{"id":1344,"date":"2006-07-18T22:55:57","date_gmt":"2006-07-19T01:55:57","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/em-defesa-eterna-do-piropo"},"modified":"2006-07-18T22:55:57","modified_gmt":"2006-07-19T01:55:57","slug":"em-defesa-eterna-do-piropo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/em-defesa-eterna-do-piropo\/","title":{"rendered":"Em defesa eterna do &#8220;piropo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/denovo.gif\" align=\"right\">N\u00e3o sou o que se pode chamar de especialista no sexo oposto. Pelo contr\u00e1rio, acumulo experi\u00eancias que mant\u00e9m no prim\u00e1rio incompleto o meu n\u00edvel de escolaridade na mat\u00e9ria. Ainda assim, acredito que na maioria dos casos eu n\u00e3o deixo passar a chance de sorrir para uma mo\u00e7a, independente de seu estado civil, e diante de uma brecha, dirigir-lhe algumas palavras doces, sinceras e descompromissadas. Isso n\u00e3o faz bem apenas para quem ouve, mas para quem as diz tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Infelizmente esse tipo de postura nem sempre \u00e9 bem compreendida. Ainda mais nos dias de hoje, onde o ritmo fren\u00e9tico do dia-a-dia esbarra em qualquer tipo de rela\u00e7\u00e3o social. N\u00e3o h\u00e1 mais tempo sequer para um bate-papo: os casais &#8220;ficam&#8221; sem sequer perguntar o nome. Quando qualquer cururu chega sorrindo balbuciando qualquer coisinha meiga, as mo\u00e7as j\u00e1 colam r\u00f3tulos em sua testa, como &#8220;careta&#8221;, &#8220;boboca&#8221; e todos aqueles sin\u00f4nimos impronunci\u00e1veis aqui.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode chamar como quiser: galanteio, cantada, flerte&#8230; Em Portugal, h\u00e1 uma palavra de origem espanhola que indica uma abordagem bem sucedida nesse contexto: piropo. Miguel Esteves Cardoso, um dos meus escritores portugueses favoritos (um dia ainda vou ler <i>O Amor \u00e9 Fodido<\/i>, j\u00e1 concordando com ele por antecipa\u00e7\u00e3o) fez uma defesa espetacular do &#8220;piropo&#8221; em seu livro <i>A Causa das Coisas<\/i>, colet\u00e2nea de cr\u00f4nicas do jornalista nos jornais Expresso e Independente, todas nos anos 80.<\/p>\n<p>Temos aqui uns vinte anos e um oceano inteiro de dist\u00e2ncia, mas \u00e9 impressionante como o texto \u00e9 atual.<\/p>\n<p><i>A vida de qualquer rapaz deve ser ler, escrever e correr atr\u00e1s das raparigas. Esta \u00faltima parte \u00e9 muito importante. Hoje em dia, por\u00e9m, os rapazes j\u00e1 n\u00e3o correm atr\u00e1s das raparigas \u2013 andam com elas. A diferen\u00e7a entre &#8220;correr atr\u00e1s&#8221; e &#8220;andar com&#8221; \u00e9, sobretudo, uma diferen\u00e7a de energia. Correr \u00e9 galopar, esfor\u00e7ar, persistir, e \u00e9 alegria, entusiasmo, vitalidade. Andar \u00e9 arrastar, passo de caracol, pachorrice, sonol\u00eancia. O amor n\u00e3o pode ser somente uma partida de golfe, em que dois jarretas caminham devagar em torno de alguns buraquinhos. Tem de ser, pelo menos, os 400 metros barreiras.<\/p>\n<p>Os dois sintomas mais preocupantes desta nova tend\u00eancia para a letargia er\u00f3tica s\u00e3o, por um lado, a decad\u00eancia acelerada do piropo, do galanteio, e por outro, o culto solene e obstinado da sinceridade. Ambos contribu\u00edram para facilitar a sedu\u00e7\u00e3o, tornando a pr\u00f3pria sedu\u00e7\u00e3o numa coisa muito menos sedutora, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 maior afrodis\u00edaco que a dificuldade.