{"id":1352,"date":"2006-08-05T23:29:08","date_gmt":"2006-08-06T02:29:08","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/metamorfose-da-velha-pontezinha"},"modified":"2006-08-05T23:29:08","modified_gmt":"2006-08-06T02:29:08","slug":"metamorfose-da-velha-pontezinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/metamorfose-da-velha-pontezinha\/","title":{"rendered":"Metamorfose da velha pontezinha"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/backfut.gif\" align=\"right\">\u201c\u00c9 muito f\u00e1cil chegar no buraco do Marmota\u201d, comentavam meus amigos nos intervalos do col\u00e9gio t\u00e9cnico, depois de uma daquelas longas visitas regadas a trabalhos escolares e outras atividades l\u00fadicas em minha casa. \u201c\u00c9 s\u00f3 pegar o metr\u00f4, depois o \u00f4nibus, depois a barca, atravessar e desbravar a mata, dependurar-se em cip\u00f3s, escalar a montanha&#8230;\u201d. Sim, eu realmente moro longe. Mas as dificuldades para chegar aqui s\u00e3o cada vez menores \u2013 especialmente vindo de carro.<\/p>\n<p>Nos prim\u00f3rdios, em 1983, quando meu pai pilotava uma BMW (Bras\u00edlia meio-velha, ano 1978), o trajeto entre a civiliza\u00e7\u00e3o e o nosso lar passava obrigatoriamente pela Marginal Tiet\u00ea, Avenida Assis Ribeiro, Avenida S\u00e3o Miguel e finalmente a barca, a mata, o cip\u00f3&#8230; Ent\u00e3o algu\u00e9m contou ao meu pai que era muito mais r\u00e1pido chegar ao bairro pela nov\u00edssima Rodovia dos Trabalhadores \u2013 aquela cinco vezes menor que a Fern\u00e3o Dias, mas que custou o mesmo valor, afinal, foi Maluf que fez. A ordem era entrar no quil\u00f4metro 26, onde dizia Bairro dos Pimentas, e entrar \u00e0 direita, atravessando a pontezinha.<\/p>\n<p>A tal pontezinha era mesmo \u201cinha\u201d. O acesso simples, mas providencial, cruzava o Rio Tiet\u00ea e passava pelos arredores da Vila Nitro-oper\u00e1ria, um dos maiores s\u00edmbolos do bairro de S\u00e3o Miguel Paulista. Desde a inaugura\u00e7\u00e3o da <a href=\"http:\/\/www.nitroquimica.com.br\" target=\"_blank\"><b> Companhia Nitro Qu\u00edmica Brasileira<\/b><\/a>, nos anos 30, aquele pedacinho da cidade se desenvolveu bastante, e muita gente se estabeleceu ali, construindo <a href=\"http:\/\/www.prefeitura.sp.gov.br\/portal\/a_cidade\/noticias\/index.php?p=6099\" target=\"_blank\"><b>n\u00e3o apenas a regi\u00e3o, mas sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria<\/b><\/a>. A pontezinha, assim como boa parte das instala\u00e7\u00f5es da redondeza, era mantida pela Nitroquimica. Era muito estreita \u2013 cabia apenas um carro na largura \u2013 e era sustentada por postes vermelhos e cabos de a\u00e7o grossos. Imagine uma Ponte Herc\u00edlio Luz em escala reduzid\u00edssima.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/pontezinha0508.jpg\" align=\"right\">A boa nova se espalhou rapidamente. Nos anos 80 e 90, atravessar a pontezinha tornava-se um supl\u00edcio cada vez maior. N\u00e3o apenas para os moradores da Vila Nitro-oper\u00e1ria, que viram a simp\u00e1tica vizinhan\u00e7a se transformar na principal sa\u00edda do bairro para o centro, mas tamb\u00e9m para os motoristas, que encaravam longas filas nos hor\u00e1rios de pico. Isso nos dois sentidos: no fim da tarde, o acostamento do km 26 da Trabalhadores (atual Ayrton Senna) era o horror. A balb\u00fardia diminuiu quando instalaram um sem\u00e1foro para controlar quem vai ou volta \u2013 sim, senhores, durante anos a passagem pela pontezinha era negociada ali mesmo, com acelerador e luzes. Evidentemente, um sinal verde ou vermelho ainda era muito pouco.