{"id":1369,"date":"2006-10-13T23:07:44","date_gmt":"2006-10-14T02:07:44","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/o-jogo-da-semantica"},"modified":"2006-10-13T23:07:44","modified_gmt":"2006-10-14T02:07:44","slug":"o-jogo-da-semantica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/o-jogo-da-semantica\/","title":{"rendered":"O jogo da sem\u00e2ntica"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/plantao.jpg\" align=\"right\">Um dos meus of\u00edcios \u00e9 justamente zelar pelo nosso idioma enquanto transmitimos, da maneira mais clara e objetiva poss\u00edvel, aquilo que a sociedade (ou algu\u00e9m com cacife) define como not\u00edcia. Neste blog, no entanto, n\u00e3o dou a menor pelota para esse cuidado. N\u00e3o se trata de uma falha grotesca como escrever &#8220;axim&#8221;, ou mesmo aquela pequerrucha de sempre, como a maldita v\u00edrgula entre o sujeito e o predicado&#8230; Uma passada de olhos nos meus arquivos, no entanto, me causam algum espanto: sempre encontro algum errinho ortogr\u00e1fico ou gramatical perdido.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 tive uma namorada que ficou extremamente magoada comigo pelo simples fato de corrigir, na frente dela, um cart\u00e3o rom\u00e2ntico entregue naquele instante. Na \u00e9poca, pensava que &#8220;n\u00e3o podia deixar passar algu\u00e9m escrever sossego com C&#8221;. Desde que a perdi, nunca mais corrigi ningu\u00e9m fora do c\u00edrculo profissional.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, tamb\u00e9m n\u00e3o me importo com quem me corrija. Vez ou outra, eu ainda posso contar com uma entidade an\u00f4nima, sem fins lucrativos, que indica minhas pisadas na jaca. Mensagens an\u00f4nimas chegam \u00e0 minha caixa postal assinadas apenas como RESB, que presumo ser revisor(a,s) especial(is) secreto(a,s) do blog. RESB \u00e9 uma boa sigla, melhor que RESMMM, que apesar de focar ainda mais o objetivo, fica parecendo um ru\u00eddo amorda\u00e7ado. E eu adoro a RESB.<\/p>\n<p>Mas enfim. Um dos meus pecados favoritos \u00e9 o maldito acento grave. A regrinha boba da crase \u00e9 bem simples, mas as exce\u00e7\u00f5es me deixam pirado. Talvez eu fosse um dos muitos ignorantes do pa\u00eds que votariam no &#8220;sim&#8221; sem pensar muito caso o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o lan\u00e7asse um referendo ao estilo &#8220;voc\u00ea \u00e9 a favor do fim da crase?&#8221;. Mas talvez eu pensasse melhor e me filiasse ao &#8220;partido&#8221; do escritor Ferreira Gullar, autor da c\u00e9lebre frase: &#8220;a crase n\u00e3o foi feita para humilhar ningu\u00e9m&#8221;.<\/p>\n<p>O mesmo Ferreira Gullar escreveu sobre na Folha de S. Paulo h\u00e1 um ano. Duas vezes. Na primeira, criou um mal entendido e recebeu muitas cr\u00edticas, ao fazer sua defesa (correta) sobre o bom uso da gram\u00e1tica em detrimento ao vale-tudo-desde-que-se-entenda. Na segunda, fez quest\u00e3o de responder aos cr\u00edticos, ressaltando seu ponto de vista &#8211; que \u00e9 bem parecido com o meu. Temos problemas estruturais de educa\u00e7\u00e3o, e \u00e9 preciso manter o bom senso, sem neuroses. Mas para resolv\u00ea-los, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 usar os livros, e n\u00e3o rasg\u00e1-los.