{"id":1205,"date":"2006-04-14T23:07:52","date_gmt":"2006-04-15T02:07:52","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/ensinar-a-tristeza"},"modified":"2006-04-14T23:07:52","modified_gmt":"2006-04-15T02:07:52","slug":"ensinar-a-tristeza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/ensinar-a-tristeza\/","title":{"rendered":"Ensinar a tristeza"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/denovo.gif\" align=\"right\">Mais um texto gelado sa\u00eddo do fundo da gaveta, a prop\u00f3sito deste feriado devagar, praticamente parando. Nas \u00faltimas semanas, repensei minha <a href=\"\/blog\/2006\/03\/20\/1517\"><b>teoria est\u00fapida sobre felicidade<\/b><\/a>: como deixar de se preocupar com pessoas que, diante dos percal\u00e7os do dia-a-dia, revelam-se desanimadas, tristes&#8230; Como se n\u00e3o fizessem nada para mudar de id\u00e9ia.<\/p>\n<p>Procurei algum artigo que pudesse me fazer pensar sobre os benef\u00edcios da tristeza. Encontrei esse texto do Rubem Alves, publicado na <i>Folha de S. Paulo<\/i> em outubro do <s>m\u00eas<\/s> ano passado (arrumado, Vinicius! Obrigado!). Dele retirei uma frase que certamente vou usar outras vezes: &#8220;a alma se alimenta de coisas que n\u00e3o existem&#8221;. Como voc\u00ea est\u00e1 a\u00ed empanturrado de chocolate e bacalhau, n\u00e3o deixe de ler o artigo todo.<\/p>\n<p><i>Fui apresentado \u00e0 poesia da Helena Kolody (1912-2004) poucas semanas atr\u00e1s. Foi uma descoberta gostosa. N\u00e3o porque seus poemas sejam alegres. Todos eles t\u00eam uma pitada de tristeza. A beleza vem sempre misturada \u00e0 tristeza. Chamou a minha aten\u00e7\u00e3o este m\u00ednimo poema: &#8220;Buscas ouro nativo entre a ganga da vida. Que esperan\u00e7a infinita no ilus\u00f3rio trabalho&#8230; Para cada pepita, quanto cascalho&#8221; (&#8220;Helena Kolody&#8221;, Positivo, Curitiba). Mantenho o h\u00e1bito de ler as Escrituras Sagradas. Leio como quem garimpa ouro. Para achar uma pequena pepita, quanto cascalho h\u00e1 de se jogar fora! Acho at\u00e9 que foi arte de Deus. Foi ele mesmo quem misturou cascalho e pepitas, para separar os maus dos bons leitores. Os maus leitores n\u00e3o sabem separar as pepitas do cascalho.<\/p>\n<p>Tristeza ser\u00e1 coisa que se ensine? Haver\u00e1 uma pedagogia da tristeza? Estranho pensar que um professor, ao iniciar o seu dia, possa dizer para si mesmo: &#8220;Hoje vou ensinar tristeza aos meus alunos&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Em meio ao cascalho, encontrei esta pepita: &#8220;Melhor \u00e9 a tristeza do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o cora\u00e7\u00e3o&#8221;. Esse texto me apareceu na mem\u00f3ria quando eu pensava sobre aquela pergunta sem resposta que deixei ao final do meu \u00faltimo artigo: &#8220;Como se pode ensinar compaix\u00e3o?&#8221;. A compaix\u00e3o \u00e9 triste? Ensinar compaix\u00e3o ser\u00e1 ensinar a tristeza? Tristeza ser\u00e1 coisa que se ensine? Haver\u00e1 uma pedagogia da tristeza? Estranho pensar que um professor, ao iniciar o seu dia, possa dizer para si mesmo: &#8220;Hoje vou ensinar tristeza aos meus alunos&#8230;&#8221; Eu mesmo nunca havia pensado nisso.<\/p>\n<p>Todos os terapeutas, n\u00e3o importa qual seja a sua seita, em \u00faltima inst\u00e2ncia, todos eles est\u00e3o envolvidos em uma batalha contra a tristeza. E, agora, eu digo este absurdo, que tristeza \u00e9 para ser ensinada para fazer melhor ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os poetas me entendem. Isso porque a poesia nasce da tristeza. &#8220;Mas eu fico triste como um p\u00f4r de sol (&#8230;) quando esfria no fundo da plan\u00edcie e se sente a noite entrada como uma borboleta pela janela&#8221;, escreveu Alberto Caeiro, um dos heter\u00f4nimos do poeta portugu\u00eas Fernando Pessoa. E conclui: &#8220;Mas a minha tristeza \u00e9 sossego porque \u00e9 natural e justa e \u00e9 o que deve estar na alma&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>Num outro lugar, o pr\u00f3prio Pessoa escreveu: &#8220;Ah! A imensa felicidade de n\u00e3o precisar estar alegre&#8230;&#8221; Existe uma perturba\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica ainda n\u00e3o identificada como doen\u00e7a. Ela aparece num tipo a que dei o nome de &#8220;o alegrinho&#8221;. O