{"id":120,"date":"2009-03-25T16:07:14","date_gmt":"2009-03-25T19:07:14","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/quando-peguei-o-trem-com-dias-gomes"},"modified":"2009-03-25T16:07:14","modified_gmt":"2009-03-25T19:07:14","slug":"quando-peguei-o-trem-com-dias-gomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/quando-peguei-o-trem-com-dias-gomes\/","title":{"rendered":"Quando peguei o trem com Dias Gomes"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/capitulos.gif\" align=\"right\" \/>Eu devia ter uns sete, oito anos, quando ouvi falar em <b>Saramandaia<\/b>. Foi numa tarde serelepe, onde mesmo ap\u00f3s almo\u00e7ar, n\u00e3o parava de abrir as portas dos arm\u00e1rios e da geladeira em busca de acepipes. Minha m\u00e3e, apavorada, foi taxativa:<\/p>\n<p>&#8211; Meu filho, se continuar assim, vai explodir como a Dona Redonda.<\/p>\n<p>Quem?<\/p>\n<p>Seguiu-se uma explica\u00e7\u00e3o sobre o universo fant\u00e1stico criado por Dias Gomes. Wilza Carla, que interpretava a personagem, simplesmente explodia de tanto comer. Havia ainda um coronel que tirava formigas do nariz, uma mo\u00e7a fogosa no sentido literal da palavra, um estranho professor insone que virava lobisomem e um vision\u00e1rio que sonhava em criar asas e voar &#8211; ao som de Ednardo cantando Pav\u00e3o Mysteriozo.<\/p>\n<p>S\u00f3 de ouvir falar, fiquei fascinado. Deve ser assim que uma crian\u00e7a de sete, oito anos, se sente ao descobrir a exist\u00eancia de, mmmhhh, mutantes em uma novela (vamos esclarecer: longe de mim comparar literatura de cordel com quadrinhos de segunda). Perguntei ingenuamente a que horas poderia assistir a saga, sem imaginar que a trama foi exibida em 1976\u2026<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/090325_expressobrasil.jpg\" align=\"right\" \/>S\u00f3 fui entender quem era Dona Redonda anos mais tarde, em algum Video Show. Quem n\u00e3o conhecia este universo, no entanto, foi convidado a embarcar num trem com essa turma numa experi\u00eancia in\u00e9dita na hist\u00f3ria da TV: uma mini-novela patrocinada. A Vicunha, conhecida ind\u00fastria t\u00eaxtil, numa a\u00e7\u00e3o da Fisher Am\u00e9rica, encomendou o trabalho \u00e0 Rede Globo.<\/p>\n<p>Assim nasceu o <b>Expresso Brasil<\/b>, que tinha Dias Gomes como \u201cprojetista\u201d (autor) e Paulo Jos\u00e9 de \u201cmaquinista\u201d (diretor). A id\u00e9ia era genial: o trem cruzava o pa\u00eds, com escalas em Sucupira, Asa Branca e Bole-Bole (ali\u00e1s, a cidade mudou ou n\u00e3o de nome?). Nos vag\u00f5es, personagens inesquec\u00edveis de <b>O Bem Amado<\/b>, <b>Roque Santeiro<\/b> e <b>Saramandaia<\/b>, como Vi\u00fava Porcina, Zico Rosado e Dirceu Borboleta se encontravam casualmente.<\/p>\n<p>Com o Trenzinho Caipira de Villa-Lobos ao fundo, Lima Duarte aparecia no trem como Zeca Diabo e Sinhozinho Malta. Paulo Gracindo era, al\u00e9m de Odorico Paragua\u00e7u, o bicheiro Tuc\u00e3o de Bandeira 2. Imagine um encontro entre as Irm\u00e3s Cajazeiras e Dona Pombinha. Ou o discreto e impag\u00e1vel di\u00e1logo entre os \u201clobisomens\u201d Astromar, de Roque Santeiro, e Arist\u00f3bulo, de Saramandaia:<\/p>\n<p>&#8211; E a\u00ed, tem virado muito?<br \/>\n&#8211; S\u00f3 em noites de lua cheia, de quinta pra sexta preferencialmente. E voc\u00ea?<br \/>\n&#8211; Tooodas as noooites\u2026 (suspiro de Arist\u00f3bulo).<\/p>\n<p>Aproveitando a licen\u00e7a po\u00e9tica do trem, Dias Gomes tratou de embarcar alguns convidados especiais. Luiz Gustavo auareceu como L\u00e9o (Te Contei?), M\u00e1rio Fofoca (Elas por Elas) e Victor Valentim (Ti Ti Ti), todas cria\u00e7\u00f5es de Cassiano Gabus Mendes. Teve ainda tr\u00eas personagens de Gabriela: o Nacib de Armando B\u00f3gus, o Tonico Bastos de F\u00falvio Stefanini e a Maria Machad\u00e3o de Elo\u00edsa Mafalda.<\/p>\n<p>Foram 40 epis\u00f3dios de cinco minutos, exibidos entre o Jornal Nacional e a novela O Outro, no segundo semestre de 1987. O \u00faltimo cap\u00edtulo homenageia o autor de maneira inusitada: Dias Gomes \u00e9 descoberto como um dos passageiros do Expresso Brasil, provocando uma aglomera\u00e7\u00e3o de personagens, indignados com seus destinos, loucos para tirar satisfa\u00e7\u00e3o. At\u00e9 que o simp\u00e1tico bilheteiro anuncia: \u201cpr\u00f3xima parada: fim da linha!\u201d.<\/p>\n<p>O publicit\u00e1rio Eduardo Fischer, nesta <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4BbW7zRNbfM\" target=\"\u201d_blank\u201d\">entrevista<\/a> ao Adonis Alonso, relembra o quanto foi divertido conceber a mini-novela, trabalho que pode ser considerado o primeiro case de \u201cbrand entertainment\u201d da televis\u00e3o brasileira. E \u00e9 incr\u00edvel pensar que, em mais de vinte anos, n\u00e3o houve nenhuma a\u00e7\u00e3o semelhante\u2026<\/p>\n<p>J\u00e1 pensaram numa segunda locomotiva, com personagens de Aguinaldo Silva, por exemplo? Ou, de repente, Gl\u00f3ria Perez poderia fechar a Estudantina para uma gafieira exclusiva &#8211; j\u00e1 posso ver a Dona Jura se requebrando na frente do punk Reginaldo\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu devia ter uns sete, oito anos, quando ouvi falar em Saramandaia. 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