{"id":1276,"date":"2004-01-19T06:15:17","date_gmt":"2004-01-19T09:15:17","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/a-eternidade-ao-alcance-de-todos"},"modified":"2004-01-19T06:15:17","modified_gmt":"2004-01-19T09:15:17","slug":"a-eternidade-ao-alcance-de-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/a-eternidade-ao-alcance-de-todos\/","title":{"rendered":"A eternidade ao alcance de todos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/plantao.jpg\" align=\"right\">Alerta aos amantes da vanguarda art\u00edstica: n\u00e3o encare o post a seguir como algo pessoal a voc\u00ea. Mas admito: a \u00fanica vez que me dei ao trabalho de ir a uma Bienal de Arte em S\u00e3o Paulo, h\u00e1 uns doze anos, fiquei sem entender como um sujeito capaz de empilhar bacias e afixar seu nome ao lado de uma etiqueta com os dizeres &#8220;sem t\u00edtulo&#8221; pode conquistar algum prest\u00edgio.<\/p>\n<p>Para que a coisa continue totalmente impessoal, reescrevo abaixo um texto sensacional sobre o tema. Chama-se <b>A eternidade ao alcance de todos<\/b>, do escritor Jos\u00e9 C\u00e2ndido de Carvalho.<\/p>\n<p><i>Carta de Micael dos Reis a um primo de S\u00e3o Jos\u00e9 do Monte, o mec\u00e2nico Manuel Bastos:<\/p>\n<p>&#8220;Manequinho, n\u00e3o precisa mandar mais carta para a oficina de lanternagem de Zuzu Tavares, uma vez que mudei de of\u00edcio e abracei a carreira de escultor moderno. Sei como o pessoalzinho de S\u00e3o Jos\u00e9 do Monte vai rir ao saber que o filho de Santinho Reis est\u00e1 fazendo nome a poder de ferro-velho e coisa destorcida. Peguei inclina\u00e7\u00e3o pelo ramo no dia em que vi nos jornais um para-lama de sucata que pegou o primeiro pr\u00eamio numa demonstra\u00e7\u00e3o de esculturagem no estrangeiro e mais depois em S\u00e3o Paulo. A\u00ed, primo, meti os peitos. Nem retirei o macac\u00e3o de lanterneiro. E de macac\u00e3o, todo lambuzado de \u00f3leo e sujo de graxa, pulei para o neg\u00f3cio de lata velha. Peguei de jeito uma porta de autom\u00f3vel, meti o ma\u00e7arico nela, furei e bordei. Em seguimento, lasquei por cima uma p\u00e1 de ventilador e arrematei a obra com uma antena de televis\u00e3o. Parti para a IV Exposi\u00e7\u00e3o da Primavera com esse trabalho que chamei de &#8220;Vento Outonal nas Rosas do meu Cora\u00e7\u00e3o&#8221;. N\u00e3 tirei o primeiro lugar porque um cretino teve a id\u00e9ia genial de aparecer com um fog\u00e3o econ\u00f4mico de 1917 soltando fuma\u00e7a por todos os buracos. &#8220;Come\u00e7o e fim da Cria\u00e7\u00e3o&#8221;, como era o nome do dito fog\u00e3o econ\u00f4mico, venceu de ponta a ponta. Uma dona ficou t\u00e3o esfogueteada que comeu tr\u00eas quilos de fuma\u00e7a e foi esvaziar o estoque no hospital. Em todo o caso, meu &#8220;Vento Outonal&#8221; tirou o segundo posto e uma bra\u00e7ada de palmas nos jornais. Agora, na pr\u00f3xima vez, vou aparecer de macac\u00e3o, barba escorrida no peito e bon\u00e9 listrado na cabe\u00e7a, de modo a ficar nas evid\u00eancias do mundo. Vou entupigaitar a pra\u00e7a com o &#8220;jarro do Bar\u00e3o&#8221;, um penico que muni de uma trombeta de gramofone e um vidro de magn\u00e9sia leitosa. Primo, em mat\u00e9ria de invencismo eu sou fogo selvagem. E para despedir, recomenda\u00e7\u00f5es aos tios, principalmente um grande abra\u00e7o na prima Noca. E n\u00e3o deixe de ver se compra em S\u00e3o Jos\u00e9 do Monte e redondezas uma caixa de descarga antiga, daquelas de puxar por uma correntinha, porque pretendo concorrer a uma exposi\u00e7\u00e3oo na Bahia que vai render uma nota bonita. Uma caixa desse tipo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 folcl\u00f3rica como fotogr\u00e1f\u00e1tica. Calha muito bem em recantos de sala de visita por baixo daqueles retratos de fam\u00edlia em feitio oval.&#8221;<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alerta aos amantes da vanguarda art\u00edstica: n\u00e3o encare o post a seguir como algo pessoal a voc\u00ea. 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