{"id":1003,"date":"2004-12-27T22:39:13","date_gmt":"2004-12-28T01:39:13","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/nova-carta-oriental-do-papai-noel"},"modified":"2004-12-27T22:39:13","modified_gmt":"2004-12-28T01:39:13","slug":"nova-carta-oriental-do-papai-noel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/nova-carta-oriental-do-papai-noel\/","title":{"rendered":"Nova carta (oriental) do Papai Noel"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/e-fimdeano.gif\" align=\"right\">Lembram-se do ano passado, quando fui pego de surpresa encontrando um <a href=\"\/blog\/2003\/12\/25\/789\/\" target=\"_blank\"><b>e-mail do Papai Noel<\/b><\/a> na minha caixa postal? Apesar de ter desdenhado do bom velhinho, t\u00ea-lo chamado de gordo capitalista, ignorado seus conselhos e reclamar do final de ano pouco agrad\u00e1vel, mais uma vez ele apareceu.<\/p>\n<p>Primeiro, na manh\u00e3 deste s\u00e1bado, quando encontrei meu presente embaixo da \u00e1rvore: um belo envelope prateado, com um cart\u00e3o em papel de alt\u00edssima qualidade. Todo em kanji.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/images\/isamu2712.jpg\"><\/div>\n<p>Achei bacana, mas fiquei sem entender. S\u00f3 lembrei do envelope prateado outra vez ao encontrar um novo e-mail do velhote barrigudo.<\/p>\n<p>&#8212; original message &#8212;<br \/>\nFrom: Papai Noel &lt;santaclaus@laponia.gov&gt;<br \/>\nFecha: 26\/12\/2004 20:27:41<br \/>\nTo: Andr\u00e9 Marmota &lt;uma@igualaquinzequilos.com&gt;<br \/>\nSubject: Feliz Natal<\/p>\n<p>Kurisumasu Omedeto, Marumota-San!<\/p>\n<p>(Quis dizer Feliz Natal para voc\u00ea, meu bom menino. Mas em japon\u00eas&#8230; Ho ho ho!).<\/p>\n<p>Novamente, gostaria de iniciar nosso pequeno di\u00e1logo particular com um r\u00e1pido aparte. Acredita que, a cada final de ano, aumentam as cartinhas de cunho s\u00f3cio-econ\u00f4mico. Todos execrando minha imagem, definindo meu trabalho como uma injusta obra capitalista. At\u00e9 voc\u00ea, um garoto de cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o bom, teve seu discurso contaminado por este v\u00edrus de caracter\u00edsticas t\u00e3o ocidentais&#8230;<\/p>\n<p>Gostaria de frisar que, para tentar amenizar esta imagem (ao menos diante dos seus olhos), decidi viajar um bocado antes do Natal. Fui para o outro lado do globo. Passei alguns dias agrad\u00e1veis enquanto meus fi\u00e9is ajudantes tocavam a f\u00e1brica de brinquedos &#8211; e antes que eu esque\u00e7a, meus ajudantes s\u00e3o todos artes\u00e3os, felizes e valorizad\u00edssimos. No polo norte n\u00e3o existe lucro ou mais-valia.<\/p>\n<p>Mas voltando, nobre rapaz. Sabia que os chineses, apesar do contato recente com as tais maravilhas do mundo ocidental, as festividades de final de ano, aquela que segue o calend\u00e1rio deles, sempre envolveu troca de presentes? Mesmo aqueles que n\u00e3o s\u00e3o crist\u00e3os &#8211; como a maioria que acredita em mim, e me chamam de Dun Lhe Dao Ren.<\/p>\n<p>E no Jap\u00e3o? Dia desses circulava pelas cidades maiores e ouvia os gritos: &#8220;Jizo! Jizo!&#8221;. Aquilo me deixou muito feliz! \u00c9 uma honra ser comparado ao monge Hoteiosho, um japon\u00eas das antigas que tinha olhos nas costas, de olho nas crian\u00e7as matreiras&#8230; E l\u00e1 o ato de presentear o pr\u00f3ximo est\u00e1 embutido na pr\u00f3pria cultura!<\/p>\n<p>Devo lhe dizer que aprendi outras coisas nessas andan\u00e7as todas. Voltei ao meu lar mais zen, com o esp\u00edrito natalino renovado com alguma carga budista. Constatei que, para algumas pessoas, mais do que uma caixa colorida com uma fita radiante, o maior presente \u00e9 a descoberta de sua verdadeira ess\u00eancia. E este \u00e9 o significado do seu pequeno presente, meu querido!<\/p>\n<p>Vamos falar no envelopinho prateado a seguir. Antes preciso te contar uma breve historinha, que ouvi de uma simp\u00e1tica chinesinha em Pequim. Uma antiga ancestral desta mo\u00e7a, chamada Sun Tui, tinha um marido dedicado e trabalhador. Mas morava com a m\u00e3e dele, uma senhora muito \u00e1spera, que exigia da pobrezinha todas as tarefas da casa. Nem a considera\u00e7\u00e3o de Sun Tui com seu esposo diminuiu os atritos que tinha com a sogra.