{"id":1383,"date":"2006-12-22T13:08:48","date_gmt":"2006-12-22T16:08:48","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/aos-amigos-e-amigas-feliz-natal"},"modified":"2006-12-22T13:08:48","modified_gmt":"2006-12-22T16:08:48","slug":"aos-amigos-e-amigas-feliz-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/aos-amigos-e-amigas-feliz-natal\/","title":{"rendered":"Aos amigos e amigas, feliz Natal"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\">Normalmente sou uma das primeiras pessoas a valorizar as maravilhas da tecnologia. Mas antes disso, fa\u00e7o quest\u00e3o de defender a boa e velha sabedoria popular, transmitida de av\u00f4 para neto. Coisas como &#8220;o mundo d\u00e1 voltas, e o tempo \u00e9 s\u00e1bio&#8221;, &#8220;onde deus fecha uma porta, ele abre uma janela&#8221;, &#8220;antes s\u00f3 do que mal acompanhado&#8221;&#8230; E a mais curiosa entre todas que j\u00e1 ouvi: &#8220;amigos s\u00e3o seus dentes, e ainda assim mordem sua l\u00edngua&#8221;.<\/p>\n<p>Sempre que lembro dessa \u00faltima, a imagem de Dafne vem \u00e0 cabe\u00e7a. H\u00e1 pouco mais de cinco anos, ela apareceu no meu ICQ &#8211; para quem n\u00e3o se lembra desses tempos rom\u00e2nticos e ainda n\u00e3o consegue entender como tanta gente trocou essa maravilha pelo MSN, era muito comum ser abordado do nada por pessoas que descubriam seu UIN sem querer, a partir da eficiente busca do programinha. N\u00e3o fa\u00e7o id\u00e9ia de qual tenha sido a desculpa usada por ela. Mas lembro perfeitamente que, durante aquela semana, a Dafne aparecia sistematicamente para longas horas trocando bobagens despretensiosas comigo.<\/p>\n<p>Mais alguns dias para finalmente lhe dar o n\u00famero do meu celular &#8211; afinal de contas, ela me achava um cara divertido, e do outro lado da linha, ela tamb\u00e9m n\u00e3o parecia ser m\u00e1. No fim da noite, o telefonema dela. E foi a mesma descontra\u00e7\u00e3o do comunicador instant\u00e2neo. O bate-papo come\u00e7ou delicioso, mas assim que contei uma r\u00e1pida passagem da minha vida, o tom mudou rapidamente. Eu disse algo como &#8220;as pessoas dizem que sou um sujeito engra\u00e7ado desde os meus tempos de estagi\u00e1rio no laborat\u00f3rio de metrologia el\u00e9trica l\u00e1 na Cidade Universit\u00e1ria&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ei, voc\u00ea trabalhou l\u00e1? Ah, ent\u00e3o voc\u00ea deve ter conhecido a Carina Barcelos&#8221;, comentou Dafne.<\/p>\n<p>Fiquei alguns segundos quieto, antes de murmurar um &#8220;quem?&#8221;. &#8220;Carina. \u00c9 o nome dela, ela trabalhou l\u00e1, \u00e9 a minha melhor amiga&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o essa mo\u00e7a que entrou no meu ICQ do nada, me chamou de &#8220;cara divertido&#8221;, que estava adorando a conversa e que parecia t\u00e3o legal&#8230; De repente essa mo\u00e7a tira da boca o nome e o sobrenome da minha ex-namorada sem que eu tenha feito nada pra ela? E ainda por cima era a melhor amiga dela!!!<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea disse Carina?&#8221;, continuei murmurando, antes de lhe dizer o que diabos ela representou num passado n\u00e3o muito distante. Ela ficou chocada. N\u00e3o tanto quanto eu, avisei. Mas \u00e9 claro&#8230; A Carina sempre falava em uma certa Dafi. Era a Dafi que tinha sa\u00eddo com n\u00e3o sei quem, que tinha viajado pra Peru\u00edbe n\u00e3o sei quando&#8230; Dafi&#8230; Dafne&#8230; Ent\u00e3o tudo se encaixa!