{"id":1254,"date":"2003-11-21T19:54:08","date_gmt":"2003-11-21T22:54:08","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/pequenas-epifanias"},"modified":"2003-11-21T19:54:08","modified_gmt":"2003-11-21T22:54:08","slug":"pequenas-epifanias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/pequenas-epifanias\/","title":{"rendered":"Pequenas Epifanias"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/plantao.jpg\" align=\"right\">No <a href=\"\/blog\/archives\/000742.html\" target=\"_blank\"><b>come\u00e7o da semana<\/b><\/a>, citei a Feira do Livro de Porto Alegre e um artigo de Zuenir Ventura, sobre a voca\u00e7\u00e3o cultural de Porto Alegre. Celeiro de grandes escritores, um dos filhos do Rio Grande mais conhecidos chama-se <a href=\"http:\/\/www.caio.itgo.com\" target=\"_blank\"><b>Caio Fernando Abreu<\/b><\/a>.<\/p>\n<p>Este jornalista-contista, que aproveitou a vida imerso na cultura hippie nos anos 70, tinha certeza de que amar emburrece, como diria <a href=\"http:\/\/inagaki.blogger.com.br\" target=\"_blank\"><b>Inagaki<\/b><\/a>. Encarava o tema como poucos, usando boa dose de realismo para descrever tais manifesta\u00e7\u00f5es divinas. Ou melhor: <b>pequenas epifanias<\/b>, t\u00edtulo de sua colet\u00e2nea de cr\u00f4nicas, lan\u00e7ado em 1996, ano de seu falecimento.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 o nome do texto abaixo, que recebi por e-mail da minha amiga (e outra ass\u00eddua visitante do MMM) Juliana Narumia. Publicado originalmente no jornal <i>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/i>, em 22 de abril de 1986 &#8211; Caio Fernando Abreu passou 20 anos de sua vida na capital paulista, antes de voltar \u00e0 Porto Alegre. Para voc\u00ea pensar em seu final de semana!<\/p>\n<p><i>H\u00e1 alguns dias, Deus &#8211; ou isso que chamamos assim, t\u00e3o descuidadamente, de Deus &#8211; enviou-me certo presente amb\u00edguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, tamb\u00e9m com descuido e alguma pressa, de amor. E voc\u00ea sabe a que me refiro.<\/p>\n<p>Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou n\u00e3o ir, querer ou n\u00e3o querer &#8211; eu j\u00e1 estava l\u00e1 dentro. E estar dentro daquilo era bom. N\u00e3o me entenda mal &#8211; n\u00e3o aconteceu qualquer intimidade dessas que voc\u00ea certamente imagina. Na verdade, n\u00e3o aconteceu quase nada. Dois ou tr\u00eas almo\u00e7os, uns sil\u00eancios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de &#8220;minha vida&#8221;. Outros fragmentos, daquela &#8220;outra vida&#8221;. De repente cruzadas ali, por puro mist\u00e9rio, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou \u00e1gua, entre casquinhas de p\u00e3o e cinzeiros cheios que os gar\u00e7ons rapidamente esvaziavam para que nos sent\u00edssemos limpos. E nos sent\u00edamos.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, voc\u00ea sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magn\u00e9tico daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me recoheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah voc\u00ea n\u00e3o come a\u00e7\u00facar, ah voc\u00ea n\u00e3o bebe u\u00edsque, ah voc\u00ea \u00e9 do signo de libra. Tra\u00e7ando esbo\u00e7os, os dois. Tateando tra\u00e7os difusos, vagas promessas.<\/p>\n<p>Nunca mais sair do centro daquele espa\u00e7o para as duras ruas an\u00f4nimas. Nunca mais sair daquele colo quente que \u00e9 ter uma face para voc\u00ea, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o cora\u00e7\u00e3o. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obssessivo do conto de Clarice Lispector &#8211; Tenta\u00e7\u00e3o &#8211; na cabe\u00e7a estonteada de encanto: &#8220;Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua inf\u00e2ncia imposs\u00edvel.&#8221;. Cito de mem\u00f3ria, n\u00e3o sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau \u00e0s tr\u00eas da tarde, com um c\u00e3o basset tamb\u00e9m ruivo, que passa acorrentado. Ele p\u00e1ra. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa, ele se vai. E nada acontece.<\/p>\n<p>De mais a mais, eu n\u00e3o queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir n\u00e3o. A n\u00e3o ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. N\u00e3o velejou. Al\u00e9m disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solit\u00e1ria do n\u00e3o-pedir. S\u00f3 compreendi dias depois, quando um amigo me falou &#8211; descuidado, tamb\u00e9m &#8211; em pequenas epifanias. Miudinhas, quase p\u00edfias revela\u00e7\u00f5es de Deus feito j\u00f3ias encravadas no dia a dia.<\/p>\n<p>Era isso &#8211; aquela outra vida, inesperadamente misturada \u00e0 minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a dist\u00e2ncia, a poeira soprando. Mas eu trouxe de l\u00e1 a mem\u00f3ria de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de aus\u00eancia e fome. Sobretudo \u00e0 noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando pra tr\u00e1s das janelas, vendo o que ningu\u00e9m veria.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou t\u00e3o r\u00e1pido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos h\u00e1 tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabe\u00e7a, agradecido. E se estendo a m\u00e3o, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar tamb\u00e9m em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, tra\u00e7o a tra\u00e7o, quando estou s\u00f3 e tenho medo.<\/p>\n<p>Sorrio, ent\u00e3o. E quase paro de sentir fome.<\/i><\/p>\n<p>Acho que vou pedir <i>Pequenas Epifanias<\/i> para o meu amigo secreto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No come\u00e7o da semana, citei a Feira do Livro de Porto Alegre e um artigo de Zuenir Ventura, sobre a voca\u00e7\u00e3o cultural de Porto Alegre. 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