{"id":1010,"date":"2005-02-14T15:49:06","date_gmt":"2005-02-14T18:49:06","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/aconteceu-no-sabado-de-carnaval"},"modified":"2005-02-14T15:49:06","modified_gmt":"2005-02-14T18:49:06","slug":"aconteceu-no-sabado-de-carnaval","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/aconteceu-no-sabado-de-carnaval\/","title":{"rendered":"Aconteceu no s\u00e1bado de Carnaval"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\"><u>09h58<\/u> &#8211; Sem tr\u00e2nsito, ruas desertas, vagas abundantes para estacionar. Assim \u00e9 a cidade de S\u00e3o Paulo num feriado prolongado. Para algu\u00e9m como eu, que detesta Carnaval, foi uma d\u00e1diva sair de casa para trabalhar. Sorridente, encostei o carro a alguns metros da labuta e segui caminhando: em dois minutos, precisava bater meu cart\u00e3o.<\/p>\n<p><u>11h37<\/u> &#8211; Oitocentos quil\u00f4metros dali, um amigo meu acordou. Ele mora em S\u00e3o Paulo, mas estava em Laguna, litoral sul catarinense. Aproveitou a folga para conhecer um dos mais comentados carnavais do pa\u00eds: dizem que a festa promovida na cidade \u00e9 espetacular. Como chegou no dia anterior \u00e0 tarde, ap\u00f3s 15 horas num \u00f4nibus convencional, dormiu at\u00e9 mais tarde. Estava com dois companheiros, que tamb\u00e9m despertaram pregui\u00e7osamente ao final daquela manh\u00e3.<\/p>\n<p><u>13h24<\/u> &#8211; Uma companheira de servi\u00e7o saiu de casa e foi at\u00e9 o ponto de \u00f4nibus. Estava de folga, mas tinha pressa: apenas algumas horas para atravessar a capital paulista e chegar ao barrac\u00e3o da Nen\u00ea de Vila Matilde. Ela nunca pensou em desfilar em uma escola de samba, mas resolveu aceitar o convite de uma amiga e experimentar a brincadeira. &#8220;Todos deviam fazer isso ao menos uma vez na vida&#8221;, pensou.<\/p>\n<p><u>15h02<\/u> &#8211; Durante meu almo\u00e7o &#8211; um sandu\u00edche de calabresa no &#8220;morte lenta&#8221;, um trailer da Alameda Campinas &#8211; ou\u00e7o o celular. Era o Baiano, amigo de longa data. Estava triste em S\u00e3o Paulo, longe de Salvador, sentindo muita falta daquela <a href=\"http:\/\/goo.gl\/nqWYwm\" target=\"_blank\"><b>energia porreta<\/b><\/a> que s\u00f3 o ax\u00e9 do circuito Barra-Ondina poderia lhe oferecer. J\u00e1 que estava por perto, pensou em assistir a um jogo de futebol. Disse a ele que os grandes times da cidade jogariam no interior, e antes de desligar, disse a ele qual seria a \u00fanica op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><u>16h19<\/u> &#8211; Perdida no meio de centenas de desfilantes, que se espremiam ao redor do barrac\u00e3o da Nen\u00ea, minha amiga finalmente encontrou a autora do convite. Na m\u00e3o direita, a terceira lata de cerveja do dia. Na esquerda, o dedo indicador mostrava o caminho para as fantasias. &#8220;Mas r\u00e1pido, os \u00f4nibus pro Samb\u00f3dromo j\u00e1 est\u00e3o saindo&#8221;, recomendou.<\/p>\n<p><u>16h44<\/u> &#8211; Em Laguna, os tr\u00eas viajantes pediam uma por\u00e7\u00e3o de camar\u00e3o num quiosque da praia do Mar Grosso. Um deles reclamou: n\u00e3o tem outra coisa para comer nesse lugar? A bronca foi, na verdade, de brincadeira: bronzeados, todos estavam maravilhados com a cidade.<\/p>\n<p><u>17h38<\/u> &#8211; Baiano me ligou outra vez. Tinha ido assistir ao jogo que havia sugerido: Nacional e Juventus, cl\u00e1ssico paulistano da segunda divis\u00e3o. Ao lado dele, outros trezentos cidad\u00e3os corajosos estavam no est\u00e1dio Nicolau Alayon, na Barra Funda, e companharam a partida, v\u00e1lida pela S\u00e9rie A-2. Placar final: zero a zero.