{"id":109,"date":"2007-11-22T23:44:01","date_gmt":"2007-11-23T02:44:01","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/a-intolerancia-sob-os-olhos-de-um-garcom"},"modified":"2007-11-22T23:44:01","modified_gmt":"2007-11-23T02:44:01","slug":"a-intolerancia-sob-os-olhos-de-um-garcom","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/a-intolerancia-sob-os-olhos-de-um-garcom\/","title":{"rendered":"A intoler\u00e2ncia sob os olhos de um gar\u00e7om"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\" \/>Enquanto a maioria dos brasileiros vagabundearam ou reclamaram do plant\u00e3o no \u00faltimo dia 16 de novembro, o mundo celebrou o Dia Internacional da Toler\u00e2ncia. Na verdade, a data deveria ser clich\u00ea como o Dia das M\u00e3es ou o da Crian\u00e7a: lembrada e comemorada todos os dias. Afinal, o que n\u00e3o falta nesse mundinho besta \u00e9 gente arrogante, prepotente, egoc\u00eantrica, violenta e indiferente, todas o pretexto de &#8220;se desenvolver e atingir destaque em nossa sociedade&#8221; &#8211; ou pior, sem pretexto algum.<\/p>\n<p>Mas enfim. O desabafo acima \u00e9 s\u00f3 uma introdu\u00e7\u00e3o metida \u00e0 besta para um caso de intoler\u00e2ncia particular. Sempre achei que tivesse paci\u00eancia o suficiente para viver sem esquentar com qualquer bobagem &#8211; at\u00e9 porque, a vida nos oferece um prato cheio de xiitas verborr\u00e1gicos e covardes acomodados para derreter os miolos. Infelizmente, constatei esses dias que n\u00e3o \u00e9 bem assim. Ali\u00e1s, foi justamente em 20 de novembro, no tal <a href=\"http:\/\/www.interney.net\/blogs\/aomirante\/2007\/11\/20\/feriado_do_dia_da_consciencia_pesada_par\" target=\"_blank\"><b>&#8220;dia da consci\u00eancia pesada&#8221;<\/b><\/a>.<\/p>\n<p>A noite estava chegando ao fim, e uma por\u00e7\u00e3o de gente descolada ocupava todos os espa\u00e7os de uma pizzaria-balada na Rua Augusta, bem na frente da Fernando de Albuquerque. Em nossa mesa, alta rotatividade de gente muito bacana: foram quatro horas de bate-papo da melhor qualidade. Tudo caminhava na mais perfeita harmonia, at\u00e9 eu pedir minha segunda latinha de Coca Cola.<\/p>\n<p>O gar\u00e7om, esp\u00e9cie de Paulinho da Viola mais novo (e t\u00e3o discreto quanto), havia esquecido da primeira ordem: foi necess\u00e1rio um cordial &#8220;chefia, eu pedi uma Coca h\u00e1 uns dez minutos, acho que n\u00e3o anotaram&#8221;. Repare no discurso impessoal, sem qualquer ofensa. Pouco tempo depois, l\u00e1 vinha o Paulinho (j\u00e1 devidamente batizado assim) com tr\u00eas latinhas.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, rapaz, a Coca Cola acabou. Mas eu tenho Fanta uva, Fanta normal e Sukita.<\/p>\n<p>Mas que decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Como assim? Nem Guaran\u00e1? Nem Soda? S\u00f3 isso???<\/p>\n<p>Era s\u00f3 isso. Fui obrigado a pedir uma \u00e1gua, sem g\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1 vendo? Se voc\u00ea gostasse de cerveja, n\u00e3o passaria por esse perrengue &#8211; disse um amigo. Pura intoler\u00e2ncia com quem n\u00e3o bebe.<\/p>\n<p>As chegadas e partidas em nossa mesa permaneciam intensas. Paulinho quase n\u00e3o aparecia, apenas trocava uma garrafa \u00e2mbar vazia por outra. At\u00e9 que uma das mo\u00e7as decidiu pedir um refrigerante.<\/p>\n<p>&#8211; Ih, nem adianta. Ele vai vir com tr\u00eas latinhas intrag\u00e1veis para voc\u00ea.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e9rio? Mas n\u00e3o tem Coca Light? &#8211; perguntou ela.<\/p>\n<p>Sem piscar, Paulinho respondeu: &#8211; Tem, sim.<\/p>\n<p>Foi meu primeiro olhar de incompreens\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao gar\u00e7om, que certamente nem lembrava mais por qu\u00ea motivo eu estava com aquela cara. A mesa j\u00e1 estava em contagem regressiva para zarpar, e eu j\u00e1 tinha pedido tr\u00eas garrafinhas de \u00e1gua sem g\u00e1s. At\u00e9 que o \u00faltimo dos retardat\u00e1rios decidiu fazer seu primeiro pedido.<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed, chefia! Tem Coca Cola?<\/p>\n<p>Respondi pelo gar\u00e7om: n\u00e3o tinha mais, s\u00f3 aquelas laranjadas fosforescentes e aquela outra coca com gosto de caramelo.<\/p>\n<p>&#8211; Tem, sim. Vai querer? &#8211; corrigiu Paulinho.<\/p>\n<p>Ah, n\u00e3o. Levantei da cadeira, ergui as m\u00e3os e agi como um segurado do INSS na fila. Mas que palha\u00e7ada \u00e9 essa? Ent\u00e3o por que eu estava tomando \u00e1gua???<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que chegou, mo\u00e7o. Quer tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>Obrigado por avisar, seu palha\u00e7o. A mesa logo reagiu, contendo os meus \u00e2nimos.<\/p>\n<p>&#8211; Calma, cara. Relaxe. N\u00e3o fique assim, senta a\u00ed e desencana. Fique feliz, a noite est\u00e1 t\u00e3o bacana&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Olha s\u00f3, vou me colocar no lugar dele. J\u00e1 \u00e9 tarde da noite, e o cara est\u00e1 trabalhando sabe-se l\u00e1 quantas horas. E \u00e9 feriado. Voc\u00ea passou o dia tranquilo, como a maioria aqui. Ele n\u00e3o, coitado. D\u00ea um desconto a ele.<\/p>\n<p>Pronto, a incompet\u00eancia do Paulinho havia me transformado num intolerante cruel. Mais um desses cidad\u00e3os alheios \u00e0 pobreza do mundo. E n\u00e3o estou me referindo aos valores materiais, mas ao maior deles: a nossa pr\u00f3pria vida, e o quanto cada um de n\u00f3s \u00e9 \u00fanico, formando uma rica e f\u00e9rtil diversidade cultural. Isso deve ser preservado, respeitado e defendido. N\u00e3o dev\u00edamos segregar o outro por qualquer raz\u00e3o, mas sim valorizarmos essa riqueza e ter prazer com ela. Deixemos nossa intoler\u00e2ncia para o que realmente merece: ela mesma. Um viva \u00e0s diferen\u00e7as e ao Paulinho da Viola.<\/p>\n<p>&#8211; Isso mesmo. Vai l\u00e1, pede uma Coca Cola e seja feliz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto a maioria dos brasileiros vagabundearam ou reclamaram do plant\u00e3o no \u00faltimo dia 16 de novembro, o mundo celebrou o Dia Internacional da Toler\u00e2ncia. Na verdade, a data deveria ser clich\u00ea como o Dia das M\u00e3es ou o da Crian\u00e7a: lembrada e comemorada todos os dias. 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