{"id":136,"date":"2008-02-27T23:54:16","date_gmt":"2008-02-28T02:54:16","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/estacione-na-vila-olimpia-se-puder"},"modified":"2008-02-27T23:54:16","modified_gmt":"2008-02-28T02:54:16","slug":"estacione-na-vila-olimpia-se-puder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/estacione-na-vila-olimpia-se-puder\/","title":{"rendered":"Estacione na Vila Ol\u00edmpia, se puder"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Estou prestes a completar quatro meses de trabalho na regi\u00e3o que, na primeira metade do s\u00e9culo passado, mantinha caracter\u00edsticas semelhantes a outras regi\u00f5es mais distantes do centro: repleta de ch\u00e1caras e terrenos alagadi\u00e7os. Na metade seguinte, essa \u00e1rea foi rodeada por quatro avenidas largas e movimentadas: a Marginal Pinheiros, a Avenida dos Bandeirantes, a Avenida Santo Amaro e a Avenida Juscelino Kubitchek.<\/p>\n<p>Nos anos 90, o prefeito Paulo Maluf come\u00e7ou a revolucionar a regi\u00e3o outrora calma e silenciosa. Fez o alargamento dos rios Uberaba e Uberabinha, acabando com as enchentes;prolongou a Faria Lima e a H\u00e9lio Pelegrino, cruzando a Juscelino e todo o bairro at\u00e9 Moema. Novos bares, casas de shows e pr\u00e9dios comerciais transformaram completamente o ambiente, proporcionando a circula\u00e7\u00e3o de umas 120 mil pessoas.<\/p>\n<p>N\u00e3o fosse esse crescimento exagerado, jamais poderia entregar o t\u00edtulo de &#8220;bairro mais insuport\u00e1vel de S\u00e3o Paulo&#8221; \u00e0 Vila Ol\u00edmpia. Pe\u00e7o desculpas aos moradores antigos, mas n\u00e3o \u00e9 nem um pouco saud\u00e1vel circular pelas ruas estreitas durante qualquer hora comercial. Mo\u00e7as elegantemente vestidas circulam por cal\u00e7adas esburacadas, driblando seus saltos das obras na rua Olimp\u00edadas, Fid\u00eancio Ramos e Gomes de Carvalho. Durante a hora do almo\u00e7o, hordas de executivos e funcion\u00e1rios abarrotam os arredores da Ramos Batista, atr\u00e1s de restaurantes que s\u00f3 funcionam entre 11 e 15h.<\/p>\n<p>Bem que a prefeitura poderia transformar todas elas em extensos boulevares, cal\u00e7ad\u00f5es capazes de contrastar com os edif\u00edcios inteligentes e real\u00e7ar o ritmo fren\u00e9tico de seus visitantes espor\u00e1dicos. Seria lindo sair do escrit\u00f3rio e curtir uma &#8220;happy hour&#8221; diante da potencial oferta de mesas numa \u00e1rea dessas. Faria quest\u00e3o de chegar \u00e0 p\u00e9 sim, seja de \u00f4nibus, de trem (vindo de Osasco, beirando o rio Pinheiros) ou de metr\u00f4, por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>Hoje caminhar pelo bairro j\u00e1 \u00e9 uma tortura. Chegar com o carro \u00e9 ainda pior. Imagine que as quatro grandes vias representam tubula\u00e7\u00f5es de alta press\u00e3o, e as ruas mais estreitas do bairro s\u00e3o vasos capilares entupidos de gente e linhas de \u00f4nibus articulados&#8230; A tend\u00eancia \u00e9 a de suic\u00eddio coletivo quando ficarem prontos o shopping center do bairro e a liga\u00e7\u00e3o da Faria Lima com a Berrini via Elvira Ferraz, Ol\u00edmpiadas e Gomes de Carvalho. Mais gente, o horror.<\/p>\n<p>Enfim, lembro do meu primeiro dia de trabalho. Decidi parar o carro num estacionamento da Juscelino e caminhar algumas quadras at\u00e9 o escrit\u00f3rio. Mal entrei e esbocei sair do carro para ser abordado:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 mensal?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, mas posso vir a ser&#8230;<br \/>\n&#8211; Ah, n\u00e3o tem vaga, n\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Tudo bem, ent\u00e3o eu pago o estacionamento avulso&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o! Eu disse que n\u00e3o tem vaga nenhuma, s\u00f3 mensal. V\u00e1 embora.