<\/p>\n<p><u>17h51<\/u> &#8211; A noite surgiu calmamente, amplificando todas as expectativas diante da tradicional festa profana brasileira. Em S\u00e3o Vicente, um conhecido meu conversava com seu primo rondoniense, em f\u00e9rias na sua casa. Contava hist\u00f3rias passadas sobre bailes memor\u00e1veis no Ilha Porchat, quando foi interrompido pela campainha. Era sua noiva.<\/p>\n<p><u>18h09<\/u> &#8211; Dezenas de \u00f4nibus foram cedidos pela prefeitura para transportar os foli\u00f5es ao Anhembi. Os que deixaram a Vila Matilde, com alguns minutos de atraso, fizeram um caminho diferente: atravessou uma favela, ainda na zona leste paulistana. Os nativos, prov\u00e1veis torcedores do Corinthians, n\u00e3o tiveram d\u00favidas: apedrejaram os coletivos sem piedade. &#8220;Fechem os vidros&#8221;, pediu o motorista. &#8220;N\u00e3o d\u00e1&#8221;, gritou minha amiga, que deixou a arma\u00e7\u00e3o da fantasia para fora da janela. Todos permaneceram abaixados at\u00e9 os gritos e pancadas cessarem.<\/p>\n<p><u>19h27<\/u> &#8211; Era o terceiro telefonema de Baiano: queria saber qual a minha programa\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o servi\u00e7o. Comentei que tinha vontade de ir a uma festa \u00e0 fantasia, num bar de Pinheiros. Convite de um grande amigo DJ, seria \u00f3timo prestigi\u00e1-lo. O soteropolitano fez a contra-proposta: tinha ouvido falar em uma tal &#8220;tr\u00e9xi oitenta&#8221;. Falei que era preciso disposi\u00e7\u00e3o para encarar o lugar e que dificilmente a teria naquela noite. &#8220;Ent\u00e3o prefiro sair com voc\u00ea a sair sozinho&#8221;, decidiu. Marquei dez horas na frente do seu hotel.<\/p>\n<p><u>20h49<\/u> &#8211; &#8220;J\u00e1 estou terminando, segurem a fome&#8221;, diz a noiva do meu colega, disposta a preparar o jantar e permanecer ao lado dos dois at\u00e9 a madrugada chegar. Os rapazes se entreolham, com cara de &#8220;nossa noite j\u00e1 era&#8221;.<\/p>\n<p><u>21h52<\/u> &#8211; J\u00e1 tinha encerrado meu expediente quando meu comunicador instant\u00e2neo piscou. Sorri: ela vinha de uma das poucas pessoas especiais da minha vida. Ela tinha um problema: estava em casa e n\u00e3o conseguia comprar pela Internet a passagem para a cidade dos pais. Tamb\u00e9m n\u00e3o tinha certeza de que, ao chegar na rodovi\u00e1ria, encontraria um caixa eletr\u00f4nico aberto. Tinha poucos reais na carteira. Nenhuma folha de cheque. Teria que ficar sozinha, a contragosto. Disse a ela que seria capaz de passar a noite no computador conversando &#8211; ignorando o compromisso marcado com Baiano. Fiz o que pude para amenizar sua solid\u00e3o, at\u00e9 que ela criou coragem: decidiu arriscar e ir \u00e0 rodovi\u00e1ria. Antes de desconectar, lhe dei um \u00faltimo recado: &#8220;essa \u00e9 a pessoa incr\u00edvel que conhe\u00e7o, e n\u00e3o a que estava deprimida h\u00e1 pouco&#8221;.<\/p>\n<p><u>22h53<\/u> &#8211; Com ajuda da amiga (ainda s\u00f3bria), finalmente fantasia e foli\u00e3 eram uma coisa s\u00f3. Mas deu trabalho: foi preciso amarrar uma coisa ali, colar outra aqui&#8230; Tudo bem, naquela altura, n\u00e3o havia motivo algum para se arrepender das oito ou dez notas de cinquenta investidas ali.