<\/p>\n<p>&#8220;Meu Deus do c\u00e9u&#8230; Eu n\u00e3o acredito que \u00e9 voc\u00ea, esse tempo todo. Porque a Carina dizia horrores a seu respeito&#8221;, lembrou.<\/p>\n<p>Era o momento da pobre Dafne, que nada tinha a ver com o meu relacionamento, descobrir o princ\u00edpio b\u00e1sico do jornalismo e ouvir o outro lado da hist\u00f3ria. Tinha claramente em minha mem\u00f3ria todas as situa\u00e7\u00f5es descritas pela Dafne, desde aquela vez em que levei a Carina para assistir Cidade dos Anjos e n\u00e3o chorei ao seu lado, at\u00e9 o dia que eu tirei a caneta do bolso para corrigir um cart\u00e3o presenteado por ela. &#8220;Mas Dafne, na \u00e9poca, eu tinha absoluta certeza de que n\u00e3o podia deixar passar algu\u00e9m escrever sossego com C. Hoje eu aprendi a li\u00e7\u00e3o, mas na \u00e9poca foi uma burrada monstruosa&#8221;, lembrei.<\/p>\n<p>Naquela altura, n\u00e3o fazia id\u00e9ia do que passava pela cabe\u00e7a dela. Afinal de contas, at\u00e9 aquele instante, tudo que Dafne fez na vida foi ter apoiado e agido fielmente a sua grande aliada. Ter dito &#8220;aquela palavrinha amiga&#8221; que a Carina tanto precisava ouvir, ainda que eu jamais soubesse disso. Claro que n\u00e3 gostaria de saber, mas nem precisei perguntar pelos detalhes s\u00f3rdidos: ela sintetizou toda aquela noite maluca num di\u00e1logo que me faz pensar at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>&#8220;Nossa, cara, voc\u00ea n\u00e3o faz id\u00e9ia de como eu xinguei voc\u00ea ao lado da Carina. Chamei voc\u00ea de tudo quanto \u00e9 nome. E na semana que voc\u00eas terminaram, eu segurei nas m\u00e3os dela e disse: olha, seus olhos est\u00e3o me dizendo tudo, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 feliz ao lado desse in\u00fatil. Portanto livre-se desse traste, antes que ele acabe com a sua vida. Eu disse isso, meu. E agora que eu conheci voc\u00ea, que ouvi voc\u00ea, e vi quem voc\u00ea \u00e9, sem querer&#8230; Puxa, se eu soubesse antes, eu jamais, jamais diria uma coisa dessas. Nunca que eu gostaria de ver uma amiga separada de algu\u00e9m como voc\u00ea&#8221;.<\/p>\n<p>Agradeci as palavras gentis, claro. Mas no fundo, eu estava era com muita raiva. Ora, a decis\u00e3o de seguir em frente ou n\u00e3o era da Carina. Ela n\u00e3o tinha nada que se meter na vida dela e, de quebra (mas muito indiretamente, admito), estragar a minha.<\/p>\n<p>Mas enfim, mesmo numa situa\u00e7\u00e3o dessas, nunca esbocei qualquer sentimento negativo em rela\u00e7\u00e3o a Dafne. Tanto que, naquele mesmo ano, marcamos um agrad\u00e1vel encontrinho na Prainha Paulista, pouco antes do final de ano. Na semana do Natal, a Dafne mandou um e-mail bastante extenso, praticamente resumindo aqueles \u00faltimos meses de intensa reflex\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>&#8220;Ai meu, voc\u00ea sabe como sou sincera contigo, entao preciso te falar uma coisa que esta me perturbando, mesmo sabendo que voc\u00ea poder\u00e1 me odiar depois.<\/p>\n<p>No come\u00e7o, tenho que te confessar, fiquei muito interessada em voc\u00ea&#8230; Por v\u00e1rios motivos, mas o principal \u00e9 porque voc\u00ea \u00e9 um cara de muito bom senso, al\u00e9m de ser inteligente, com personalidade&#8230; Isso me atraiu muito! Voc\u00ea \u00e9 um homem maravilhoso, com tantas qualidades, e com t\u00e3o poucos defeitos, que poxa vida, era de se esperar que, ao contr\u00e1rio do que voc\u00ea diz, milhares de mulheres ca\u00edssem aos seus p\u00e9s!