{"id":1040,"date":"2009-06-10T01:20:06","date_gmt":"2009-06-10T04:20:06","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/a-pessoa-certa-no-momento-errado"},"modified":"2009-06-10T01:20:06","modified_gmt":"2009-06-10T04:20:06","slug":"a-pessoa-certa-no-momento-errado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/a-pessoa-certa-no-momento-errado\/","title":{"rendered":"A pessoa certa no momento errado"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\">Passar mais um ano sem considerar o tal dia dos namorados n\u00e3o \u00e9 nada comparado ao combo de frases feitas para consolar solteiros: &#8220;nem sempre o amor traz felicidade&#8221;; &#8220;o mundo \u00e9 feito de escolhas&#8221;; &#8220;n\u00e3o deixe as oportunidades passarem&#8221; ; &#8220;essas coisas acontecem naturalmente&#8221;; ou a mais insuport\u00e1vel  de todas: &#8220;o que \u00e9 teu t\u00e1 guardado&#8221;.<\/p>\n<p>Imagino como a minha vida poderia ser diferente agora se os meus pais n\u00e3o tivessem ido atr\u00e1s de novas oportunidades h\u00e1 trinta anos, permanecendo na zona rural, onde se esconde atualmente o munic\u00edpio de Cap\u00e3o do Le\u00e3o. Possivelmente iriam apenas at\u00e9 Pelotas, como fez boa parte da fam\u00edlia. Fatalmente seria um homem casado, funcion\u00e1rio p\u00fablico ou motorista de t\u00e1xi, uma casa e uma fam\u00edlia para sustentar, recebendo visitas de centenas de familiares aos finais de semana.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, quando n\u00e3o trabalho na megal\u00f3pole paulistana, posso dar um pulinho de 1500km para visit\u00e1-los, ao menos uma vez por ano. Puxar o freio de emerg\u00eancia e viver o ritmo absurdamente diferente daquela cidade. \u00c9 como se eu deixasse o mundo real para viver, mesmo que por alguns dias, uma esp\u00e9cie de conto de fadas. Quando n\u00e3o estamos na casa de um dos meus dezessete tios &#8211; onze irm\u00e3os do meu pai (eram doze) e seis da minha m\u00e3e &#8211; ou de algum primos que j\u00e1 casou, descansamos na casa da vov\u00f3 (m\u00e3e da mam\u00e3e), na pacata Cohab Fragata, bairro que lembra uma cidade cenogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Em qualquer das duas situa\u00e7\u00f5es, talvez eu tivesse me casado com a \u00cdris.<\/p>\n<p>Sempre tive o privil\u00e9gio de comemorar a virada do ano com muito churrasco e roj\u00f5es ao lado de parentes, amigos &#8211; e amigas, claro &#8211; conquistados gra\u00e7as \u00e0 proximidade das casas da velha cohab. Em 1990, a vizinhan\u00e7a recebeu vizinhos novos. Uma fam\u00edlia que vinha de Cangu\u00e7u, terra cheia de \u00edndio grosso barbaridade, como se diz por l\u00e1. O casal tinha duas filhas. A mais velha tratou de enturmar a molecada no dia do anivers\u00e1rio: um 27 de dezembro.<\/p>\n<p>O enorme quintal da casa estava tomado pela gauchada naquela tarde. Al\u00e9m dos meus primos, muitos garotos da rua eu j\u00e1 conhecia. A grande maioria, no entanto, eram parentes da aniversariante &#8211; ou seja, um bando de desconhecidos. N\u00e3o levou muito tempo para que eu chamasse a aten\u00e7\u00e3o: era o \u00fanico a me dirigir \u00e0s pessoas usando o pronome &#8220;voc\u00ea&#8221; ao inv\u00e9s de &#8220;tu&#8221;.