<br \/>\n&#8211; Agora mesmo&#8230; E se serve de sugest\u00e3o, tire aquela placa de &#8220;estacione aqui&#8221;, j\u00e1 que ela n\u00e3o funciona&#8230;<\/p>\n<p>Foram longas semanas em busca de um estacionamento capaz de suprir minhas necessidades. Nos primeiros dias, continuava sem encontrar um \u00fanico paradouro com vagas abertas. Logo encontrei um maior, na rua Funchal. Escolha perfeita, n\u00e3o fosse o hor\u00e1rio de fechamento: oito da noite. &#8220;\u00c9 que todo mundo vai embora cedo&#8221;, avisou.<\/p>\n<p>Finalmente, depois de longa peregrina\u00e7\u00e3o, encontrei um estacionamento 24 horas, com vagas e a pre\u00e7o justo. Mas ficava na Avenida Vicente Pinzon, o que corresponde \u00e0 &#8220;periferia mal-encarada&#8221; da Vila Ol\u00edmpia. Levava dez minutos de caminhada entre o lugar e o meu pr\u00e9dio &#8211; inclusive \u00e0 noite, quando o peda\u00e7o se transformava em uma perfeita bocada. O arrependimento veio logo no primeiro dia, quando entreguei meu comprovante.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o vinte reais, senhor.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, eu sou mensalista, inclusive j\u00e1 fiz o pagamento, veja.<br \/>\n&#8211; In, rapaz! Esse papel a\u00ed \u00e9 s\u00f3 pra quem paga avulso&#8230;<br \/>\n&#8211; Ah \u00e9? Eu pensava que fosse como qualquer lugar, onde voc\u00ea recebe um comprovante de que seu carro est\u00e1 aqui&#8230;<br \/>\n&#8211; Nada disso, seu comprovante \u00e9 esse recibo do pagamento mensal&#8230;<\/p>\n<p>Mas que v\u00e1rzea! Ent\u00e3o eu s\u00f3 precisava deixar o carro ali nas m\u00e3os daqueles cururus e, quando reaparecesse, bastava dar um al\u00f4 ao baiaba da noite e sair &#8211; fiquei com a n\u00edtida impress\u00e3o que poderia sair de l\u00e1 a cada noite com um carro diferente&#8230;<\/p>\n<p>Assim, retomei a peregrina\u00e7\u00e3o em busca do estacionamento perfeito. Passei longas semanas alternando o estacionamento do meu pr\u00e9dio e outros dois mais pr\u00f3ximos &#8211; um deles com lava r\u00e1pido bastante convidativo. Sempre que chegava, perguntava para o mesmo manobrista: &#8220;e a\u00ed, abriu vaga?&#8221;. Rapidamente fiquei conhecido como &#8220;o cara da vaga&#8221;. Certa vez, o moleque do lava r\u00e1pido respondeu minha piadinha com a revela\u00e7\u00e3o que todos j\u00e1 sabiam:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem vaga, n\u00e9? Melhor para voc\u00eas, que est\u00e3o enchendo o rabo com o meu dinheiro&#8230;<br \/>\n&#8211; \u00c9, eles t\u00e3o ligados. Daqui a pouco eles liberam uma vaga pra ti.<\/p>\n<p>Recusei a safadeza quando ouvi a boa not\u00edcia do nosso <a href=\"http:\/\/www.interney.net\/blogs\/marmota\/2007\/12\/28\/em_defesa_do_verdadeiro_gildo\" target=\"_blank\" title=\"que, coincidentemente, chama-se Gildo mesmo\"><b>Gildo<\/b><\/a>: &#8220;pode vir que abriu vaga no pr\u00e9dio, \u00e9 s\u00f3 pagar&#8221;. Resolvida a epop\u00e9ia do estacionamento, afinal. Agora \u00e9 s\u00f3 continuar desviando das elegantes mo\u00e7as de salto alto no meio da rua.<\/p>\n<p><b>Em tempo<\/b>, a Clarissa Passos <a href=\"http:\/\/garotasquedizemni.ig.com.br\/archives\/002263.php\" target=\"_blank\"><b>tamb\u00e9m adora S\u00e3o Paulo<\/b><\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou prestes a completar quatro meses de trabalho na regi\u00e3o que, na primeira metade do s\u00e9culo passado, mantinha caracter\u00edsticas semelhantes a outras regi\u00f5es mais distantes do centro: repleta de ch\u00e1caras e terrenos alagadi\u00e7os. Na metade seguinte, essa \u00e1rea foi rodeada por quatro avenidas largas e movimentadas: a Marginal Pinheiros, a Avenida dos Bandeirantes, a Avenida [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-136","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-e-eu-uma-pedra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=136"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=136"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=136"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=136"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}