<\/p>\n<p>Mas conforme foi passando o tempo, vi que somos muito diferentes. E que, ainda por cima, voc\u00ea conhecia a Ca! E eu amo muito essa guria, e fiquei feliz em saber que voc\u00ea tinha feito parte da vida dela, porque voc\u00ea \u00e9 um cara muito legal!<\/p>\n<p>E o nosso encontro essis dias&#8230; Estava pensando em como foi, e fiquei boba em ver como me senti feliz em realmente conhecer o cara que me escuta e me aconselha todos os dias. Fiquei feliz de verdade em ver que voc\u00ea n\u00e3o era aquele homem idiota da outra mesa, que me abordou quando cheguei, antes mesmo de voc\u00ea aparecer&#8230; E vi que voc\u00ea \u00e9 alegre, simp\u00e1tico, espont\u00e2neo&#8230;<\/p>\n<p>Mas depois que nos encontramos, voc\u00ea me pareceu meio distante, como se n\u00e3o tivesse gostado de mim&#8230; Sei l\u00e1, estranho isso, porque sempre te tratei igual, um amigo de verdade. Ent\u00e3o eu lembrei da sua hist\u00f3ria com a Ca. E voc\u00ea sabe que voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam nenhuma chance. Pelo menos enquanto ela estiver com o namorado dela. Eu n\u00e3o o conhe\u00e7o bem, mas acho que ele a faz de gato e sapato. Ela n\u00e3o merece, mas ela gosta dele&#8230; Bom, pelo que ela me fala, eu prefiro voc\u00ea. Hehehe!<\/p>\n<p>De qualquer forma, ela sabe que voc\u00ea \u00e9 um cara legal. Ela tem saudades de algumas coisas, mas sei l\u00e1&#8230; Ela fala de voc\u00ea como um grande amigo, o que eu acho muito legal! Poxa, ela te considera um monte, e ela tem toda raz\u00e3o!<\/p>\n<p>Enfim, eu tamb\u00e9m descobri que adorava voc\u00ea como amigo, do tipo que me ajuda de verdade, que me escuta&#8230; Esperava isso de voc\u00ea, mesmo sabendo que talvez n\u00e3o fosse conseguir, at\u00e9 porque continuei amando falar contigo!<\/p>\n<p>Bom, chegou a parte que voc\u00ea vai odiar. Fiquei triste em n\u00e3o conseguir falar contigo esses dias. Sei perfeitamente que voc\u00ea est\u00e1 com milhares de coisas para fazer e que est\u00e1 complicad\u00edssimo conversar&#8230; Mas, sei l\u00e1&#8230; Estou com uma puta saudade de conversar contigo!<\/p>\n<p>Ai ai ai&#8230; Como sou boba, n\u00e9? Mas olha, sobre a Ca, toma cuidado, vai&#8230; N\u00e3o quero ver voc\u00ea sofrendo de amor plat\u00f4nico! Tem muuuita gente bacana por ai, \u00e9 s\u00f3 ficar de olho! E n\u00e3o deixe de ser quem voc\u00ea \u00e9, s\u00f3 para agradar algu\u00e9m. Talvez voc\u00ea s\u00f3 esteja procurando algu\u00e9m no lugar errado&#8230;<\/p>\n<p>Acho  que \u00e9 isso. Bom Natal, feliz 2002 e um beijo carinhoso da sua amiga Dafne&#8221;.<\/p>\n<p>Enfim, hoje as duas amigas est\u00e3o muito felizes, ao lado de seus maridos. Tenho guardado por aqui a foto do filhinho rechonchudinho da Dafne, que ela fez quest\u00e3o de mandar logo quando ele nasceu. \u00c9 bem prov\u00e1vel que a amizade das duas seja mais ou menos como a que eu enxergo: nossas vidas tomaram rumos bem diferentes, mas a lembran\u00e7a fica para sempre.<\/p>\n<p>Al\u00e9m, \u00e9 claro, de uma grande li\u00e7\u00e3o de vida: salvo em risco de morte ou de maior gravidade, quem gosta de verdade n\u00e3o se mete na vida alheia. Essa eu j\u00e1 aprendi. S\u00f3 falta agora parar de procurar no lugar errado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Normalmente sou uma das primeiras pessoas a valorizar as maravilhas da tecnologia. Mas antes disso, fa\u00e7o quest\u00e3o de defender a boa e velha sabedoria popular, transmitida de av\u00f4 para neto. 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