<\/p>\n<p>Sempre imaginei que a grande celeuma sobre \u201cquem cuida da pontezinha\u201d n\u00e3o estava na Nitroqu\u00edmica, mas no poder p\u00fablico. Nesse trecho, o Tiet\u00ea \u00e9 a linha imagin\u00e1ria que separa S\u00e3o Paulo de Guarulhos. Assim, \u00e9 muito f\u00e1cil uma cidade atribuir a outra uma atitude para melhorar o traslado. At\u00e9 que, em 1999, um prefeito de pulso firme e personalidade marcante mostrou toda sua coragem e atitude para substituir a pontezinha e construir um acesso de verdade.<\/p>\n<p>Parece mentira, mas estamos falando de Celso Pitta. A nova pontezinha poderia ser propagada pelo ex-prefeito como \u201co verdadeiro fura-fila\u201d, mas nem isso foi poss\u00edvel. O fluxo de carros era cada vez maior, e o acesso para quem vinha da Nitroqu\u00edmica, do Bairro dos Pimentas ou nos dois sentidos da rodovia, incluindo um viaduto estupidamente estreito sobre a Trabalhadores, ainda \u00e9 o mesmo em vinte anos.<\/p>\n<p>Como todo castigo para pobre \u00e9 pouco, mesmo com a nova pontezinha (batizada Senador Jos\u00e9 Erm\u00edrio de Moraes, ex-presidente da Nitroqu\u00edmica), as ruas estreitas da Vila Nitro-oper\u00e1ria ainda impediam o acesso a caminh\u00f5es. Obviamente nenhum motorista ligava para isso. As zebras da bol\u00e9ia sequer ligavam para as barreiras de concreto e ferro, que deixavam os acessos ainda mais estreitos, apenas para ve\u00edculos de passeio. Passavam por cima sem piedade.<\/p>\n<p>Finalmente, no final de julho, a boa e velha pontezinha ganhou mais uma metamorfose, parceria perfeita entre Nitroqu\u00edmica, prefeitura e elei\u00e7\u00f5es. <a href=\"http:\/\/www.prefeitura.sp.gov.br\/portal\/a_cidade\/noticias\/index.php?p=11433\" target=\"_blank\"><b> Uma linda e larga avenida batizada de Eduardo Sabino de Oliveira<\/b><\/a>, al\u00e9m de uma segunda ponte, duplicou a parte paulistana do acesso, permitindo n\u00e3o somente a passagem de caminh\u00f5es, mas tamb\u00e9m o fim dos antigos coment\u00e1rios ao estilo \u201cmas que bocada \u00e9 essa, Deus do c\u00e9u\u201d. D\u00e1 vontade de chamar todos os amigos para virem aqui em casa e contar. \u201cViram como ficou legal? Se eu n\u00e3o contasse, jamais acreditariam que aqui tinha uma pontezinha\u201d.<\/p>\n<p>Tudo bem que, como muitas das sensacionais obras da nossa engenharia lusitana, as muitas faixas de rolamento viram apenas uma assim que se chega ao outro lado da pontezinha, passando pelo viaduto est\u00fapido at\u00e9 a estrada. Mas depois de uma obra dessas, pedir para todos os meus problemas acabarem seria demais. E ainda corro o risco de ouvir um \u201cn\u00e3o reclama e mude-se logo da\u00ed\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 muito f\u00e1cil chegar no buraco do Marmota\u201d, comentavam meus amigos nos intervalos do col\u00e9gio t\u00e9cnico, depois de uma daquelas longas visitas regadas a trabalhos escolares e outras atividades l\u00fadicas em minha casa. \u201c\u00c9 s\u00f3 pegar o metr\u00f4, depois o \u00f4nibus, depois a barca, atravessar e desbravar a mata, dependurar-se em cip\u00f3s, escalar a montanha&#8230;\u201d. 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