{"id":1391,"date":"2007-01-08T23:37:44","date_gmt":"2007-01-09T02:37:44","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/voce-seu-ze-ninguem"},"modified":"2007-01-08T23:37:44","modified_gmt":"2007-01-09T02:37:44","slug":"voce-seu-ze-ninguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/voce-seu-ze-ninguem\/","title":{"rendered":"Voc\u00ea, seu z\u00e9 ningu\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/denovo.gif\" align=\"right\">Antes de mais nada, vamos combinar uma coisa. J\u00e1 nos anos 60, muito antes desse gigantesco conglomerado de redes denominado Internet atingir uma escala mundial, o prop\u00f3sito inicial sempre foi trocar todo tipo de dados entre os seus usu\u00e1rios. Em resumo: conte\u00fado gerado por seus usu\u00e1rios. Ultimamente, a express\u00e3o &#8220;user-generated content&#8221; ganhou for\u00e7a, definindo tudo aquilo que n\u00e3o \u00e9 produzido pela m\u00eddia tradicional, definindo a democratiza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pois bem, qual a grande novidade do &#8220;user-generated content&#8221;, se tudo que voc\u00ea ou qualquer outro clicou hoje foi gerado por usu\u00e1rios? Mais do que isso: o que eram as antigas BBS, os chats e IRCs, as listas de e-mail, os finados newsgroups&#8230;<\/p>\n<p>Quest\u00f5es sem\u00e2nticas \u00e0 parte, o ano de 2006 viu uma extrema valoriza\u00e7\u00e3o desse produto feito por gente como a gente, gra\u00e7as ao boom da chamada Web 2.0, baseada justamente nesse princ\u00edpio b\u00e1sico e cujos carros-chefe s\u00e3o Flickr, YouTube, MySpace, Blogger, Wikipedia e, agora na crista da onda, o <a href=\"http:\/\/tecnologia.uol.com.br\/ultnot\/reuters\/2006\/12\/04\/ult3949u547.jhtm\" target=\"_blank\"><b>Second Life<\/b><\/a>.<\/p>\n<p>Todos est\u00e3o de olhos abertos nessa onda, e o impacto j\u00e1 foi sentido dentro e fora da rede. Nos EUA, o <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/informatica\/ult124u21299.shtml\" target=\"_blank\"><b>investimento em publicidade<\/b><\/a> tende a acompanhar a tend\u00eancia dos consumidores, que passam menos tempo diante da TV e cada vez mais no computador. A pr\u00f3pria MTV brasileira fez uma aposta arriscada ao <a href=\"http:\/\/televisao.uol.com.br\/ultnot\/2006\/12\/05\/ult698u11811.jhtm\" target=\"_blank\"><b>declarar a &#8220;morte do videoclipe&#8221;<\/b><\/a> na sua grade de programa\u00e7\u00e3o, pelo simples fato da rede atender perfeitamente a demanda.<\/p>\n<p>Dentro da rede, os blogs ocupam cada vez mais posi\u00e7\u00e3o de destaque: <a href=\"http:\/\/www.comunique-se.com.br\/index.asp?p=Conteudo\/NewsShow.asp&amp;p2=idnot%3D33529%26Editoria%3D8%26Op2%3D1%26Op3%3D0%26pid%3D8539608100%26fnt%3Dfntnl\" target=\"_blank\"><b>muitas empresas e ag\u00eancias de marketing<\/b><\/a> apostam na rela\u00e7\u00e3o direta entre autores e seus leitores para fortalecer suas marcas. Outras v\u00e3o al\u00e9m e contratam <a href=\"http:\/\/perolasais.blogspot.com\/2006\/11\/terceirizao-de-blogs.html\" target=\"_blank\"><b>blogueiros conhecidos<\/b><\/a> para tocar projetos de relacionamento &#8211; como \u00e9 o caso do <a href=\"http:\/\/www.mastercardpromocoes.com.br\/anonovo\/blog\" target=\"_blank\"><b>blog de uma promo\u00e7\u00e3o da Mastercard<\/b><\/a>. Mesmo os caras da <a href=\"http:\/\/br.groups.yahoo.com\/group\/blogosfera\" target=\"_blank\"><b>lista Blogosfera<\/b><\/a> passam longo tempo matutando formas de capitalizar essa onda.