{"id":112,"date":"2007-11-25T23:51:41","date_gmt":"2007-11-26T02:51:41","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/as-pessoas-mudam-ate-seus-fantasmas"},"modified":"2007-11-25T23:51:41","modified_gmt":"2007-11-26T02:51:41","slug":"as-pessoas-mudam-ate-seus-fantasmas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/as-pessoas-mudam-ate-seus-fantasmas\/","title":{"rendered":"As pessoas mudam. At\u00e9 seus fantasmas."},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>A primeira vez que lembro ter sentido algo diferente por algu\u00e9m do sexo feminino foi em 1988. Eu e a mocinha em quest\u00e3o divid\u00edamos o posto de &#8220;mais inteligentes da  quinta s\u00e9rie&#8221;. Durante alguns meses, as duas panelinhas mais fortes da classe eram as menininhas da frente, ao redor dela, e a turma do fund\u00e3o, onde eu sempre fiquei. Olhando para tr\u00e1s, lamento por essa divis\u00e3o imbecil: poderia ter come\u00e7ado ali, aos 11 anos, um tratamento de choque capaz de acostumar meus sentimentos aos meus trope\u00e7os.<\/p>\n<p>Mas enfim. Longos anos depois &#8211; uns 15, pelo menos &#8211; eu fiz algo fora de prop\u00f3sito. Gra\u00e7as ao poder dessa poderosa rede de informa\u00e7\u00f5es, foi f\u00e1cil jogar o nome completo dela e descobrir o telefone da \u00e9poca. Minhas m\u00e3os tremiam com o gancho na m\u00e3o, mas n\u00e3o desisti. Disquei, esperei chamar e ser atendido. Depois do &#8220;al\u00f4&#8221;, ainda levou alguns segundos at\u00e9 ela lembrar &#8220;quem diabos era esse sujeito que, depois de tanto tempo, resolveu ligar&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar o tamanho de uma surpresa como essa. Talvez aquele telefonema permane\u00e7a tamb\u00e9m na mem\u00f3ria dela, j\u00e1 que foi o primeiro e \u00faltimo. Come\u00e7amos com aquele papinho bobo de praxe: quanto tempo, como voc\u00ea est\u00e1, e a fam\u00edlia, o que anda fazendo, tem not\u00edcias do pessoal. Minha habilidade jornal\u00edstica em elaborar uma pergunta relevante, mas discretamente, foi acionada na primeira oportunidade. &#8220;Puxa, seu sobrenome \u00e9 o mesmo&#8230; Quer dizer que voc\u00ea n\u00e3o casou, certo?&#8221;.<\/p>\n<p>Quanta intelig\u00eancia. Diante daquilo, tive que admitir que realmente &#8220;cacei&#8221; o nome dela na Internet,  atitude de qualquer solteiro desesperado. De todas as palavras ditas por ela naquele telefonema, lembro apenas do &#8220;n\u00e3o, eu me casei h\u00e1 dois anos&#8221; e do &#8220;nossa, nem queira me ver, estou longe de ser a mesma pessoa dos tempos do gin\u00e1sio&#8221;. Ela n\u00e3o entrou em detalhes, deixando milh\u00f5es de lacunas no ar: que tipo de baranga ou coisa do g\u00eanero havia encapsulado minha paix\u00e3o inocente da quinta s\u00e9rie?<\/p>\n<p>Lembrei dessa hist\u00f3ria esses dias, num animado encontrinho de ex-companheiros da faculdade na Vila Madalena. Epis\u00f3dio que reuniu dois desafios bem maiores que aquele telefonema: andar de carro naquela porcaria de bairro em uma noite de s\u00e1bado e rever outra das minhas paix\u00f5es n\u00e3o correspondidas. Quer dizer, uma das mais fascinantes, a ponto de ter sido uma das poucas que realmente ouviram isso da minha boca. Fazia muito tempo que ela estava na minha lista batizada de &#8220;n\u00e3o insista, deixe-a viver em paz, n\u00e3o estrague as suas lembran\u00e7as e nem deixe a realidade massacrar essa vis\u00e3o plat\u00f4nica e ing\u00eanua&#8221;.<\/p>\n<p>Felizmente, n\u00e3o estava sozinho: uma amiga comum, que conhece as minhas dificuldades com auto-estima e confian\u00e7a, estava l\u00e1 para servir, indiretamente, de &#8220;prote\u00e7\u00e3o&#8221;. Convers\u00e1vamos felizes enquanto ela permanecia em outro canto da mesa, n\u00e3o menos feliz. Vez ou outra ela at\u00e9 lembrava da minha presen\u00e7a ali&#8230; Mas preferia dan\u00e7ar e sorrir, aproveitando a noite sem remexer qualquer lembran\u00e7a. E eu consegui deixar o barzinho aliviado: era mais um fantasma desmistificado em minha cabe\u00e7a oca. At\u00e9 um breve abra\u00e7o, seguido por um &#8220;at\u00e9 outra hora&#8221;, eu pude lhe dar.<\/p>\n<p>Logo depois, veio a inevit\u00e1vel curiosidade da minha amiga. &#8220;E a\u00ed, como foi rev\u00ea-la?&#8221;. Disse a verdade: foi tranquilo, ela estava diferente daquela mo\u00e7a que havia conhecido. &#8220;Ah, mas ainda que voc\u00ea pense que n\u00e3o mudou, voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o mesmo da faculdade&#8221;, devolveu. Prossegui com um coment\u00e1rio bastante ego\u00edsta: para o bem das nossas mem\u00f3rias, algumas pessoas deviam ficar no passado, junto com decis\u00f5es e escolhas mal feitas relacionados a elas. &#8220;Deixe de ser idiota. Voc\u00ea precisa \u00e9 lidar com o que est\u00e1 por vir, com as muitas coisas que a vida pode te dar, e n\u00e3o com esse seu bauzinho in\u00fatil do passado, cheio dessas coisas que n\u00e3o foram como gostar\u00edamos que tivessem sido&#8221;.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, preciso lembrar que as pessoas mudam. E eu tamb\u00e9m devia mudar de vez em quando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira vez que lembro ter sentido algo diferente por algu\u00e9m do sexo feminino foi em 1988. Eu e a mocinha em quest\u00e3o divid\u00edamos o posto de &#8220;mais inteligentes da quinta s\u00e9rie&#8221;. 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