{"id":1359,"date":"2006-09-09T20:56:39","date_gmt":"2006-09-09T23:56:39","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/a-viagem-que-a-mala-nao-viu"},"modified":"2006-09-09T20:56:39","modified_gmt":"2006-09-09T23:56:39","slug":"a-viagem-que-a-mala-nao-viu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/a-viagem-que-a-mala-nao-viu\/","title":{"rendered":"A viagem que a mala n\u00e3o viu"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/e-alemanha.jpg\" align=\"right\">Vou terminar de uma vez por todas (ufa!) a s\u00e9rie sobre a Alemanha com uma historinha curiosa, sobre uma personagem que s\u00f3 atingiu status de \u201cn\u00famero um\u201d nesse m\u00eas de agosto. Algo que todo mundo se preocupa antes de qualquer viagem, mas que pode sumir num passe de m\u00e1gica durante deslocamentos, escadarias e afins. Com voc\u00eas, a mala.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/barrale.jpg\"><\/div>\n<p>Durante tr\u00eas semanas circulando entre Bonn, Col\u00f4nia e Berlim ao lado dos amigos da <a href=\"http:\/\/www.dw-world.de\/dw\/0,1595,8120,00.html\" target=\"_blank\"><b>Deutsche Welle<\/b><\/a>, acumulei n\u00e3o apenas boas hist\u00f3rias e alguns conhecimentos extras, mas especialmente pap\u00e9is. Material de curso, revistas e folhetos em alem\u00e3o, mapas, publica\u00e7\u00f5es diversas, lembrancinhas como camisetas, canecas, \u00edm\u00e3s de geladeira e at\u00e9 um espetacular r\u00e1dio Grundig de ondas curtas para passar o tempo em casa. Um conte\u00fado rico, suficiente para encher outra mala.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que, at\u00e9 o \u00faltimo dia do curso,  eu acreditava que toda essa parafern\u00e1lia caberia na minha humilde malinha, junto com a roupa suja. Provavelmente minha mente estava inebriada demais, a ponto de ignorar leis elementares da f\u00edsica. Assim, antes de me despedir da turma em Bad Godesberg e pegar o trem para Amsterd\u00e3, tratei de procurar uma nova mala, suficientemente resistente e barata acima de tudo.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o veio na <a href=\"http:\/\/www.woolworth.de\" target=\"_blank\"><b>Woolworth<\/b><\/a>, esp\u00e9cie de Lojas Americanas da Alemanha. Encontrei uma grande, com rodinha e tudo, por 18 euros. Uma verdadeira pechincha. Voltei todo pimp\u00e3o para o hotel e entupi alegremente o novo artefato, sem pensar muito nas conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p>Claro que s\u00f3 parei para pensar nelas enquanto caminhava com a mala de roupas, a mala de bugigangas e a minha bolsa verde velha de guerra. Traslado com escalas na esta\u00e7\u00e3o de Bad Godesberg, esta\u00e7\u00e3o de Col\u00f4nia, esta\u00e7\u00e3o central de Amsterd\u00e3 e, depois de um verdadeiro esfor\u00e7o circense no tram (bondinho), finalmente concluo a carregagem ao avistar Lello Lopes no nosso hotel.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/aleamsterda0909.jpg\"><\/div>\n<p>S\u00f3 que ainda ter\u00edamos uns dez dias revendo Danilo e Natalia em Berlim e circulando pelos arredores. Ainda dopado, imaginei que poderia despachar a mala para a capital alem\u00e3 e pagar uma mixaria de excesso. Pois nem o meu v\u00f4o baratinho e nem a confort\u00e1vel escala da KLM do Lello aceitaram a minha pobre malinha. \u201cDevia ter mandado o embrulho para casa pelo Deutsche Post, em Bonn\u201d, lamentei, j\u00e1 em busca de uma ag\u00eancia de correio holandesa.