<\/p>\n<p>Cansada daquela vida, Sun Tui procurou um velho s\u00e1bio, que conhecia o poder das plantas. Contou a ele sua hist\u00f3ria, al\u00e9m do desejo contido de matar a sogra. O s\u00e1bio entregou a Sun Tui uma garrafa, dizendo: &#8220;mocinha, leve para voc\u00ea este poderoso veneno. Mas tenha cuidado, trata-se de um l\u00edquido muito forte. Para que ningu\u00e9m perceba nada, voc\u00ea precisa d\u00e1-lo aos poucos. Ponha um dia no ch\u00e1, outro na salada&#8230; Ao mesmo tempo, trate-a muito bem, para que ela sequer imagine que ir\u00e1 morrer por sua causa&#8221;, explicou.<\/p>\n<p>Preocupada em n\u00e3o levantar suspeitas, Sun Tui executou seu plano e, ao mesmo tempo, controlou seu temperamento e antecipou todas as rea\u00e7\u00f5es da sogra malvada. Os dias se passavam e Sun Tui era outra pessoa: entregava flores para a sogra, preparava sua sobremesa favorita, presenteava sem qualquer motivo&#8230; Enfim, se entregou totalmente a megera. Mas sem esquecer de jogar um pouco de veneno em sua comida ou na bebida.<\/p>\n<p>Acredite, meu garoto: tais atitudes amoleceram o cora\u00e7\u00e3o da velha. As atitudes de Sun Tui transformaram-na em uma senhora bondosa, que tamb\u00e9m se esfor\u00e7ava para retribuir aos mimos da nora. At\u00e9 que Sun Tui se deu conta: o carinho que existia entre as duas passou a ser real! E o arrependimento \u00e9 um duro golpe. Afinal, naquele momento, ela percebeu que estava matando algu\u00e9m que a tratava como uma verdadeira filha!<\/p>\n<p>Novamente desesperada, Sun Tui foi atr\u00e1s do velho s\u00e1bio, levando consigo a garrafa de veneno. E implorou por um ant\u00eddoto. Sorrindo, o velho tomou a garrafa das m\u00e3os de Sun Tui e tomou tudo de uma \u00fanica vez, provocando uma rea\u00e7\u00e3o abobalhada da jovem chinesa. O s\u00e1bio mostrou que n\u00e3o cohecia apenas as plantas, mas tamb\u00e9m a alma humana: o veneno era, na verdade, um placebo&#8230; Que serviu para amolecer o cora\u00e7\u00e3o da mocinha.<\/p>\n<p>Moral da hist\u00f3ria? Sun Tui aprendeu a amar, nobre amiguinho. Tenho certeza de que, se todos tamb\u00e9m aprendessem, o Natal n\u00e3o duraria apenas um dia&#8230;<\/p>\n<p>Enfim. Tenho certeza de que voc\u00ea gostou da hist\u00f3ria. At\u00e9 porque, ultimamente voc\u00ea j\u00e1 demonstrou que sabe amar as pessoas de maneira incondicional, sem se preocupar com uma troca. Voc\u00ea tamb\u00e9m tem outras virtudes. Na verdade, meu jovem, voc\u00ea n\u00e3o precisa de muita coisa para ser feliz. Sabe perfeitamente disso.<\/p>\n<p>O que falta para voc\u00ea, car\u00edssimo, \u00e9 exatamente o que diz no seu presente: isamu. Em kanji, quer dizer coragem. \u00c9 tudo que voc\u00ea precisa: coragem para decidir sair na chuva ao inv\u00e9s de simplesmente contempl\u00e1-la, im\u00f3vel, diante da janela. Coragem para olhar ao c\u00e9u e receber a chuva sem se preocupar com o frio ou a gripe, mas para lavar o esp\u00edrito e crescer. Coragem para admitir que, ao se fazer de v\u00edtima e evitar a chuva, abre m\u00e3o da responsabilidade e corre o risco de se frustrar ainda mais, diante de sua virtual impot\u00eancia.<\/p>\n<p>Coragem para viver, meu amigo. \u00c9 tudo que voc\u00ea precisa. Se ainda teimar em n\u00e3o acreditar em mim, ao menos acredite em voc\u00ea mesmo.<\/p>\n<p>Acho que est\u00e1 bom desta vez. At\u00e9 porque, os conselhos do ano passado (menos o que diz respeito a viagem para o sul do seu pa\u00eds) permanecem.<\/p>\n<p>Feliz fim de Natal! Ho ho ho!<\/p>\n<p>Papai Noel<br \/>\nhttp:\/\/www.santa.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembram-se do ano passado, quando fui pego de surpresa encontrando um e-mail do Papai Noel na minha caixa postal? Apesar de ter desdenhado do bom velhinho, t\u00ea-lo chamado de gordo capitalista, ignorado seus conselhos e reclamar do final de ano pouco agrad\u00e1vel, mais uma vez ele apareceu. 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