\/u> &#8211; Estava sem fome na primeira noite, por isso decidi jantar num restaurante mais simples, apenas para n\u00e3o ficar de est\u00f4mago vazio. Entrei numa roubada bem perto da Plaza del Congreso, na Avenida de Mayo. Era um lugar frequentado apenas por cidad\u00e3os locais. A gar\u00e7onete, uma c\u00f3pia bem mal-acabada da atriz e cantora Via Negromonte, deve ter sacado isso quando recusei o drink da casa &#8211; um estranho preparado alco\u00f3lico verde-fosforescente. A mulher levou quase uma hora para trazer meu prato &#8211; um bifinho bem vagabundo &#8211; e sumiu quando queria fechar a conta e cair fora daquela espelunca. Nunca mais.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/tigreestacao0402.jpg\" align=\"right\"><u>Novienta y Cinco<\/u> &#8211; Uma das coisas que mais queria fazer era conhecer Tigre, cidadezinha agrad\u00e1vel da Grande Buenos Aires. Fui de metr\u00f4 at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o Retiro e, dali, tratei de comprar a passagem de ida. A \u00fanica informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel antes do guich\u00ea eram os hor\u00e1rios dos trens. Tive que perguntar ao bilheteiro o pre\u00e7o da passagem. A resposta foi r\u00e1pida: \u201cnoventa e cinco\u201d. Arregalei os olhos num momento de fraqueza e disse: \u201cNoventa e cinco pesos???\u201d. O bilheteiro deu uma respirada e, com aquele olhar de pena, disse, em voz baixa: \u201ccentavos\u201d. Puxa vida.<\/p>\n<p><u>Pibezinho Down<\/u> &#8211; O bate-volta em Tigre usando o trenz\u00e3o de sub\u00farbio lembra uma viagem nos trens das linhas da CPTM. Est\u00e1 tudo l\u00e1: esta\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas mal cuidadas, vendedores de biscoitos e afins nos corredores, pedintes&#8230; Ao meu lado, duas mulheres (certamente m\u00e3e e filha) ciceroneavam um menininho com s\u00edndrome de down. Via-se que era uma fam\u00edlia com algumas dificuldades, mas em momento algum as mulheres se furtavam de sorrir, conversar e abra\u00e7ar o menininho. \u00c9 um pequeno sortudo!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/tigretrem0402.jpg\" align=\"right\"><u>Abuela da Tarjeta<\/u> &#8211; Quem for a Tigre deve perder um bom tempo no Mercado de Frutos. Apesar do nome, o lugar re\u00fane centenas de quiosques com toda sorte de produtos artesanais e souvenirs diversos. Ali, minha busca por cart\u00f5es postais (minha compra obrigat\u00f3ria em qualquer viagem) acabou na banquinha de uma senhora sorridente. Entusiasmada com minha procura por postais, tirou de uma gaveta outros modelos que n\u00e3o estavam \u00e0 mostra. Depois dessa, tive que levar todos.<\/p>\n<p><u>Edinho de Puerto Madero<\/u> &#8211; No \u00faltimo dia na capital argentina, o jantar tinha que ser especial. Nada melhor que um daqueles requintados estabelecimentos \u00e0 beira do Rio da Prata. Fui atendido pelo clone do Edinho, o ex-goleiro filho do Pel\u00e9. O lugar, ao estilo &#8220;coma tudo que puder por trinta pesos&#8221; trazia, entre as centenas de op\u00e7\u00f5es, pequenos peda\u00e7os de pizza. Mas a massa estava dura e imposs\u00edvel de ser cortada. &#8220;\u00c9 que essa pizza foi assada na pedra&#8221;, retrucou Edinho. N\u00e3o mandei o sujeito ir comer a pizza na pedra de Florian\u00f3polis para aprender como \u00e9 &#8211; na hora, n\u00e3o sabia como dizer isso em castelhano.