<\/p>\n<p>Mas o chamariz aconteceu num epis\u00f3dio ins\u00f3lito: ap\u00f3s tomar todo o meu refrigerante, amassei e joguei fora meu copo descart\u00e1vel. Como se faz em qualquer lugar do mundo. Menos ali. N\u00e3o demorou para que a dona da casa viesse em minha dire\u00e7\u00e3o, enfurecida: &#8220;de onde foi que tu sa\u00edste, guri? Por que tu acabasse de jogar um copo fora!&#8221;. Fiquei at\u00e9 com medo de tomar mais refrigerante: os copos deviam ser os mesmos das \u00faltimas tr\u00eas festas&#8230;<\/p>\n<p>O paulista que amassou um copo descart\u00e1vel virou presen\u00e7a constante em todos os 27 de dezembro dos anos 90. E foi gra\u00e7as a eterna amizade com essa aniversariante que eu acabei conhecendo minha primeira namorada. Que infelizmente n\u00e3o era a \u00cdris, prima dessa amiga capricorniana. Claro que eu n\u00e3o sabia, mas s\u00f3 fui reparar nela alguns anos depois, mesmo com ela sempre ali, em todas as festinhas.<\/p>\n<p>Ela era magra, tinha a pele e os olhos bem claros e longos cabelos loiros e ondulados. Mas o que chamava mesmo a aten\u00e7\u00e3o era o sotaque: Qualquer palavra proferida por ela ganhava uma musicalidade indescrit\u00edvel. E ela j\u00e1 havia sentido a minha presen\u00e7a desde aquela tarde de 1990. Coisa que descobri  tomando chimarr\u00e3o com ela e a fam\u00edlia,  em um dia de janeiro num ano seguinte qualquer &#8211; tempo suficiente para a minha primeira namoradinha j\u00e1 ter se casado&#8230;<\/p>\n<p>O sol foi embora e n\u00f3s continuamos ali, proseando. Ela fazia curso t\u00e9cnico em agropecu\u00e1ria no tradicional CAVG. Alimentava o sonho de cursar agronomia na Ufpel e aplicar seu conhecimento nas lavouras de todo o Estado. Ela quis saber por que um paulistano estava naquele momento segurando uma cuia e falando da vida naquele lugar. Convidou para uma festinha numa danceteria. Chamava-se Apocalipse, ficava ao lado da pizzaria Bella N\u00e1poli, numa das ruas que cruzam a Bento Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p>N\u00e3o recusei o convite e aproveitei bem a noite &#8211; uma das poucas em que usei o verbo &#8220;dan\u00e7ar&#8221; sem a conota\u00e7\u00e3o pejorativa. Foi a \u00fanica vez que pude ficar mais de cinco horas ao lado da \u00cdris. Aproveitei bem, como se soub\u00e9ssemos que n\u00e3o ir\u00edamos nos ver de novo t\u00e3o cedo. Sa\u00edmos por volta das cinco da manh\u00e3 e seguimos de t\u00e1xi at\u00e9 a deserta e ainda escura cohab. Nem me despedi como gostaria antes de voltar para S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>S\u00f3 pude reencontr\u00e1-la na virada de 97 para 98, tempo de sobra para que o meu cora\u00e7\u00e3o passasse por mais naufr\u00e1gios. A cena de sempre repete: champanhe, churrasco, roj\u00f5es e abra\u00e7os, acompanhadas de felicita\u00e7\u00f5es e desejos de bom princ\u00edpio. Num relance, dirigi o olhar para a casa da vizinha. E a \u00cdris n\u00e3o parava de tirar os olhos de mim. Usava um vestido branco, como se a luz do luar estivesse ali no ch\u00e3o. Sorria cada vez mais \u00e0 medida em que eu chegava perto.<\/p>\n<p>Ao chegar, abri os bra\u00e7os e disse a frase mais original que poderia citar naquele momento: feliz ano novo. Ela continuou sorrindo, mas n\u00e3o usou palavras para agradecer. Preferiu retribuir o gesto com um abra\u00e7o delicioso, que parecia ter durado at\u00e9 1999.<\/p>\n<p>Acredite: este foi o nosso \u00faltimo encontro.