<\/p>\n<p>Enfim. Toda essa introdu\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria para chegar \u00e0 <a href=\"http:\/\/www.time.com\/time\/magazine\/article\/0,9171,1569514,00.html\" target=\"_blank\"><b>capa da Time<\/b><\/a> no final do ano passado: o crescimento do tal &#8220;user-generated content&#8221; fez com que a revista elegesse &#8220;voc\u00ea&#8221; (ou eu, sei l\u00e1) como a personalidade do ano. Gra\u00e7as a todo esse conte\u00fado relevante produzido por n\u00f3s, que est\u00e1 transformando a maneira do homem enxergar o mundo, al\u00e9m de criar novos e lucrativos modelos de neg\u00f3cio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/time0101.jpg\" align=\"right\">Mas&#8230; Ser\u00e1 mesmo que voc\u00ea merece esse pr\u00eamio? Ou eu? Ano passado, o <a href=\"http:\/\/www.rodrigoghedin.com.br\" target=\"_blank\"><b>Rodrigo Ghedin<\/b><\/a> fez um coment\u00e1rio bastante pertinente, referente aos livros <a href=\"\/blog\/2006\/09\/15\/1648\" target=\"_blank\"><b>&#8220;Conquiste a Rede&#8221;<\/b><\/a>, iniciativa feita justamente para incentivar o &#8220;fa\u00e7a a imprensa com as suas pr\u00f3prias m\u00e3os&#8221;:<\/p>\n<p><i>N\u00e3o quero parecer pessimista, nem agourar o ideal de que todos colaborem positivamente para uma Internet melhor, mas acho que esse modelo onde todos criam e todos consomem n\u00e3o funciona. Posso at\u00e9 ser tachado de elitista, ou qualquer adjetivo semelhante, mas a verdade \u00e9 que h\u00e1 tr\u00eas tipos de pessoas no mundo: as que criam, as que criam e consomem, e as que pura e simplesmente consomem. N\u00e3o por acaso, o \u00faltimo tipo \u00e9 o mais comum (e o que deveria ficar de fora da inclus\u00e3o digital ut\u00f3pica).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 discrimina\u00e7\u00e3o, \u00e9 constata\u00e7\u00e3o. H\u00e1 pessoas que definitivamente n\u00e3o sabem transmitir id\u00e9ias via escrita. E isso n\u00e3o \u00e9 pecado, ou motivo para vergonha; \u00e9 apenas uma caracter\u00edstica. Do outro lado da moeda, existem pessoas que transmitem id\u00e9ias muito bem, mas s\u00e3o p\u00e9ssimas na cozinha, ou n\u00e3o entendem bolhufas de mec\u00e2nica automotiva. Como diria algu\u00e9m, cada macaco no seu galho.<\/i><\/p>\n<p>Na mesma linha, uma cr\u00f4nica publicada pelo jornalista Tutty Vasques em 23 de dezembro amplifica esta reflex\u00e3o. Afinal, quem \u00e9 &#8220;voc\u00ea&#8221;, exatamente?<\/p>\n<p><i>A revista \u201cTime\u201d \u2013 uma esp\u00e9cie de \u201cVeja\u201d americana \u2013 elegeu \u201cvoc\u00ea\u201d a Personalidade do Ano. Isso quer dizer o seguinte: o cara de 2006 foi qualquer um, todo mundo, ou seja, ningu\u00e9m. Esse papo de enaltecer nossa participa\u00e7\u00e3o na revolu\u00e7\u00e3o da nova web, de valorizar o explosivo crescimento do conte\u00fado participativo via blogs, YouTube, Wikipedia e o reino da m\u00eddia global, essa conversa fiada sobre a conversa fiada eletr\u00f4nica, francamente, est\u00e3o querendo te fazer de bobo, amigo internauta. Democracia digital \u00e9 o escambau. A verdade \u00e9 a seguinte: escolheram voc\u00ea para personalidade de um ano de merda.