{"id":107,"date":"2007-11-20T23:28:52","date_gmt":"2007-11-21T02:28:52","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/as-muitas-historias-do-casarao-de-brumado"},"modified":"2007-11-20T23:28:52","modified_gmt":"2007-11-21T02:28:52","slug":"as-muitas-historias-do-casarao-de-brumado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/as-muitas-historias-do-casarao-de-brumado\/","title":{"rendered":"As muitas hist\u00f3rias do Casar\u00e3o de Brumado"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\/2050567722\/\" title=\"Chimarreando na varanda, contemplando a alvorada\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/071120_sitiodojuiz_mate.jpg\" alt=\"O casar\u00e3o\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/ilustrado.gif\" align=\"right\" \/>Em cada cantinho in\u00f3spito desse imenso pa\u00eds, existe pelo menos uma grande hist\u00f3ria que precisa ser contada, espalhada e registrada para a posteridade. Essa foi a conclus\u00e3o que cheguei ao ficar por pelo menos 24 horas do meu agitado feriado prolongado quase no meio do nada.<\/p>\n<p>Foram meus pais e meu irm\u00e3o que descobriram essa rica moradia, parecida com o cen\u00e1rio de uma novela das seis com a Luc\u00e9lia Santos e o Rubens de Falco. O lugar fica em uma estrada de terra, que liga a rodovia Amparo-Itapira a Serra Negra. Para quem vem nesse sentido, fica logo depois a uma antiga esta\u00e7\u00e3o de trem, batizada Brumado, um dos poucos ind\u00edcios de que ali passava uma ferrovia.<\/p>\n<p>N\u00e3o tive o prazer de conhecer a peculiar figura do &#8220;tio Jo\u00e3o&#8221;, sujeito respons\u00e1vel pela venda  e aluguel de algumas casas, ch\u00e1caras e s\u00edtios naqueles arredores. Ficou nas m\u00e3os desse ex\u00edmio contador de hist\u00f3rias a responsabilidade de conservar o legado de um lugar que, em pleno s\u00e9culo 18, foi o lar de um rico &#8220;bar\u00e3o do caf\u00e9&#8221; &#8211; com direito a uma ampla senzala e confort\u00e1veis correntes de ferro para os escravos.<\/p>\n<p align=\"center\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\/2049780887\/\" title=\"H\u00e1 alguns anos, havia uma churrasqueira ali.\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/071120_sitiodojuiz_churrasco.jpg\" alt=\"O casar\u00e3o\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quem desembarca nos dias de hoje esbarra numa por\u00e7\u00e3o de refer\u00eancias, como o alt\u00edssimo p\u00e9 direito, o teto forrado por madeira maci\u00e7a, as portas e janelas enormes, o casar\u00e3o branco e seus detalhes azul-desbotado, a varanda, os bala\u00fastres, as escadas e muros em pedra&#8230; Tamb\u00e9m encontra benfeitorias completamente abandonadas, como uma churrasqueira e um viveiro de p\u00e1ssaros sem a cobertura de sap\u00ea. Sem falar em alguns quartos e ambientes tomados por mofo e cupins.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\/2050568726\/\" title=\"Alvorada na piscina\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/071120_sitiodojuiz_alvorada.jpg\" border=\"0\" align=\"right\" alt=\"Casar\u00e3o em Brumado\" \/><\/a>De qualquer forma, deve haver em algum lugar registros hist\u00f3ricos que preencham essa imensa lacuna entre os tempos da Lei \u00c1urea e o final do s\u00e9culo 20, \u00e9poca em que a gigantesca fazenda j\u00e1 estava devidamente retalhada. Alguns vest\u00edgios se sobrep\u00f5em, como nos arcos de ferro sobre as portas: uma refere-se ao ano de 1895; a outra, 1987. \u00c9 f\u00e1cil presumir quais elementos comemoram seus 20 anos de exist\u00eancia: todos os quartos ganharam banheiros em alvenaria. A antiga senzala foi transformada em sal\u00e3o de jogos, com mesas de p\u00f4quer e um sofisticado bar (hoje ao relento). Uma piscina bem cuidada (e ainda em ordem) contrasta com os recantos largados. E em pelo menos 11 c\u00f4modos, ainda restam algumas caixinhas e fios do que j\u00e1 foi um curioso sistema de interfones.