<\/p>\n<p><u>Brasile\u00f1as en la Capital<\/u> &#8211; Buenos Aires \u00e9 uma esp\u00e9cie de quintal de lazer para os brasileiros, que pagam uma ninharia para passar um fim de semana no exterior como se fosse a Europa. Mesmo com os neur\u00f4nios desligados, reconheci brazucas tr\u00eas vezes. Uma em Puerto Madero: duas menininhas circulavam, conversavam em voz alta e tiravam muitas fotos. Outra no Trem da Costa, voltando de Tigre: dois casais, que tamb\u00e9m falavam bem alto. A \u00faltima na El Ateneo Splendid, na calle Santa F\u00e9: uma peruona muito da nojenta falava da livraria e da cidade como se fosse muito importante. E em voz alta &#8211; ser\u00e1 que isso \u00e9 mania tipicamente nacional?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/bsashavanna0402.jpg\" align=\"right\"><u>Galera del Peon Laboral<\/u> &#8211; Uma cena absolutamente ins\u00f3lita nos Bosques de Palermo, bem perto do planet\u00e1rio. Um grupo de pessoas, a maioria da terceira idade, seguia os passos da instrutora de gin\u00e1stica. Cena comum em muitos parques do mundo, n\u00e3o fosse um detalhe: a turma estava se exercitando ao som de \u201cal\u00f4 galera de caub\u00f3i, al\u00f4 galera de pe\u00e3o&#8230; quem gosta de rodeio bate forte com a m\u00e3o\u201d. Em bom portugu\u00eas.<\/p>\n<p><u>El loco de la broma babaca<\/u> &#8211; Tudo certo com minha passagem, documentos, passaporte e afins. Hora de sair da Argentina e pisar no Uruguai &#8211; para quem faz isso no Buquebus, barco que cruza o Rio da Prata, todo o tr\u00e2mite burocr\u00e1tico \u00e9 feito antes mesmo de entrar no barco. Enquanto uma mocinha carimbava a sa\u00edda, um baiaba metido a besta registrava a entrada. Ao abrir meu passaporte brasileiro, fez uma piadinha inintelig\u00edvel para a mocinha. &#8220;Desculpe, n\u00e3o entendi&#8221;, disse, tentando entender a piadinha. A mocinha foi curta e grossa: nada de mais, voc\u00ea pode passar sem essa. S\u00f3 n\u00e3o chamei o gordo de babaca para n\u00e3o criar um incidente diplom\u00e1tico: ele poderia apreender minhas cinco caixas de alfajor Havana embrulhadas na mala.<\/p>\n<p><u>El Clon de Jacques Cousteau<\/u> &#8211; Esse encontrei no Buquebus, j\u00e1 no traslado entre Buenos Aires e Colonia del Sacramento. Era um senhor bem vestido e de barba branca, sentado na poltrona de tr\u00e1s, cuidando com esmero de seu equipamento fotogr\u00e1fico. Tentou registrar algumas imagens no caminho, mas a (falta de) transpar\u00eancia da janela n\u00e3o o ajudou. (\u00c9, esse personagem \u00e9 meio fraquinho&#8230; Mas plasticamente ele \u00e9 relevante, vai).<\/p>\n<p><u>Las gu\u00edas turisticas<\/u> &#8211; Exemplos edificantes de trabalho bem executado no Uruguai, pa\u00eds que eu n\u00e3o conhecia. Em Colonia, no posto tur\u00edstico na avenida principal da cidade, ganhei um belo mapa e explica\u00e7\u00f5es detalhadas sobre todas as atra\u00e7\u00f5es (ok, s\u00e3o poucas). Ainda ganhei um sorriso quando disse a ela que vinha de S\u00e3o Paulo. Dias depois, abordei outra mocinha, esta enclausurada em um quiosque do Mercado del Puerto. Tamb\u00e9m se entusiasmou loucamente quando pedi orienta\u00e7\u00f5es sobre a cidade: foram uns dez minutos de conversa.<\/p>\n<p><u>El hombre del Chivito<\/u> &#8211; Minha primeira refei\u00e7\u00e3o no Uruguai tinha que ser bem t\u00edpica. Foi exatamente isso que disse ao jovem gar\u00e7om de cabelos compridos em um humilde restaurante em Colonia. A resposta veio em uma palavra que nunca tinha ouvido antes: chivito. \u00c9 um sandu\u00edche, aos moldes do nosso &#8220;X-Tudo no prato&#8221;. Grande e saboroso, com carne, bacon, queijo, presunto, salada e ovos cozidos, servidos com batatas fritas. Aprovado.