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi a \u00faltima em que ela deu not\u00edcias. Pouco antes de embarcar para a realidade paulistana, recebi um envelope amarelo. S\u00f3 fui abrir em plena BR-116, j\u00e1 em Camaqu\u00e3. Aqueles cora\u00e7\u00f5es desenhados em uma folha de alma\u00e7o pela metade e as palavras escritas em vermelho delatavam o conte\u00fado antes mesmo das duas primeiras palavras: &#8220;meu amor&#8221;.<\/p>\n<p>O que vi na sequ\u00eancia foi uma declara\u00e7\u00e3o apaixonada de algu\u00e9m que foi conquistada pela minha presen\u00e7a em um dia de sua vida h\u00e1 muitos anos e por um abra\u00e7o de feliz ano novo. \u00cdris cobrava uma resposta: dizia que seria fiel eternamente e que se submeteria a um terr\u00edvel controle, esperando ansiosamente o meu retorno a cada final de ano. Uma prova de amor que jamais vi igual.<\/p>\n<p>Qualquer ser humano seria incapaz de resistir. Se eu tivesse coragem, eu diria para o meu pai dar a volta no carro e voltar aqueles cento e poucos quil\u00f4metros. Ou pediria para descer, voltaria para Pelotas de \u00f4nibus e viveria para sempre nos bra\u00e7os da \u00cdris, a mulher que mais se apaixonou por mim at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>E o que seria da minha vida, aquela que estava me aguardando em S\u00e3o Paulo? E se eu optasse pelo conto de fadas? Ora, fada \u00e9 o cacete. Estaria trocando uma realidade por outra, desconhecida. Era o cen\u00e1rio das minhas melhores hist\u00f3rias, mas sem as mesmas perspectivas.<\/p>\n<p>Tanto nessa quanto na hist\u00f3ria da primeira namoradinha, a escala n\u00e3o est\u00e1 em horas, minutos, segundos. Estou sempre falando em anos. Gra\u00e7as a primeira hist\u00f3ria que quase deu certo na minha vida, descobri o quanto \u00e9 dif\u00edcil amar algu\u00e9m ajustando o rel\u00f3gio para funcionar em meses. E mesmo sendo outra pessoa, n\u00e3o estava predisposto a viver algo parecido de novo. N\u00e3o naquele momento.<\/p>\n<p>J\u00e1 em casa, num doloroso processo de desintoxica\u00e7\u00e3o, abri o write do meu windows 3.1 e escrevi a minha resposta. Usei basicamente as seguintes palavras: conto de fadas, realidade, dist\u00e2ncia, tempo, raz\u00e3o, futuro, imposs\u00edvel, etc. Tudo mesclado com muita sinceridade e carinho &#8211; n\u00e3o exatamente como ela queria, mas o suficiente para n\u00e3o mago\u00e1-la demais. Imprimi na velha matricial da Citizen e envelopei. Como n\u00e3o tinha o endere\u00e7o da \u00cdris, mandei a carta para a prima, pedindo a gentileza de entreg\u00e1-la sem abrir.<\/p>\n<p>Meses depois, o carteiro trouxe a resposta. Era mais ou menos assim:<\/p>\n<p><tt>\"Pelotas, 11 de mar\u00e7o de 1998<\/p>\n<p>Oi D\u00e9! Como vai?<\/p>\n<p>Quero come\u00e7ar te pedindo desculpas pela carta que chegou a ti. Sabe, lendo a tua resposta senti muito a sua falta e percebi o quanto \u00e9s valioso. Tamb\u00e9m j\u00e1 sofri muito com as minhas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Quero dividir com voc\u00ea a que mais me marcou. Quando tinha 15 anos, conheci um guri numa festa. Naquela noite conversamos muito, at\u00e9 trocamos telefones. At\u00e9 que come\u00e7amos a namorar. Cheguei a ser apresentado \u00e0 fam\u00edlia dele - acredita que a sobrinha dele me chamava de tia?<\/p>\n<p>Ele sempre dizia que me amava, que eu era a vida dele. Passamos dois anos juntos, e numa noite, ele queria... Ah, voc\u00ea sabe, n\u00e9? Eu tinha 17, disse que era muito nova e que n\u00e3o estava preparada.