{"id":1039,"date":"2005-06-16T16:35:46","date_gmt":"2005-06-16T19:35:46","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/como-fazer-bom-uso-do-mensalao"},"modified":"2005-06-16T16:35:46","modified_gmt":"2005-06-16T19:35:46","slug":"como-fazer-bom-uso-do-mensalao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/como-fazer-bom-uso-do-mensalao\/","title":{"rendered":"Como fazer bom uso do mensal\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/plantao.jpg\" align=\"right\">N\u00e3o \u00e9 preciso ler jornal algum para constatar que, al\u00e9m de uma democracia esculhambada, a <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/brasil\/ult96u69318.shtml\" target=\"_blank\"><b>Terra do Mensal\u00e3o tem a segunda pior distribui\u00e7\u00e3o de renda do mundo<\/b><\/a>. \u00c9 s\u00f3 caminhar, ou mesmo andar de \u00f4nibus, trem ou metr\u00f4.<\/p>\n<p>Deve haver nas cal\u00e7adas e coletivos de S\u00e3o Paulo ao menos um pedinte por quarteir\u00e3o, que adotam todo tipo de t\u00e9cnica para sobreviver mais um dia. E n\u00e3o estou falando apenas dos limpadores de vidro, dos malabaristas e engolidores de fogo: crian\u00e7as e deficientes f\u00edsicos s\u00e3o os personagens mais comuns, e n\u00e3o tem como ficar indiferente. Pior de tudo \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o estranha da escolha: por que decidimos ajudar um e n\u00e3o o outro?<\/p>\n<p>Dias atr\u00e1s protagonizei um desses casos onde a decis\u00e3o n\u00e3o foi muito inteligente. Um catador de papel entrou na lanchonete pedindo um salgado para forrar o est\u00f4mago. Diante da impaci\u00eancia do sujeito, decidi pagar. Segundos depois, um atrito com a atendente: ele queria tr\u00eas salgados (n\u00e3o anunciou que haviam outras duas pessoas l\u00e1 fora), gritou &#8220;ele t\u00e1 pagando, \u00f3&#8221;, seguido de ofensas absurdas a pobre mo\u00e7a. Ajuda por compaix\u00e3o ou por intimida\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Enfim. Aqueles que precisam se virar podem usar uma abordagem mais criativa: vendas. E eles mandam bala: de goma (oferecidas como novidade), de c\u00f4co (apresentadas como quebra queixo), balas supra-sumo (vinte por um real)&#8230; Dividem espa\u00e7o no trenz\u00e3o do sub\u00farbio com os cl\u00e1ssicos vendedores de amendoim ou ainda com os sazonais, que trazem cadernos no in\u00edcio, tabuada durante, ovo de chocolate na Semana Santa e panetone no fim do ano.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, gra\u00e7as ao bilhete \u00fanico (que permite mais de uma viagem no per\u00edodo de duas horas, <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/cotidiano\/ult95u109905.shtml\" target=\"_blank\"><b>ao menos por enquanto<\/b><\/a>), t\u00e3o mandando bala tamb\u00e9m nos \u00f4nibus, coisa de poucos meses atr\u00e1s. \u00c9 a turma do &#8220;obrigado motorista&#8221;, uma dos trechos do discurso previamente decorado pelo esfor\u00e7ado vendedor. Que conta ainda com: &#8220;desculpas por atrapalhar a viagem de voc\u00eas&#8221;, &#8220;quem puder ajudar, que Deus aben\u00e7oe; quem n\u00e3o puder, que Deus aben\u00e7\u00f5e da mesma forma&#8221;. C\u00e1 pra n\u00f3s, se a estrat\u00e9gia fosse mais agressiva, talvez o lucro fosse maior.<\/p>\n<p>Entre aqueles que mereciam parte da verba do mensal\u00e3o, resta ainda a galera que apela para o velho &#8220;santinho&#8221;: aqueles pequenos pap\u00e9is xerocados que j\u00e1 deu milh\u00f5es de voltas, sempre com pedidos silenciosos &#8211; acompanhados de marcadores de livros, cart\u00f5es ou mais balas. A mensagem escrita possui impacto maior nos retrovisores, envolvido num saquinho recheado de guloseimas. Entre todas as maneiras informais, por\u00e9m duras, de se arranjar trocado, certamente \u00e9 a que funciona melhor.<\/p>\n<p>Um dos mais interessantes e her\u00f3icos cidad\u00e3os que j\u00e1 deixaram o arranjo no espelho do carro trocou a mensagem padr\u00e3o do papel pelo nome completo, telefone de contato, n\u00famero de matr\u00edcula e o valor da mensalidade em uma faculdade particular. Era um universit\u00e1rio, provavelmente estagi\u00e1rio, que naquela manh\u00e3 conseguiu mais um real: o meu.<\/p>\n<p>Se em um pa\u00eds onde quem deveria se importar com distribui\u00e7\u00e3o de renda, emprego e educa\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/especial\/2005\/mesadanocongresso\" target=\"_blank\"><b>resolve pleitear verba extra pra votar no que interessa<\/b><\/a>, resta apenas a sensa\u00e7\u00e3o horrorosa de que a tend\u00eancia \u00e9 da esculhamba\u00e7\u00e3o aumentar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 preciso ler jornal algum para constatar que, al\u00e9m de uma democracia esculhambada, a Terra do Mensal\u00e3o tem a segunda pior distribui\u00e7\u00e3o de renda do mundo. \u00c9 s\u00f3 caminhar, ou mesmo andar de \u00f4nibus, trem ou metr\u00f4. 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