<\/p>\n<p>Encontrei algo bem melhor no completo (e bem confort\u00e1vel) <a href=\"http:\/\/www.schiphol.nl\" target=\"_blank\"><b>aeroporto de Schiphol<\/b><\/a>: um servi\u00e7o de envio de malas para qualquer aeroporto do mundo, na data que eu quisesse. Chama-se <a href=\"http:\/\/www.excessbaggage.nl\" target=\"_blank\"><b>Worldwide Baggage Services<\/b><\/a>, e os caras d\u00e3o todo tipo de garantia. Estava salvo! Bem, o salvamento custou 140 euros, mas naquela altura do campeonato, qualquer despesa para me livrar daqueles 25kg era troco. Sa\u00ed do escrit\u00f3rio da WBS feliz da vida, direto para o Burger King.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/barrale.jpg\"><\/div>\n<p>Enfim, segundo minhas notas fiscais e comprovantes, a mala seria despachada de Amsterd\u00e3 para Lisboa, e de Lisboa para S\u00e3o Paulo no v\u00f4o TP185, de 16 de novembro de 2005. Exatamente o mesmo que o meu! Ironicamente, n\u00e3o poderia retirar no mesmo dia, j\u00e1 que eu desembarquei em Guarulhos como passageiro, com direito a US$ 500 em compras sem declarar, e minha malinha veio como carga, sem direito a piciroca nenhuma.<\/p>\n<p>J\u00e1 em casa, imaginei que pegar a mala seria uma opera\u00e7\u00e3o rotineira, dessas que se fazem rapidinho antes do almo\u00e7o. Que esperan\u00e7a. No primeiro telefonema para a Tap Portugal, a not\u00edcia: teria que apanhar a nota e assinar uma papelada burocr\u00e1tica no escrit\u00f3rio da companhia, no pr\u00e9dio do TECA (Terminal de Cargas da Infraero), at\u00e9 o meio-dia. Ou depois das duas da tarde, sob pena de n\u00e3o ser atendido pela Receita Federal.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, da primeira vez que tentei, n\u00e3o consegui. Cheguei ao pr\u00e9dio \u00e0s 11h59, no instante que a mocinha estava trancando a porta do escrit\u00f3rio. \u201cPuxa vida, acabei de encerrar aqui. Sinto muito\u201d. \u201cMas mo\u00e7a, \u00e9 s\u00f3 um papel&#8230; Por favor, me ajude&#8230;\u201d. Nada feito. Hor\u00e1rio de almo\u00e7o para essa gente burocr\u00e1tica \u00e9 algo sagrado.<\/p>\n<p>Tudo bem. No dia seguinte, cheguei ao Terminal de Cargas alguns minutos mais cedo, para alegria da funcion\u00e1ria maldita. A quest\u00e3o \u00e9 que aquela papelada b\u00e1sica era apenas o come\u00e7o: restava passar pela Receita Federal, que estava de posse da mala. O guich\u00ea fica fora do pr\u00e9dio, ligado ao imenso terminal de importa\u00e7\u00f5es e exporta\u00e7\u00f5es em Guarulhos. Para minha surpresa, o atendimento foi feito por um tiozinho muito simp\u00e1tico. Chato, mas sempre gentil e educado.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/alemala0909.jpg\"><\/div>\n<p>\u201cPor favor, seu CPF, para saber qual desses \u00e9 voc\u00ea\u201d, pediu, apontando para o monitor. O terminal de computador da receita indicava uns dez cururus, todos com o mesmo nome. Claro que s\u00f3 um morava num buraco da ZL e tinha vindo da Alemanha naquela semana. Enfim, bastou o CPF para eliminar a primeira confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Veio, ent\u00e3o, a segunda. \u201cEstranho, sua mala foi enviada de Amsterd\u00e3, mas a sua passagem \u00e9 de Lisboa. N\u00e3o estou entendendo\u201d Ainda n\u00e3o havia limpado minha bolsa verde, e por sorte, tinha nas m\u00e3os todos os bilhetes poss\u00edveis. \u201cSenhor, \u00e9 o seguinte\u201d, comecei, exibindo as passagens uma a uma. \u201cEmbarquei para Lisboa dia 14 de outubro e, no dia seguinte, fui para Frankfurt. Fiz um curso por