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/coloniasancarlos0402.jpg\" align=\"right\"><u>El visionario<\/u> &#8211; O empres\u00e1rio argentino Nicol\u00e1s Mihanovich era um homem de vis\u00e3o. No in\u00edcio do S\u00e9culo XX, ele criou um complexo tur\u00edstico fabuloso, em uma regi\u00e3o afastada do centro de Colonia. Um hotel-cassino, uma arena de touradas, uma cancha de corrida de cavalos&#8230; Pena que tamanho desenvolvimento tenha dado errado. Hoje, aquele pedacinho perdido n\u00e3o passa de um bairro residencial absolutamente vazio. As constru\u00e7\u00f5es de Mihanovich? Completamente abandonadas. A sensa\u00e7\u00e3o ao chegar l\u00e1 e n\u00e3o encontrar uma viva alma \u00e9 muito desagrad\u00e1vel, para tristeza deste pobre empres\u00e1rio \u2013 onde quer que ele esteja.<\/p>\n<p><u>Los Comunas del Autobus<\/u> &#8211; Colonia \u00e9 um ovo. Ainda assim, existem duas empresas de \u00f4nibus \u2013 que fazem rigorosamente o mesmo trajeto, entre o centro antigo e Real de San Carlos, passando por todos os pontos da cidade. A diferen\u00e7a est\u00e1 nas empresas: uma \u00e9 ligada \u00e0 prefeitura. A outra pertence a uma cooperativa de moradores. Optei pela rota popular e encontrei um ve\u00edculo bastante deteriorado, que n\u00e3o passava dos 20km\/h. O motorista usava um tapa-olho, e o cobrador era um sujeito barbudo e cabeludo, rec\u00e9m-sa\u00eddo de alguma revolu\u00e7\u00e3o. Nas janelas, alguns avisos denunciavam a \u201cluta da comunidade\u201d, a \u201cresist\u00eancia aos desmandos capitalistas\u201d&#8230; Socialismo ut\u00f3pico ambulante!<\/p>\n<p><u>Guardi\u00f3n de las equipajes<\/u> &#8211; Este simp\u00e1tico e bonach\u00e3o funcion\u00e1rio da rodovi\u00e1ria de Colonia merecia um tratamento bem melhor desse turista que vos escreve. Com todo o guarda-volumes ocupado, ele se ofereceu para cuidar da minha bagagem enquanto passeava pela cidade a tarde inteira. Na volta, sorrindo e com o servi\u00e7o perfeitamente executado, ele pede &#8220;a quantia que eu puder lhe dar&#8221;. Como tinha pouca moeda uruguaia comigo, peguei a que acreditava ser a maior: dez pesos. Seu semblante fechou de repente, como se o tivesse insultando. S\u00f3 depois, quando fui comprar a passagem para Montevid\u00e9u, percebi que dez pesos uruguaios correspondem a menos de um real. Tratei de trocar uma nota de 500 pesos, voltar l\u00e1, entregar mais dinheiro e pedir desculpas. E a alegria dele voltou.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/coloniaigreja0402.jpg\" align=\"right\"><u>Las Perdidas<\/u> &#8211; Ainda na rodovi\u00e1ria de Colonia, antes de embarcar para Montevid\u00e9u. Em minha dire\u00e7\u00e3o, quatro mocinhas que, definitivamente, estavam muito longe de casa. Falavam alto, e num idioma muito estranho. Deu para sentir exatamente como um gringo que n\u00e3o conhece portugu\u00eas deve pensar quando encontra uma animada turma de brasileiros por esse mund\u00e3o afora.<\/p>\n<p><u>Andr\u00e9a del Cart\u00f3n<\/u> &#8211; Antes de descobrir onde ficava a rambla de Montevid\u00e9u (e consequentemente o hotel \u00cdbis), precisava comprar minha passagem para Pelotas. Fui direto ao guich\u00ea da TTL no terminal Tres Cruces e l\u00e1 conversei com a atendente Andr\u00e9a. Foi tudo r\u00e1pido e f\u00e1cil, at\u00e9 a mo\u00e7a perguntar se eu iria pagar com \u201ccart\u00f3n\u201d. Fiquei com aquilo na cabe\u00e7a: sempre falei em \u201ctarjeta\u201d, imaginando que \u201ccart\u00f3n\u201d seria um portunhol vagabundo \u2013 como em \u201chacer una ligaccion\u201d. Enfim, deve existir o cart\u00f3n.<\/p>\n<p><u>Los Clones de Recoba<\/u> &#8211; Primeiros movimentos na capital uruguaia: caminhada extensa pela rambla, \u00e0 beira do Rio da Prata, Avenida 18 de Julio, Ciudad Vieja e arredores do porto. Nesse per\u00edodo, encontrei transeuntes muito iguais a um famoso jogador de futebol uruguaio, com cara de bobo&#8230; Mas que eu n\u00e3o lembrava o nome de jeito nenhum. Continuei andando e matutando com os meus bot\u00f5es, at\u00e9 que, num relance, veio o insight: &#8220;Recoba&#8221;, gritei, no meio da rua, vibrando como se tivesse feito um gol. De fato, tem muita gente que \u00e9 a cara do Recoba.