alegrinho \u00e9 aquela pessoa que est\u00e1, o tempo todo, esbanjando alegria, dizendo coisas engra\u00e7adas e querendo que os outros riam. Ele \u00e9 um flagelo. Perto dele, ningu\u00e9m tem a liberdade de estar triste. Perto dele todo mundo precisa estar alegre. Ele n\u00e3o consegue estar triste, o alegrinho n\u00e3o consegue ouvir a beleza dos noturnos do m\u00fasico franc\u00eas Fr\u00e9d\u00e9ric Chopin (1810-1849) nem sentir as sutilezas da poesia da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) nem gozar o sil\u00eancio do crep\u00fasculo. Porque ele est\u00e1 sempre alegrinho, ele n\u00e3o consegue sentir compaix\u00e3o. Compaix\u00e3o \u00e9 sentir a tristeza de um outro.<\/p>\n<p>Contei do menino que chorou ao ler a hist\u00f3ria &#8220;O Patinho que N\u00e3o Aprendeu a Voar&#8221;. Aconteceu assim: o seu pai comprou o livro esperando que ele fizesse o filho dar muitas risadas. Voltou no dia seguinte, muito bravo. Trazia o livro na m\u00e3o, para devolv\u00ea-lo. Em vez de dar risadas, ao final da hist\u00f3ria seu filho se p\u00f4s a chorar.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9, de fato, triste. Eu a escrevi para o meu filho, que estava passando por uma crise de vagabundagem. O seu prazer nas vagabundagens era tanto que ele n\u00e3o queria saber de aprender. O patinho tamb\u00e9m n\u00e3o queria saber de aprender. Quando chegou a esta\u00e7\u00e3o das migra\u00e7\u00f5es, seus irm\u00e3os bateram asas e voaram. Ele teve de ficar.<\/p>\n<p>O menininho tinha raz\u00f5es para chorar? N\u00e3o. As raz\u00f5es do seu choro n\u00e3o eram dele. Ele sofria o sofrimento do patinho, mas o patinho n\u00e3o existia. Era apenas um personagem inventado de uma hist\u00f3ria do mundo do &#8220;era uma vez&#8221;, e o menino sabia disso. A despeito disso, ele chorava. Aqui est\u00e1 um dos grandes mist\u00e9rios da alma humana: a alma se alimenta de coisas que n\u00e3o existem.<\/p>\n<p>Eu havia levado minha filha de seis anos para ver o &#8220;ET&#8221;, do Steven Spielberg. No fim do filme, ela chorava convulsivamente. Jantou chorando. Resolvi fazer uma brincadeira: &#8220;Vamos para o jardim ver a estrelinha do ET!&#8221;. Fomos, mas o c\u00e9u estava coberto de nuvens. N\u00e3o se via a estrelinha do ET. Improvisei. Corri para tr\u00e1s de uma \u00e1rvore e disse: &#8220;O ET est\u00e1 aqui!&#8221;. Ela me disse: &#8220;N\u00e3o seja tolo, papai. O ET n\u00e3o existe!&#8221;. Contra-ataquei: &#8220;N\u00e3o existe? E por que voc\u00ea estava chorando, se ele n\u00e3o existe?&#8221;. Veio a resposta definitiva: &#8220;Eu estava chorando porque o ET n\u00e3o existe&#8221;.<\/p>\n<p>Volto ent\u00e3o \u00e0 pergunta que fiz sem saber a resposta. O menino chorou ao ler a hist\u00f3ria do patinho, mas o patinho n\u00e3o existia. Minha filha chorou ao ver o filme do ET, mas o ET n\u00e3o existia. Pensei, ent\u00e3o, que um caminho para ensinar compaix\u00e3o, que \u00e9 o mesmo caminho para ensinar a tristeza, s\u00e3o as artes que trazem \u00e0 exist\u00eancia as coisas que n\u00e3o existem: a literatura, o cinema, o teatro. As artes produzem a beleza. E a beleza enche os olhos d&#8217;\u00e1gua. Como dizem as Escrituras Sagradas, &#8220;com a tristeza do rosto se faz melhor o cora\u00e7\u00e3o&#8221;. <\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais um texto gelado sa\u00eddo do fundo da gaveta, a prop\u00f3sito deste feriado devagar, praticamente parando. Nas \u00faltimas semanas, repensei minha teoria est\u00fapida sobre felicidade: como deixar de se preocupar com pessoas que, diante dos percal\u00e7os do dia-a-dia, revelam-se desanimadas, tristes&#8230; Como se n\u00e3o fizessem nada para mudar de id\u00e9ia. Procurei algum artigo que pudesse [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21],"tags":[],"class_list":["post-1205","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-plantao-marmota"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1205","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1205"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1205\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1205"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1205"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1205"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}