tr\u00eas semanas em Bonn, onde peguei um trem, no dia quatro de novembro, para Amsterd\u00e3, onde encontrei um amigo. De l\u00e1, fomos no dia sete para Berlim, e no dia onze, para Munique. De Munique, peguei um trem para Frankfurt na madrugada do dia 14, onde embarquei novamente para Lisboa, e de l\u00e1, vim para S\u00e3o Paulo no dia 16. Repare, meu senhor, que n\u00e3o seria nada f\u00e1cil andar com essa mala por todos esses lugares&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Naquela altura, estava com um sorriso de vit\u00f3ria nos l\u00e1bios. Minhas passagens e meu discurso convincente seriam suficientes para resolver aquele imbr\u00f3glio rapidamente e pegar logo minha mala. Vit\u00f3ria!<\/p>\n<p>\u201cEntendo&#8230; Fa\u00e7a o seguinte, senhor Andr\u00e9, tire c\u00f3pias de tudo isso para mim, por gentileza, al\u00e9m de uma c\u00f3pia dos seus documentos e suas notas. Aproveite e v\u00e1 at\u00e9 qualquer uma das ag\u00eancias banc\u00e1rias do terminal para recolher a taxa de armazenamento. Feito isso, ainda vai faltar a libera\u00e7\u00e3o alfandeg\u00e1ria, e isso talvez demore, j\u00e1 que o inspetor est\u00e1 em hor\u00e1rio de almo\u00e7o\u201d. Agora era a vez do simp\u00e1tico tiozinho dar risada e pensar \u201cvit\u00f3ria\u201d. Maldito.<\/p>\n<p>Mais de uma hora depois, pouco antes do retorno do inspetor, o tiozinho manda mais uma. \u201cPercebi que, na sua declara\u00e7\u00e3o de bagagem desacompanhada, voc\u00ea discrimina a presen\u00e7a de equipamento eletr\u00f4nico. Dependendo do parecer, ainda \u00e9 preciso recolher imposto\u201d. Mas que merda! Era o radinho Grundig ondas curtas! Num relance, poderia ser confundido com um Motoradio de uso pessoal&#8230; Mas na realidade, esse mimo da Deutsche Welle vale uns 70 euros.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/alecoisas0909.jpg\"><\/div>\n<p>Disse um \u201cah, ok\u201d despretencioso para o tiozinho e permaneci em sil\u00eancio at\u00e9 o inspetor da receita anunciar meu nome. Ele me acompanhou ao imenso dep\u00f3sito, abarrotado de caixas e embrulhos. Empoeirada e com as marcas de duas semanas de batalha, l\u00e1 estava a malinha de sotaque alem\u00e3o, com o z\u00edper lacrado em Amsterd\u00e3. Abrimos ali mesmo e, ao ver que o \u201cequipamento eletr\u00f4nico\u201d era aquele radinho inofensivo no meio da papelada, o inspetor fez cara de \u201cah, tenho mais o que fazer\u201d e disse um \u201cah, pode levar\u201d.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/barrale.jpg\"><\/div>\n<p>Essa historinha de hoje, al\u00e9m de colocar um ponto final em minhas lembran\u00e7as de uma das passagens mais marcantes da minha vida, traz duas li\u00e7\u00f5es de ouro para qualquer viajante. A primeira: sempre que trouxer alguma hist\u00f3ria para contar, n\u00e3o leve um ano para cont\u00e1-la. A segunda: se estiver pensando em passar um m\u00eas em qualquer lugar do mundo, lembre-se de viajar leve, com a menor quantidade de tralha que puder. Acredite: isso faz toda a diferen\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vou terminar de uma vez por todas (ufa!) a s\u00e9rie sobre a Alemanha com uma historinha curiosa, sobre uma personagem que s\u00f3 atingiu status de \u201cn\u00famero um\u201d nesse m\u00eas de agosto. Algo que todo mundo se preocupa antes de qualquer viagem, mas que pode sumir num passe de m\u00e1gica durante deslocamentos, escadarias e afins. 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