<\/p>\n<p><u>Bendedor de peri\u00f3dicos<\/u> &#8211; Assim que embarquei no coletivo para o Est\u00e1dio Centen\u00e1rio, um sujeito simp\u00e1tico entrou logo em seguida.  \u201cOutro pedinte\u201d, pensei. Tirou da bolsa uma revista de variedades, apresentou a fofoca da semana. Ningu\u00e9m se manifestou. Ent\u00e3o tirou uma edi\u00e7\u00e3o do El Pais. Pronto, j\u00e1 tinha me conquistado. Por \u201csolamente trinta pesitos\u201d, fiz o sujeito sorrir.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/montevideurambla0402.jpg\" align=\"right\"><u>Para Comprar Un Pan<\/u> &#8211; Foi esse mendigo estranho, andarilho da 18 de Julio, que me fez lembrar o quanto \u00e9 divertido escrever sobre esses coadjuvantes. Imagine uma vers\u00e3o uruguaia do Tiririca, mas sem o mesmo sucesso (e dinheiro). Para cada transeunte que encontrava, ele repetia a mesma frase, num berro seguido da explica\u00e7\u00e3o: &#8220;Para comprar um pan, yo necessito una moneda&#8221;. O &#8220;un pan&#8221; era a parte tonificada da frase. Intenso. Quase uma cusparada. A frase foi repetida umas cinco vezes no mesmo ponto. E o Para Comprar Un Pan n\u00e3o ganhou um m\u00edsero e vagabundo pesinho uruguaio.<\/p>\n<p><u>La Uruguaya Muy Formosa<\/u> &#8211; As brasileiras que me desculpem, mas de todas as cidades que j\u00e1 tive o privil\u00e9gio de visitar, Montevid\u00e9u possui a melhor rela\u00e7\u00e3o beleza\/quantidade de mulheres. A mais lindinha delas, uma moreninha de sorriso doce &#8211; e provavelmente a 1236\u00aa paix\u00e3o desses cinco dias &#8211; , encontrei no \u00f4nibus, a caminho do Est\u00e1dio Centen\u00e1rio. Aaaaaah, as uruguaias.<\/p>\n<p><u>El taxista del Futbol Uruguayo<\/u> &#8211; Montevid\u00e9u n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o pequeno quanto parece. A dist\u00e2ncia do pr\u00e9dio do Congresso at\u00e9 o Montevideo Shopping era impratic\u00e1vel a p\u00e9. Decidi tomar um t\u00e1xi, e o motorista logo sacou que eu n\u00e3o era dali. Ao saber que eu era de S\u00e3o Paulo, come\u00e7ou a falar em seus \u00eddolos que j\u00e1 passaram pelo Tricolor: Dario Pereyra, Pablo Forlan, Pedro Rocha&#8230; Aproveitou para tirar sarro: &#8220;voc\u00ea deve estar triste, o S\u00e3o Paulo perdeu para o Inter, hein?&#8221;. Na verdade, n\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/montevideucomida0402.jpg\" align=\"right\"><u>Camarero No Comprendo<\/u> &#8211; Decidi chutar o balde no primeiro fim de tarde em Montevid\u00e9u. Decidi almo\u00e7ar\/jantar no restaurante El Corral\u00f3n. At\u00e9 que n\u00e3o saiu t\u00e3o caro: pedi uma deliciosa carne invocada, com recheio de queijo e presunto, molho de queijo, batatinhas e salada. Foi um golpe de sorte: o prato se chamava algo como &#8220;carne presidente&#8221;, e por mais que eu me esfor\u00e7asse, n\u00e3o tinha como entender o que o gar\u00e7om explicava. Para sobremesa, ele recomendou uma &#8220;torta diamante&#8221; &#8211; tamb\u00e9m n\u00e3o saquei o que vinha, mas adorei quando chegou. Certamente foi o maior peda\u00e7o de torta que j\u00e1 comi em qualquer restaurante na vida.