{"id":1313,"date":"2004-04-15T21:17:11","date_gmt":"2004-04-16T00:17:11","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/pra-que-serve-o-linotipo-mesmo"},"modified":"2004-04-15T21:17:11","modified_gmt":"2004-04-16T00:17:11","slug":"pra-que-serve-o-linotipo-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/pra-que-serve-o-linotipo-mesmo\/","title":{"rendered":"Pra que serve o linotipo mesmo?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/plantao.jpg\" align=\"right\">Antes de me ater a pergunta-t\u00edtulo, vou responder algo que certamente voc\u00ea n\u00e3o perguntou: sim, eu fui um dos primeiros consumidores \u00e1vidos a botar os p\u00e9s na <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/especial\/2004\/bienaldolivro\/\" target=\"_blank\"><b>Bienal Internacional do Livro de S\u00e3o Paulo<\/b><\/a>, que come\u00e7ou hoje e vai at\u00e9 o dia 25. A grande vantagem \u00e9 que, em uma quinta-feira, n\u00e3o vai ningu\u00e9m. A desvantagem: por ser o primeiro dia, nenhum estande aceitava qualquer tipo de cart\u00e3o, contrariando os in\u00fameros comerciais do g\u00eanero. &#8220;Culpa do <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/ilustrada\/ult90u43312.shtml\" target=\"_blank\"><b>nove-dedos<\/b><\/a>, que resolveu aparecer aqui hoje&#8221;, alertou meu amigo <a href=\"http:\/\/www.bigodedodragaogordo.weblogger.terra.com.br\" target=\"_blank\"><b>Marcelo<\/b><\/a>, encontrado ocasionalmente no pavilh\u00e3o da Imigrantes.<\/p>\n<p>Mesmo assim, pude conferir praticamente <a href=\"http:\/\/www.feirabienaldolivro.com.br\" target=\"_blank\"><b>todos os centenas de expositores<\/b><\/a>, repletos de estantes e publica\u00e7\u00f5es diversas brotando como erva daninha. Perdi mais tempo diante de livros da \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o, em especial no imperd\u00edvel mega-estande universit\u00e1rio. Sa\u00ed da Bienal com umas cinco sacolas e alguns in\u00fameros volumes. Entre eles uma sugest\u00e3o de <a href=\"http:\/\/www.marioprataonline.com.br\" target=\"_blank\"><b>M\u00e1rio Prata<\/b><\/a>, extra\u00edda da cr\u00f4nica abaixo, publicada no dia sete de abril no Estad\u00e3o.<\/p>\n<p><i>Quando fa\u00e7o palestras em faculdades de jornalismo, os estudantes me fazem a mesma pergunta: voc\u00ea acha importante o diploma para se exercer a profiss\u00e3o?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei, porque nunca freq\u00fcentei uma faculdade e n\u00e3o conhe\u00e7o os curr\u00edculos. Mas sei que tem algumas mat\u00e9rias que eles n\u00e3o ensinam l\u00e1: portugu\u00eas, reportagem e hist\u00f3ria universal da imprensa. Se ensinam, ensinam mal.<\/p>\n<p>Os alunos saem de l\u00e1 sem a m\u00ednima id\u00e9ia da serventia da v\u00edrgula, por exemplo. Acham que tudo se resolve com retic\u00eancias&#8230; E n\u00e3o se fazem mais rep\u00f3rteres como antigamente. Aquele que ficava at\u00e9 um m\u00eas na rua e chegava com um furo de reportagem. Sabe o que \u00e9 furo, menina? Hoje os furos s\u00e3o armados l\u00e1 no andar de cima, entre os poderosos. Quando dizem que a Veja derrubou o Collor com a den\u00fancia do outro Collor, o Pedro, n\u00e3o foi obra de nenhum rep\u00f3rter. Algu\u00e9m procurou a Veja. Recentemente, a \u00c9poca publicou  o curta-metragem entre o Waldomiro e o Cascata (perd\u00e3o, Cachoeira). N\u00e3o foi nenhum rep\u00f3rter quem conseguiu aquilo. Foi algu\u00e9m da oposi\u00e7\u00e3o quem levou de bandeja. Hoje o jornalista fica oito horas dentro da reda\u00e7\u00e3o lendo press-release. E dando uns telefonemas, mascando chicletes.