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e sempre diz que, se ela pudesse voltar no tempo, teria feito uma faculdade de hist\u00f3ria. Tamb\u00e9m poderia ter sido jornalismo, outra profiss\u00e3o movida pela curiosidade em investigar o passado para entender o presente. Foi em uma conversa informal no alambique da fam\u00edlia Carra, perto dali, que ela ouviu falar no juiz Alfredo Mendes, talvez o mais conhecido entre os antigos moradores daquele s\u00edtio. Foi ele que comprou o casar\u00e3o e suas benfeitorias em 1985, reformando-o logo em seguida. Al\u00e9m do sal\u00e3o de jogos, da piscina, dos banheiros e do sistema de interfones, espalhou pela casa motivos espanh\u00f3is: cartazes e um toureiro de porcelana, comprados em uma viagem \u00e0 Espanha.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\/2050571194\/\" title=\"Um simp\u00e1tico toureiro.\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/071120_sitiodojuiz_toureiro.jpg\" border=\"0\" align=\"right\" alt=\"Casar\u00e3o em Brumado\" \/><\/a>A hist\u00f3ria de Alfredo Mendes, segundo a turma do alambique, n\u00e3o \u00e9 das mais felizes. Anos mais tarde, seu carro foi encontrado incendiado na beira de uma estrada, em circunst\u00e2ncias jamais explicadas. Seu corpo nunca foi encontrado. As suspeitas, todas sem qualquer evid\u00eancia, recaem sobre um dos filhos, um tal Marquito. &#8220;Ele n\u00e3o se dava bem com eles. E voc\u00ea sabe, n\u00e9&#8230; Pessoas muito inteligentes podem ser perigosas&#8230;&#8221;, completou um dos guardi\u00f5es da sabedoria popular.<\/p>\n<p>A lenda n\u00e3o acaba a\u00ed. Diziam, na \u00e9poca do crime, que o corpo do juiz havia sido enterrado no est\u00e1bulo, outro mist\u00e9rio que nunca foi confirmado. O pr\u00f3prio &#8220;tio Jo\u00e3o&#8221; garante que isso \u00e9 bobagem. &#8220;Eu mesmo mandei o pessoal cavocar tudo ali, e ningu\u00e9m achou nada&#8221;. Evidentemente, a frase foi dita no fim da estadia, quando meus pais lhe deu algumas dessas &#8220;p\u00edlulas&#8221; em forma de causos.<\/p>\n<p align=\"center\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/marmota\/2050566524\/\" title=\"O est\u00e1bulo \u00e9 aquela casa maior, \u00e0 direita.\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/071120_sitiodojuiz_estabulo.jpg\" alt=\"O casar\u00e3o\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<p>&#8220;Mas isso j\u00e1 faz tempo. Depois dele, at\u00e9 o Roberto Carlos j\u00e1 esteve nessa casa, quando o dono era o inventor de um famoso veneno para matar formigas&#8221;, emendou o esperto corretor. Mais um recorte que se encaixa com um lindo bilhete, perdido numa das gavetas da sala. Nele, os pais Mirr\u00ea e \u00c1lvaro dedicam com amor a enciclop\u00e9dia Barsa aos filhos, porque &#8220;de todos os presentes que se pode oferecer, o melhor deles \u00e9 o saber&#8221;. Verdade. E quanto mais sabemos, mais a gente quer saber.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em cada cantinho in\u00f3spito desse imenso pa\u00eds, existe pelo menos uma grande hist\u00f3ria que precisa ser contada, espalhada e registrada para a posteridade. Essa foi a conclus\u00e3o que cheguei ao ficar por pelo menos 24 horas do meu agitado feriado prolongado quase no meio do nada. 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