<\/p>\n<p><u>Fausto Libros<\/u> &#8211; J\u00e1 no centro comercial da cidade, decidi dar uma volta nos longos minutos antes da sess\u00e3o de Volver. Encrustada no cinema, havia uma livraria muito bacana. Pequena, aconchegante e repleta de t\u00edtulos interessant\u00edssimos. O atendente\/dono, muito bem apessoado, tratou de me deixar \u00e0 vontade: ofereceu um livro e uma cadeira para que eu pudesse experiment\u00e1-lo \u00e0 vontade. Aquilo fez com que eu comprasse uns dois, e arrumasse mais um para dar de presente. O embrulho do &#8220;regalo&#8221; foi feito pelo pr\u00f3prio Fausto: papel met\u00e1lico, sacolinha de papel, cart\u00e3o da loja com enfeite colado nele. O tom caseiro daquele cantinho culminou com o pagamento no cart\u00e3o: Fausto tirou de uma gaveta aqueles antigos formul\u00e1rios de papel carbono, al\u00e9m do dispositivo para compra mais antigo ainda. Sa\u00ed dali com vontade de ter uma livraria daquelas.<\/p>\n<p><u>Bendedor de rugbi<\/u> &#8211; Rodei por Montevid\u00e9u e encontrei apenas uma boa loja de artigos esportivos, na Avenida 18 de Julio. Curiosamente, a especialidade da casa eram produtos de r\u00fagbi, outro esporte muito conhecido especialmente por essas bandas platinas. Uniformes de sele\u00e7\u00f5es do mundo inteiro, bolas, apetrechos&#8230; A \u00fanica camisa de futebol que encontrei foi a do Pe\u00f1arol. &#8220;\u00c9 que essa loja \u00e9 a do fabricante dessas camisas de r\u00fagbi. Mas n\u00f3s uruguaios gostamos mesmo \u00e9 de futebol&#8221;, garantiu o vendedor, que sorriu ap\u00f3s me vender o uniforme All Blacks da Nova Zel\u00e2ndia &#8211; al\u00e9m da camisa do Pe\u00f1arol, claro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/montevideuparrilla0402.jpg\" align=\"right\"><u>Felip\u00f3n y sus compadres<\/u> &#8211; Este cidad\u00e3o, que cultiva um bigode a la Scolari, recebe o t\u00edtulo de melhor gar\u00e7om de todo o passeio. Seu restaurante, um dos mais humildes do Mercado del Puerto, era simples. Sentei diante do balc\u00e3o mesmo, e ele aparecia o tempo todo. Falava das suas carnes, indicava as melhores op\u00e7\u00f5es e, com o pedido fechado, botava tudo nas costas de um dos dois ajudantes &#8211; o tiozinho, que praticamente servia a todos, e o molec\u00e3o, quase que o tempo todo grudado na churrasqueira, cuidando daquela parrillada toda. A panqueca de manzana, massa fina com pedacinhos de ma\u00e7\u00e3 coberta com caramelo quente, d\u00e1 vontade de voltar amanh\u00e3 mesmo ao Uruguai.<\/p>\n<p><u>El Rodomo\u00e7o<\/u> &#8211; Os \u00faltimos personagens dessa pequena viagem de seis dias estiveram no \u00f4nibus TTL, entre Montevid\u00e9u e Pelotas. Tinha um uruguaio que ficou teimando a aus\u00eancia de um carimbo no meu passaporte (deve ter sido a piada n\u00e3o-contada do bob\u00e3o do Buquebus), al\u00e9m de uma velha muito chata num banco da frente. Mas o grande nome desse traslado \u00e9 Juarez. Este incans\u00e1vel jovem conferiu a passagem de todos, serviu uma bandeja de sandu\u00edches, quitutes e bebidas, ofereceu travesseiro e cobertores, fechou as cortinas, apagou as luzes e acionou o DVD Player. Tudo para que o fim dessa saudosa viagem fosse extremamente confort\u00e1vel.<\/p>\n<p><b>Em tempo<\/b>, aproveitei para acrescentar algumas fotos dessa brincadeira no <a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\" target=\"_blank\"><b>Fliquer<\/b><\/a>.<\/p>\n<p><b>Leia tamb\u00e9m:<br \/>\n<a href=\"\/blog\/2004\/11\/30\/1117\" target=\"_blank\">Perdidos na Europa: lista completa de coadjuvantes<\/a><br \/>\n<a href=\"\/blog\/2003\/02\/21\/372\" target=\"_blank\">Na Ilha da Magia: personagens que fizeram nossa hist\u00f3ria<\/a><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns dos nossos tr\u00eas ou quatro visitantes de sempre devem lembrar: em agosto passado, decidi aproveitar minhas f\u00e9rias para comemorar os noventa anos da minha v\u00f3 (que faleceu h\u00e1 um m\u00eas). 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