<\/p>\n<p><u>23h08<\/u> &#8211; Encostei o carro ao lado do Formule 1 da Consola\u00e7\u00e3o, cumprimentei Baiano e pedi desculpas pelo pequeno atraso. Para compensar, disse que lhe pagaria um bauru no Ponto Chic antes de ir a festinha. Animado, ele mostra um abad\u00e1 e uma peruca: &#8220;n\u00e3o tinha fantasia, mas essa deve servir&#8221;, conta. Respondi a ele: talvez n\u00e3o precise&#8230;<\/p>\n<p><u>23h34<\/u> &#8211; Ainda animados ap\u00f3s o dia todo circulando pelas praias, os tr\u00eas viajantes acompanharam um trio el\u00e9trico no animado carnaval de rua de Laguna, um dos maiores do sul do pa\u00eds: segundo estimativas, eram 200 mil pessoas a mais na cidade. Muitos homens vestidos de mulher, outros atr\u00e1s delas \u00e0 for\u00e7a. Impressionado, meu amigo viu suas chances de paquera reduzidas: &#8220;se for pra agarrar sem perguntar, prefiro ficar na minha&#8221;, sentenciou.<\/p>\n<p><u>00h12<\/u> &#8211; Demorou, mas a garoa t\u00edpica do carnaval paulistano havia chegado. Justamente quando parei o carro em uma das travessas da Cardeal Arcoverde. Chegamos ao Dinamite, lugar que \u00e9 mesmo um estouro. Naquele momento me dei conta de que, em momento algum, disse ao Baiano que n\u00e3o curtia muito essa coisa de &#8220;esquind\u00f4&#8221;: a rea\u00e7\u00e3o dele ao entrar numa casa de corredores estreitos, pouca luz e som alternativo foi instant\u00e2nea: &#8220;mas n\u00e3o era uma festa \u00e0 fantasia?&#8221;, perguntou, assustado.<\/p>\n<p><u>00h27<\/u> &#8211; &#8220;O jantar estava \u00f3timo&#8221;, diz meu colega \u00e0 noiva, antes dela sair, morrendo de sono. Preferia ficar mais, afinal o papo estava \u00f3timo. Decidiu ir para casa descansar. Deu um beijo de despedida e se dirigiu ao elevador &#8211; s\u00f3 depois dela fugir do campo de vis\u00e3o, a porta se fechou. Sem tirar a m\u00e3o da ma\u00e7aneta, os dois primos sorriem: &#8220;\u00e9 agora!&#8221;. Em cinco minutos, j\u00e1 estavam na garagem do pr\u00e9dio, prontos para cair na gandaia.<\/p>\n<p><u>01h23<\/u> &#8211; Era a vez da minha amiga entrar na avenida, em uma das 33 alas da escola. Discreta, bem no meio dos foli\u00f5es &#8211; n\u00e3o quis correr o risco de ser flagrada por uma c\u00e2mera. Num relance, percebeu que os marmanjos atr\u00e1s dela permanecem de costas. O motivo? A passista seminua, entre uma ala e outra, vindo logo atr\u00e1s&#8230;<\/p>\n<p><u>02h01<\/u> &#8211; Baiano estava sumido, em algum ponto do bar. Percebi isso naquele instante, ao despertar momentaneamente de um papo com uma velha conhecida. Ela estava com uma roupa preta, estilo anos 20. Linda. Ah se ela me desse bola. Baiano reapareceu, ao lado do meu amigo DJ, vestido de cientista louco. &#8220;Come\u00e7o a tocar \u00e0s tr\u00eas horas&#8221;, disse ele, faceiro. Ao mesmo tempo, Baiano riu e chorou.<\/p>\n<p><u>02h14<\/u> &#8211; O desfile estava quase no fim, e minha amiga n\u00e3o conseguia conter a alegria. Estava maravilhada: n\u00e3o imaginava que a Nen\u00ea pudesse contar com torcida pr\u00f3pria, cantando e balan\u00e7ando faixas de apoio \u00e0 escola nas arquibancadas. Percebeu ainda que a grande maioria dos componentes &#8211; inclusive os diretores de harmonia &#8211; estavam embriagados. &#8220;Se todo ano \u00e9 assim, como pode uma agremia\u00e7\u00e3o dessas ter conquistado onze carnavais&#8221;, questionou. N\u00e3o importava. Tudo era festa.<\/p>\n<p><u>02h25<\/u> &#8211; Depois de pegar um refrigerante, vou atr\u00e1s do Baiano. Fa\u00e7o a ele a pergunta mais imbecil da noite: o que est\u00e1 achando? A resposta: &#8220;simplesmente a pior coisa que j\u00e1 vi. S\u00f3 tem gente esquisita, parece que querem se matar. O ambiente \u00e9 escuro e cheira a mofo. E est\u00e1 tocando Joy Division&#8221;. N\u00e3o pensei duas vezes: &#8220;Ent\u00e3o vamos nessa&#8221;, disse. Nem pude me despedir direito do pessoal.