<\/p>\n<p><i>Gostaria de esclarecer ao leitor que, quando aqui publiquei a cr\u00f4nica &#8220;Algu\u00e9m fala errado?&#8221;, n\u00e3o pretendi me arvorar em defensor radical do purismo ling\u00fc\u00edstico, que n\u00e3o sou, primeiro porque, em mat\u00e9ria liter\u00e1ria, estou mais para os poemas sujos do que para os limpos e, depois, por n\u00e3o ter mesmo compet\u00eancia para isso. Respeito os fil\u00f3logos, os ling\u00fcistas e os gram\u00e1ticos; embora nem sempre concorde com eles, estou convencido do papel importante que desempenham no conhecimento e preserva\u00e7\u00e3o de valores fundamentais de nosso universo cultural, de que a l\u00edngua \u00e9 uma das vigas mestras.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m falo errado, tamb\u00e9m escrevo errado, mas fiquem certos de que fa\u00e7o um grande esfor\u00e7o para, sem arrog\u00e2ncia, falar e escrever o menos errado poss\u00edvel. Incomoda-me, por isso mesmo, o desmazelo no uso da nossa l\u00edngua como tamb\u00e9m a complac\u00eancia com esses erros. Decididamente, n\u00e3o aceito que se d\u00ea como certo escrever nos jornais e falar na televis\u00e3o coisas como &#8220;as milh\u00f5es de pessoas&#8221; ou &#8220;um dos que fez&#8221;. Causa-me certo mal-estar o uso pedante de express\u00f5es como &#8220;isso n\u00e3o significa dizer&#8221;, quando todos falamos em nossas conversas e a cada momento &#8220;isso n\u00e3o quer dizer&#8221;. Sei que o mundo n\u00e3o vai acabar se muita gente teimar em cometer tais atentados \u00e0 boa maneira de usar o idioma, mas tenho tamb\u00e9m o direito de manifestar meu desagrado. Se criticamos os erros dos governantes, dos deputados, dos ju\u00edzes de futebol, que desrespeitam a \u00e9tica, por que n\u00e3o podemos criticar os erros -ainda que muit\u00edssimo menos graves- de escritores, locutores, jornalistas, advogados, economistas, que desrespeitam a gram\u00e1tica?<\/p>\n<p>Tampouco me tenho como um feroz inimigo do uso de palavras e express\u00f5es estrangeiras, quando impostas por necessidades da pr\u00f3pria vida, em raz\u00e3o do surgimento de novas tecnologias ou novos h\u00e1bitos. E tamb\u00e9m sei que certas express\u00f5es, depois de nos irritarem por algum tempo, desaparecem t\u00e3o de repente quanto apareceram. Lembram-se da express\u00e3o &#8220;a n\u00edvel de&#8221;? N\u00e3o sei por que cargas d&#8217;\u00e1gua se come\u00e7ou a usar essa express\u00e3o espanhola para tudo e da maneira mais arbitr\u00e1ria, como, por exemplo, &#8220;a n\u00edvel de carros de corrida&#8221; ou &#8220;a n\u00edvel de polui\u00e7\u00e3o&#8221; ou, num programa de culin\u00e1ria na televis\u00e3o, &#8220;a n\u00edvel de carne-seca com ab\u00f3bora, o melhor tempero \u00e9&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Devo admitir que os ling\u00fcistas t\u00eam raz\u00e3o quando adotam uma vis\u00e3o aberta com respeito \u00e0s normas ling\u00fc\u00edsticas e gramaticais, compreendendo que o idioma \u00e9 um organismo vivo, em permanente muta\u00e7\u00e3o. Pode ser que ainda reste em mim um pouco da convic\u00e7\u00e3o do menino que, por ter tirado 9,5 e n\u00e3o 10, na reda\u00e7\u00e3o sobre o Dia do Trabalho, devido a dois erros de portugu\u00eas na disserta\u00e7\u00e3o, decidiu estudar gram\u00e1tica dia e noite, j\u00e1 que sonhava ser escritor e