<\/p>\n<p>Os rapazes de hoje j\u00e1 n\u00e3o perguntam \u00e0s raparigas se os anjos desceram \u00e0 terra, ou que bem fizeram a Deus para lhes dar uns olhos t\u00e3o bonitos. Dizem laconicamente, com o ar indiferente que marca o &#8220;cool&#8221; da contemporaneidade &#8220;Vamos a\u00ed?&#8221;. Ou simplesmente &#8220;bora a\u00ed?&#8221;. Nos \u00faltimos tempos, tanto em Lisboa como na linha de Cascais, esta economia de express\u00e3o atingiu at\u00e9 o c\u00famulo de se cingir a um breve e local &#8220;Bute?&#8221;. &#8220;Bute&#8221; significa qualquer coisa como &#8220;Acho-te muito bonita e desej\u00e1vel e adoraria poder levar-te imediatamente para um local distante e deserto onde eu pudesse totalmente desfazer-te em sorvete de framboesas&#8221;. Mas, como os rapazes s\u00f3 dizem &#8220;Bute?&#8221;, s\u00e3o as pobres raparigas que t\u00eam de fazer o esfor\u00e7o todo de interpreta\u00e7\u00e3o e enriquecimento sem\u00e2ntico. S\u00e3o assim obrigadas a perguntar \u00e0s amigas &#8220;\u00d3 Teresinha, o que \u00e9 que achas que ele queria dizer com aquele bute?&#8221;. E chegam \u00e0 desgra\u00e7ada condi\u00e7\u00e3o de analisar as inten\u00e7\u00f5es do rapaz mediante uma s\u00e9rie de considera\u00e7\u00f5es pouco l\u00edricas \u2013 foi um &#8220;Bute&#8221; terno ou r\u00edspido, sincero ou mentiroso, ter\u00e1 sido apaixonado ou desapaixonado?<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o pode ser, at\u00e9 porque h\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o a manter. Imagina-se alguma rapariga a dizer &#8220;Ai, Lena&#8230; Quando ele disse &#8220;Bute&#8221; subiu-me o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 boca!&#8221;. A verdade \u00e9 que o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o bastante precioso e s\u00f3 se d\u00e1 ao trabalho de subir \u00e0 boca quando se lhe d\u00e3o excelentes motivos para isso. De uma maneira geral, todas as palavras que n\u00e3o se imaginam num soneto de Cam\u00f5es s\u00e3o impr\u00f3prias. O amor pode ser um fogo que arde sem se ver, mas n\u00e3o basta tomar o facto por dado e dizer simplesmente \u201cBute\u201d \u2013 \u00e9 preciso dizer que arde sem se ver. Mesmo que n\u00e3o arda, mesmo que se veja.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria palavra piropo (do latim &#8220;pyropo&#8221;) tem \u00f3bvias conota\u00e7\u00f5es incendi\u00e1rias. Alguns alquimistas definiam esta pedra como sendo uma mistura de &#8220;tr\u00eas partes de lata e uma de ouro, que fica da cor do fogo&#8221;. A lata \u00e9 extremamente importante \u2013 sem ela n\u00e3o se pode construir um bom piropo. N\u00e3o s\u00f3 basta a parte de ouro (o sentimento, ou desejo) \u2013 faltam mesmo os demais 75 por cento. E o piropo faz falta, mesmo que seja s\u00f3, nos preparos de amor, o &#8220;pequeno gr\u00e3o de arroz&#8221; de que fala a cantiga\u2026<\/p>\n<p>Dentre todos os piropos, o mais lindo (e mais portugu\u00eas) \u00e9 o piropo que se dirige, de passagem, a uma rapariga bonita. N\u00e3o \u00e9 o piropo que procura obter algo em troca \u2013 n\u00e3o \u00e9 o piropo interesseiro do engate \u2013 \u00e9 o piropo per si, e desinteressado. Diz-se quando ela passa e deixa-se que ela passe sem responder. O piropo desinteressado \u00e9 o supra-sumo desta arte e deve entender-se como o pagamento po\u00e9tico de uma d\u00edvida.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 bonita \u2013 voc\u00ea gostou de a ver. Em troca, inventa uma coisa bonita para lhe dizer, sem esperar outra recompensa sen\u00e3o a enorme recompensa de saber que ela o ouviu. Qualquer rapariga gosta de (e merece) ouvir um piropo destes. Em contrapartida, nenhuma rapariga tem paci\u00eancia para as alternativas cada vez mais habituais; o basbaque calado que fica a ver, o engatat\u00e3o inc\u00f3modo que marcha atr\u00e1s da rapariga como um detective pouco particular, o ordin\u00e1rio que se mete, at\u00e9 o banana t\u00edmido e ensimesmado que nem sequer se d\u00e1 ao trabalho de olhar.