{"id":133,"date":"2008-02-24T11:51:31","date_gmt":"2008-02-24T14:51:31","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/voo-1249-ou-um-raio-nao-cai-duas-vezes-no-mesmo-lugar"},"modified":"2008-02-24T11:51:31","modified_gmt":"2008-02-24T14:51:31","slug":"voo-1249-ou-um-raio-nao-cai-duas-vezes-no-mesmo-lugar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/voo-1249-ou-um-raio-nao-cai-duas-vezes-no-mesmo-lugar\/","title":{"rendered":"V\u00f4o 1249 (ou: um raio n\u00e3o cai duas vezes no mesmo lugar)"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/><b>Rio de Janeiro (RJ) &#8211; <\/b>&#8220;Ei, voc\u00ea prometeu que, depois daquela trag\u00e9dia, jamais iria voar por Congonhas outra vez!&#8221;. Verdade. Garanti que jamais compraria uma passagem para viajar a qualquer lugar a partir dali. N\u00e3o pude fazer nada desta vez: quem comprou dessa vez foi o pessoal do trabalho! E vai continuar dessa forma, enquanto a maior parte dos neg\u00f3cios estiverem sendo realizados ao redor dele. Isso significa que ainda vamos ouvir muitas hist\u00f3rias como a de uma amiga, que viajou de Porto Alegre a S\u00e3o Paulo semana passada.<\/p>\n<p>Era o v\u00f4o 1249, da Gol. Deveria ter sa\u00eddo do aeroporto Salgado Filho \u00e0s 16h30. Acabou decolando duas horas depois, sob um tempo muito fechado. Que, diga-se, s\u00f3 piorou na aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 S\u00e3o Paulo. &#8220;Na hora que o avi\u00e3o deveria estar chegando, est\u00e1vamos sobrevoando o litoral, praticamente acompanhando a nuvem&#8221;, lembra. \u00c9 l\u00f3gico que, a cada minuto longe do ch\u00e3o, a tens\u00e3o a bordo aumentava.<\/p>\n<p>Nessa circunst\u00e2ncia, qualquer mensagem da cabine de comando, ainda que alvissareira, pode ser interpretada da pior forma poss\u00edvel. &#8220;Senhores passageiros, aqui quem fala \u00e9 o comandante. Pe\u00e7o para que apertem os cintos, reclinem os assentos e preparem-se para o pouso, fomos autorizados e teremos prioridade total&#8221;. Traduzindo: o mundo ca\u00eda em S\u00e3o Paulo, mas o combust\u00edvel deveria estar no fim. Ent\u00e3o \u00e9 n\u00f3is na fita, mano.<\/p>\n<p>O apagar das luzes fez aumentar os cochichos entre os passageiros. O boeing da frota mais moderna do pa\u00eds come\u00e7ou a cortar a tempestade por dentro. Pela janela, s\u00f3 se via \u00e1gua e mais nada. De sopet\u00e3o, a turbul\u00eancia de praxe virou uma descida brusca, capaz de provocar gritos. Outra queda repentina. E mais outra. Pronto: estava instaurado o p\u00e2nico. &#8220;O rapaz que estava ao meu lado reclamou, pois na ida tamb\u00e9m tinha passado um apuro. Logo pensei: esse cara \u00e9 o p\u00e9 frio do v\u00f4o!&#8221;, brincou.<\/p>\n<p>N\u00e3o era para menos: era um v\u00f4o, vindo de Porto Alegre, descendo em Congonhas, sob chuva. &#8220;Ser\u00e1 que autorizam calculando algum risco? E a drenagem? Ser\u00e1 que o tal groovin funciona? E as turbinas? E op freio auxiliar? E as manetes? Informa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma merda mesmo&#8230;&#8221;, lamentou, emendando com uma piada de muito mal gosto. &#8220;Ao menos agora n\u00e3o tem mais aquele pr\u00e9dio nem o posto, mas sim uma boa \u00e1rea de escape&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia mais nada a fazer, a n\u00e3o ser esperar S\u00e3o Paulo se aproximar at\u00e9 o toque das rodas na pista. Foi brusca, como se o piloto tentasse &#8220;mergulhar&#8221; o pneu a ponto de evitar qualquer derrapagem. Muitos rezavam. Outros contavam os tais treze segundos at\u00e9 o final da aterrisagem. Deu tudo certro: a coragem e destreza do piloto culminaram com aplausos que calaram totalmente a mensagem de boas vindas \u00e0 Congonhas.<\/p>\n<p>Foram longos minutos, al\u00e9m de centenas de celulares tocando e sendo usados, at\u00e9 o desembarque total dos passageiros, ainda sob chuva. Minha amiga s\u00f3 foi chegar em casa depois da meia noite &#8211; mas deu tempo de saber que, depois do v\u00f4o 1249, nenhum outro pousou em Congonhas naquele domingo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro (RJ) &#8211; &#8220;Ei, voc\u00ea prometeu que, depois daquela trag\u00e9dia, jamais iria voar por Congonhas outra vez!&#8221;. Verdade. Garanti que jamais compraria uma passagem para viajar a qualquer lugar a partir dali. N\u00e3o pude fazer nada desta vez: quem comprou dessa vez foi o pessoal do trabalho! 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