escritor n\u00e3o pode escrever errado&#8230; Nisso consumi uns dois anos, sem ler outra coisa. Muito aprendi na &#8220;Gram\u00e1tica Expositiva&#8221;, de Eduardo Carlos Pereira, na &#8220;Gram\u00e1tica da L\u00edngua Portuguesa&#8221;, de Carlos G\u00f3is, e em &#8220;Atrav\u00e9s do Dicion\u00e1rio e da Gram\u00e1tica&#8221;, de M\u00e1rio Barreto&#8230; J\u00e1 n\u00e3o me lembro de nada do que li porque, como j\u00e1 disse aqui, uma de minhas caracter\u00edsticas \u00e9 esquecer quase tudo o que leio, pois, ao que parece, certas coisas n\u00e3o me ficam na mente, mas talvez disseminadas na pele ou nos cabelos.<\/p>\n<p>Estou convencido de que a gente inventa a fala a cada momento, a cada pergunta que nos fazem ou id\u00e9ia que queremos comunicar. Algumas express\u00f5es est\u00e3o prontas, s\u00e3o lugares-comuns, mas \u00e9 fato tamb\u00e9m que optamos em us\u00e1-las ou n\u00e3o no momento mesmo de falar. Em sua maioria, as frases que emitimos as inventamos na hora. Se algu\u00e9m me pergunta se quero ir ao cinema e a resposta \u00e9 negativa, tanto poderei dizer &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o vou&#8221;, ou &#8220;N\u00e3o quero&#8221; ou &#8220;Hoje n\u00e3o d\u00e1&#8221; ou&#8230; Agora mesmo, ao escrever esta cr\u00f4nica, n\u00e3o sabia de antem\u00e3o que forma tomaria esta frase que escrevo -ou invento- neste instante mesmo. De fato, escrever, falar \u00e9 improviso.<\/p>\n<p>A referida cr\u00f4nica aqui publicada foi mais um desabafo, sem a pretens\u00e3o de ensinar o bom portugu\u00eas a ningu\u00e9m, muito menos aos estudiosos da l\u00edngua. A mim tamb\u00e9m desagrada o excesso de imposi\u00e7\u00e3o, de regras, e mais ainda a pretens\u00e3o dos que se consideram mestres da l\u00edngua. N\u00e3o por acaso, sou o autor daquele aforismo que diz &#8220;a crase n\u00e3o foi feita para humilhar ningu\u00e9m&#8221; e daquele outro -que vale aqui como autocr\u00edtica-, &#8220;quem tem frase de vidro n\u00e3o joga crase na frase do vizinho&#8221;.<\/p>\n<p>Tampouco desejo para mim o papel dos que acham que nada h\u00e1 de novo sob o sol e que tudo o que foge a seu conhecimento n\u00e3o \u00e9 mais que ilus\u00f3ria novidade. N\u00e3o, n\u00e3o sou como o dr. Fontes, escritor da Prov\u00edncia, advogado e poeta parnasiano, que, ap\u00f3s ouvir a confer\u00eancia de um intelectual do Rio sobre a sem\u00e2ntica como instrumento de cr\u00edtica liter\u00e1ria -e sem entender patavina do assunto-, pediu a palavra e falou: &#8220;Que me desculpe o ilustre professor, mas o que acaba de nos dizer n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade. Como j\u00e1 dizia Olavo Bilac, &#8220;pois s\u00f3 quem ama pode ter ouvido&#8230;'&#8221;. E come\u00e7ou ondular os bra\u00e7os no ar. &#8220;Olha o jogo da sem\u00e2ntica!&#8230; &#8220;capaz de ouvir e de entender estrelas&#8221;&#8230;&#8221; Olha o jogo da sem\u00e2ntica!<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos meus of\u00edcios \u00e9 justamente zelar pelo nosso idioma enquanto transmitimos, da maneira mais clara e objetiva poss\u00edvel, aquilo que a sociedade (ou algu\u00e9m com cacife) define como not\u00edcia. Neste blog, no entanto, n\u00e3o dou a menor pelota para esse cuidado. 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