<\/p>\n<p>Sabe o que ele me disse? Me esquece, e nunca mais fala comigo!<\/p>\n<p>Imagine, aquilo me deixou decepcionada... Comecei a agir de uma maneira t\u00e3o fria com as pessoas, todos achavam que eu n\u00e3o tinha sentimentos. J\u00e1 estava ficando convencida disso.<\/p>\n<p>Mas gra\u00e7as a ti, acho que mudei um pouquinho... J\u00e1 tive at\u00e9 coragem de dizer que estou apaixonada por ti! Agora que tudo j\u00e1 passou, penso que \u00e9 bom passarmos por situa\u00e7\u00f5es ruins, dessa maneira a gente come\u00e7a a enxergar as coisas como elas realmente s\u00e3o.<\/p>\n<p>Bom, disse que tive coragem de te dizer que estou apaixonada... E ainda estou. Continuo te achando perfeito e te admirando mais ainda. Estou tentando achar uma palavra pra te definir, mas nem as mais belas palavras retiradas das mais lindas poesias n\u00e3o s\u00e3o nada perto da pessoa maravilhosa que tu \u00e9s.<\/p>\n<p>Quanto a dist\u00e2ncia, ela pode separar dois corpos, mas jamais dois cora\u00e7\u00f5es que se gostam. As pessoas se tornam bonitas ou feias pelas suas atitudes, e voc\u00ea \u00e9 a pessoa mais linda que eu j\u00e1 conheci. Fique tranquilo: tu jamais me magoaste.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o demais a tua sinceridade, obrigado por tu existir, sem voc\u00ea o mundo n\u00e3o teria gra\u00e7a. Tenho certeza de que a tua sinceridade, junto com as tuas outras qualidades, vai conquistar o mundo como tu me conquistasse. E nunca deixe de acreditar em uma paix\u00e3o: quando ela demora, \u00e9 porque est\u00e1 adormecendo nos bra\u00e7os da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Desculpe por ter entrado na sua vida sem pedir licen\u00e7a...<\/p>\n<p>Um beijo de quem te adora,<\/p>\n<p>\u00cdris.\"<\/tt><\/p>\n<p>Vez ou outra releio essa carta e questiono se o meu est\u00e1gio atual de &#8220;eu uma pedra&#8221; n\u00e3o \u00e9 castigo por ter ignorado essa chance. E \u00e9 estranho terminar hist\u00f3ria dizendo simplesmente que, atualmente, a \u00cdris \u00e9 uma mulher casada, assim como a prima dela, minhas primas e todas as mo\u00e7as que conheci em Pelotas nesses \u00faltimos anos. Tenho certeza de que ela era a pessoa certa. Pena que a hora e o lugar n\u00e3o eram.<\/p>\n<p><i>(Postado em 17\/06\/2005. Digamos que esse texto contribuiu para que eu voltasse a comemorar o Dia dos Namorados&#8230;)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passar mais um ano sem considerar o tal dia dos namorados n\u00e3o \u00e9 nada comparado ao combo de frases feitas para consolar solteiros: &#8220;nem sempre o amor traz felicidade&#8221;; &#8220;o mundo \u00e9 feito de escolhas&#8221;; &#8220;n\u00e3o deixe as oportunidades passarem&#8221; ; &#8220;essas coisas acontecem naturalmente&#8221;; ou a mais insuport\u00e1vel de todas: &#8220;o que \u00e9 teu [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-1040","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-e-eu-uma-pedra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1040","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1040"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1040\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1040"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1040"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/marmota.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1040"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}