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso acabar com a escandinaviza\u00e7\u00e3o do erotismo portugu\u00eas. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o piropo que morre. S\u00e3o as cartas de amor, as flores de um an\u00f4nimo admirador, as boas frases de apresenta\u00e7\u00e3o e toda a pan\u00f3plia de doces artif\u00edcios que deveriam estar sempre presentes na preocupa\u00e7\u00e3o de um bom rapaz portugu\u00eas. A escandinaviza\u00e7\u00e3o (exerc\u00edcio f\u00edsico, comidas saud\u00e1veis, windsurf e sexo sem culpa e sem gra\u00e7a) tem, como fator mais perigoso, o culto \u00e0 sinceridade. \u00c9 triste, mas \u00e9 verdade. Hoje em dia quase ningu\u00e9m mente! Os rapazes dizem \u201cn\u00e3o \u00e9s muito bonita, mas at\u00e9 te gramo\u201d, e as raparigas respondem \u201cpreferia o Richard Gere, mas j\u00e1 que aqui est\u00e1s&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o pode ser. Para qualquer rapaz, a rapariga com quem est\u00e1 (ou quer estar) n\u00e3o pode ser sen\u00e3o a mais bonita do mundo inteiro. A honestidade \u00e9 a morte do encantamento. Bem utilizada, a mentira criativa chega ao ponto de convencer o pr\u00f3prio mentidor. Uma mentirazinha que v\u00e1 um nadinha contra a raz\u00e3o (\u201cera capaz de morrer por ti\u201d, por exemplo) \u00e9 sempre uma contribui\u00e7\u00e3o espetacular a favor do \u201clive aid\u201d do cora\u00e7\u00e3o. A verdade \u00e9 nua e crua, e nisto parece-se bastante com um bife de peru. As coisas nuas t\u00eam de ser misteriosa e lindamente vestidas, e as cruas t\u00eam sempre de ser cozinhadas. Ningu\u00e9m gosta de bife de peru, mas uma vez panadinho comm p\u00e3o ralado, e enfeitado com agri\u00f5es e rodelas de lim\u00e3o, e servido num prato branco e limpo com um sorriso impec\u00e1vel&#8230; Come-se j\u00e1.<br \/>\nH\u00e1 uma medida eficaz contra a banaliza\u00e7\u00e3o e simplifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es amorosas, mais portuguesa que escandinava, e mais agrad\u00e1vel que andar a butes. \u00c9 namorar. Todas as mulheres \u2013 sejam raparigas ou mulheres, esposas de h\u00e1 20 anos, conhecidas ou desconhecidas, mais ou menos bonitas, n\u00e3o importa \u2013 todas elas t\u00eam de ser convincentemente, absolutamente e permanentemente namoradas. Se n\u00e3o, ao vale a pena \u2013 nem para elas nem para eles.<\/p>\n<p>Na rua ou em casa, no trabalho ou no liceu, n\u00e3o deixe que nenhuma rapariga bonita passe por si em v\u00e3o. Com correc\u00e7\u00e3o e jeito, lance-lhe um piropo sentido e desinteressado, e ver\u00e1 como sabe bem. Pense que nunca mais ir\u00e1 v\u00ea-la outra vez (o que \u00e9 quase sempre verdade) e aproveite aquela \u00fanica oportunidade. Ou, sendo esposa ou namorada, sua ou de outra pessoa, tamb\u00e9m n\u00e3o fica mal. O amor, pode ter a certeza, tem de estar no ar tanto como no lar.<\/i><\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, voc\u00ea ficou ainda mais linda depois que cortou o cabelo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sou o que se pode chamar de especialista no sexo oposto. Pelo contr\u00e1rio, acumulo experi\u00eancias que mant\u00e9m no prim\u00e1rio incompleto o meu n\u00edvel de escolaridade na mat\u00e9ria. 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