<\/p>\n<p><u>02h37<\/u> &#8211; Santos n\u00e3o parecia a mesma dos outros carnavais: meu colega e seu primo at\u00e9 se esbaldaram, mas sentiram falta daquele algo al\u00e9m. Ou vai ver estavam &#8220;velhos demais&#8221; para brincar como antigamente. Resolveram voltar logo para S\u00e3o Vicente. No caminho, o primo rondoniense &#8211; que nem tinha bebido tanto &#8211; maquinou um curioso plano.<\/p>\n<p><u>02h45<\/u> &#8211; Felizes e satisfeitas, as duas companheiras de avenida encontraram um terceiro conhecido em comum. Tinha desfilado na ala dos compositores da escola &#8211; sabe-se l\u00e1 como conseguiu o traje. &#8220;\u00c9 pra impressionar a mulherada&#8221;, comentou, antes de gaguejar ao ser questionado se sabia a letra do samba. Minha amiga despediu-se, levando a fantasia para casa. A outra ainda sairia pela Leandro de Itaquera &#8211; vai ser fan\u00e1tica assim na Sapuca\u00ed&#8230;<\/p>\n<p><u>03h04<\/u> &#8211; No caminho do bar ao hotel de Baiano, poucas palavras. Eu, uma pedra, pedi desculpas por ter sido respons\u00e1vel pela &#8220;pior noite de Carnaval de sua vida&#8221;. Uma das mais horr\u00edveis sensa\u00e7\u00f5es que podemos sentir \u00e9 a que vem ap\u00f3s levar algu\u00e9m que gostamos para uma roubada. Antes de me despedir, falei em passar um pr\u00f3ximo Carnaval em Salvador. Tamb\u00e9m desejei a ele um fim de folia menos &#8220;underground&#8221;&#8230;<\/p>\n<p><u>03h39<\/u> &#8211; Um gol branco, guiado pelo meu conhecido, circulava por uma rua quase deserta de S\u00e3o Vicente. Ao longe, perto de um bar de esquina, avistaram um sujeito barrigudo, sem camisa, ralhando com uma mulher. &#8220;\u00c9 ele mesmo&#8221;, pensou o primo rondoniense. Abaixou-se e pegou o tapete de borracha. Enrolou-o, transformando num porrete. &#8220;Acelera&#8221;, disse, enquanto abria o vidro do carro e jogava o corpo para fora. &#8220;Chega mais perto&#8221;, arrematou, enquanto se aproximavam do tio rabugento. Em poucos segundos, o cai\u00e7ara levou uma sonora &#8220;tapetada&#8221; nas costas. Pisaram fundo e ouviram gritos de &#8220;pega ladr\u00e3o!&#8221;. E riram como nunca fizeram em toda uma vida.<\/p>\n<p><u>04h21<\/u> &#8211; A caminho de casa, meu celular tocou. Chateado, nem vi no display a origem da chamada. S\u00f3 me dei conta quando ouvi a voz dela: &#8220;voc\u00ea foi muito importante para mim nessa noite, meu anjo. Obrigada!&#8221;, disse, ainda no \u00f4nibus. Tinha conseguido embarcar, e em algumas horas, estaria na casa da irm\u00e3. &#8220;N\u00e3o por isso, voc\u00ea ser\u00e1 sempre importante&#8221;, respondi.<\/p>\n<p><u>06h47<\/u> &#8211; Quase na hora do caf\u00e9, os foli\u00f5es catarinenses ca\u00edram de novo na cama. Agora sim, exaustos ap\u00f3s intensa maratona &#8211; ainda que sem um \u00fanico beijo na boca. Ainda restavam dois dias de festa antes do retorno, na quarta-feira.<\/p>\n<p>Nesse meio tempo, muitos levavam o m\u00e1ximo de mulheres poss\u00edveis para a cama. Alguns, em coma alco\u00f3lico, eram encaminhados ao pronto socorro. Outros tantos pegaram a estrada e voltaram para casa, insatisfeitos com a quantidade de gente na praia ou com o mau tempo no litoral. Os que n\u00e3o desistiram, disputavam com vinte ou trinta pessoas um espa\u00e7o na sala ou no quarto da casinha alugada. Os demais n\u00e3o sa\u00edram da frente do televisor, ouvindo Chico Pinheiro, Rep\u00f3rter Vesgo ou Astrid Fontenelle&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>09h58 &#8211; Sem tr\u00e2nsito, ruas desertas, vagas abundantes para estacionar. Assim \u00e9 a cidade de S\u00e3o Paulo num feriado prolongado. Para algu\u00e9m como eu, que detesta Carnaval, foi uma d\u00e1diva sair de casa para trabalhar. 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