<\/p>\n<p>Um garotinho apresenta um assassino no rio e a imprensa engole. Um rapaz (consta que) matou seu pai e o jornalista fica sentado esperando que a pol\u00edcia ache o assassino e d\u00ea uma coletiva. Ningu\u00e9m sai da reda\u00e7\u00e3o para procurar nada. O jornalismo de hoje \u00e9 sedent\u00e1rio. Nem fumar na reda\u00e7\u00e3o pode mais. Onde j\u00e1 se viu um rep\u00f3rter sem um cigarro na boca, deixando cair a cinza no teclado?<\/p>\n<p>Outro dia duas garotas (\u00faltimo ano de jornalismo, em S\u00e3o Paulo) me entrevistaram e eu falei em linotipo. Elas perguntaram o que era aquilo. \u00daltimo ano de jornalismo e n\u00e3o saber o que fazia um linotipista \u00e9 o mesmo que um formando de medicina desconhecer as mezinhas (com z, revis\u00e3o) ou um advogado se formar sem saber o que \u00e9 data v\u00eania.<\/p>\n<p>Estou escrevendo tudo isto, porque acabo de ler o livro &#8220;Cem Quilos de Ouro (e outras hist\u00f3rias de um rep\u00f3rter)&#8221;, do Fernando Morais, lan\u00e7ado recentemente pela Companhia das Letras. Tenho a impress\u00e3o que a simples leitura do livro vale por quatro anos de jornalismo universit\u00e1rio. O livro \u00e9 uma aula de como fazer jornalismo, do que \u00e9 um rep\u00f3rter e qual a sua fun\u00e7\u00e3o dentro de um jornal. Mais que uma aula, um curso, uma faculdade inteira.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que as faculdades de jornalismo j\u00e1 mandaram seus alunos lerem o Fernando?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que as faculdades pedem aos seus alunos para lerem as antigas edi\u00e7\u00f5es da revista O Cruzeiro, que chegava a tirar 700.000 exemplares nos anos 60? Aquilo ali \u00e9 outra aula de reportagem. Uma revista investigativa. Ser\u00e1 que eles ensinam quem foi Samuel Wainer e a revolu\u00e7\u00e3o que ele fez na imprensa brasileira? Ser\u00e1 que eles contam que o Rubem Braga foi para a segunda guerra mundial &#8211; no front &#8211; fazer cr\u00f4nicas? Sim, cr\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que algu\u00e9m l\u00e1 nas c\u00e1tedras pode explicar que quiser n\u00e3o \u00e9 com z?<\/p>\n<p>Enfim, meu queridos alunos de jornalismo, leiam o livro do Fernando Morais. Voc\u00eas v\u00e3o aprender muito mais do que colocaram na sua cabe\u00e7a em quatro anos. Muito, muito mais.<\/p>\n<p>E, por favor, senhores professores, citem o Ferreira Gullar: a crase n\u00e3o foi feita para humilhar ningu\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>E, para terminar, o que \u00e9 mesmo um linotipo? E o que \u00e9 mesmo um rep\u00f3rter?<\/i><\/p>\n<p>Para concluir, algumas observa\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o comprei nenhum livro do M\u00e1rio Prata&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sei que, desde o advento da tecnologia digital, n\u00e3o se usa mais linotipos &#8211; em alguns lugares, nem rep\u00f3rter.<\/p>\n<p>&#8211; Analisando sem pensar muito, devo ter sa\u00eddo da Bienal com uma dezena de faculdades na sacola. Tem jornalismo, mas tamb\u00e9m tem &#8220;ci\u00eancias ocultas&#8221; e &#8220;administra\u00e7\u00e3o do \u00f3cio&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Para os aficcionados, \u00e9 um programa altamente recomendado. Mas se puder, evite os finais de semana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de me ater a pergunta-t\u00edtulo, vou responder algo que certamente voc\u00ea n\u00e3o perguntou: sim, eu fui um dos primeiros consumidores \u00e1vidos a botar os p\u00e9s na Bienal Internacional do Livro de S\u00e3o Paulo, que come\u00e7ou hoje e vai at\u00e9 o dia 25. A grande vantagem \u00e9 que, em uma quinta-feira, n\u00e3o vai ningu\u00e9m. 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