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea\u201d, \u00e9 bom lembrar, concorreu com o presidente do Ir\u00e3, Mahmoud Ahmadinejad, o da China, Hu Jintao, o da Venezuela, Hugo Ch\u00e1vez, e o l\u00edder da Cor\u00e9ia do Norte, Kim Jong-il, enfim, uma turma que falou mais do que produziu not\u00edcias. N\u00e3o s\u00e3o &#8220;gente que faz&#8221; como Adolf Hitler, em 1938, e o aiatol\u00e1 Khomeini, em 1979, para citar dois dos cretinos de marca maior que j\u00e1 participaram da competi\u00e7\u00e3o. George W. Bush \u00e9 bicampe\u00e3o nesse tro\u00e7o.<\/p>\n<p>Mas nem sempre, no final, o mal vence. Albert Einstein levou o t\u00edtulo de Personalidade do S\u00e9culo 20. Ano passado, deu empate entre Bono Vox e Bill Gattes, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se trata, necessariamente, de uma competi\u00e7\u00e3o entre os maiores chatos do mundo. Se fosse esporte nacional aqui no Brasil era capaz de em 2006 ganhar o Lula, o Gabeira, o Rog\u00e9rio Ceni ou o Maluf. O tro\u00e7o n\u00e3o tem mesmo nenhuma l\u00f3gica, a n\u00e3o ser escolher algu\u00e9m em evid\u00eancia no notici\u00e1rio para vender revista, muita revista. Responda r\u00e1pido: o que rende maior tiragem, uma capa com Hu Jintao ou essa que chegou \u00e0s bancas com espelho e tudo na ilustra\u00e7\u00e3o para refletir \u201cvoc\u00ea\u201d no lugar da Personalidade do Ano?<\/p>\n<p>N\u00e3o vejo nada de errado na estrat\u00e9gia da \u201cTime\u201d, eu mesmo j\u00e1 inventei coisas piores para garantir meu emprego. O que me preocupa \u2013 e muito &#8211; \u00e9 o discurso sobre o qual tal estrat\u00e9gia de marketing est\u00e1 montada. Essa hist\u00f3ria de dizer que o leitor venceu o jornalismo e assumiu o comando dos meios de comunica\u00e7\u00e3o modernos \u2013 \u201cVoc\u00ea, e n\u00e3o n\u00f3s, est\u00e1 transformando a era da informa\u00e7\u00e3o\u201d, afirma o editor da \u201cTime\u201d \u2013, essa id\u00e9ia de dar voz a quem n\u00e3o tem o que dizer, de entregar as ferramentas de produ\u00e7\u00e3o a quem n\u00e3o sabe fazer, d\u00e1 nisso: ningu\u00e9m fez nada que mere\u00e7a destaque em 2006. Destaca-se, ent\u00e3o, a possibilidade de fazer. Vamos l\u00e1, qualquer est\u00fapido \u00e9 capaz.<\/p>\n<p>Acho \u00f3timo que todo mundo possa dizer o que pensa em rede planet\u00e1ria, danem-se as normas gramaticais e os bons costumes, mas da\u00ed a exaltar a banaliza\u00e7\u00e3o do racioc\u00ednio como sintoma benigno da inclus\u00e3o digital, oxente, acho que o leitor tem raz\u00e3o: estou ficando velho mesmo. Mas n\u00e3o do g\u00eanero que vai ficar brigando com o estado de coisas a que chegamos. Parab\u00e9ns pra \u201cvoc\u00ea\u201d, personalidade do ano! Uhuuuuu!<\/i><\/p>\n<p>De qualquer forma, tomara que voc\u00ea fature o bicampeonato em 2007. Se isso acontecer, provavelmente alguns tost\u00f5es respingar\u00e3o em mim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de mais nada, vamos combinar uma coisa. J\u00e1 nos anos 60, muito antes desse gigantesco conglomerado de redes denominado Internet atingir uma escala mundial, o prop\u00f3sito inicial sempre foi trocar todo tipo de dados entre os seus usu\u00e1rios. Em resumo: conte\u00fado gerado por seus usu\u00e1rios. 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