E eu ainda acreditava neles…

Você sabe qual foi o primeiro jornal brasileiro que “fincou” sua bandeira na Internet, ainda em 1995? Se você respondeu O Estado de S. Paulo, acertou. Nos primórdios da Internet, era inevitável encontrar o bom e velho “agestado” nos bookmarks do Netscape. Anos mais tarde, o grupo agregou conteúdo ao seu portal Net Estado, publicando todas as edições do Estadão e Jornal da Tarde. Sem exceção: tudo ia para a web na virada do dia.

Imagino que a decisão daquela época deve ter irritado muitos conservadores: acreditavam que essa tal Internet, que ganhou força na empresa principalmente na cobertura da Copa da França, em 1998, acabaria rapidamente com o impresso. O fato do jornal estar disponível completinho – e de graça! – representava as últimas marteladas no caixão.

Tenho certeza de que a briga interna foi intensa, mas vencida pela inteligência: mesmo depois do naufrágio da parceria milionária com o Terra em 2000, o Diretório Estadão virou Estadão ponto com – aquele que não tem só “cara de conteúdo”. Mais do que isso, mantendo a filosofia de disponibilizar os dois jornais para os seus visitantes.

Há uns dois anos, soube que as visitas ns páginas do Grupo Estado na Internet aumentaram. Mais do que isso, o número de assinantes do Estadão também subiu – informação que derruba qualquer previsão sobre o fim do papel, além de mostrar que a web pode servir como complemento, e não como “canibal”.

Mesmo com a crise econômica, que atinge não apenas mídia como qualquer outro bolso, sempre achei que o Grupo Estado percorria o melhor caminho pela recém-pavimentada estrada virtual – afinal, quem não se sentia feliz ao saber que, para ler aquela matéria do Estadão ou do JT, bastavam alguns cliques? O máximo que poderia vir, imaginava, era uma provável cobrança pelo serviço de busca ao acervo dos últimos sete anos. Nada mais justo.

No entanto, hoje fui obrigado a mudar radicalmente de idéia. Nesta sexta-feira, o Grupo Estado anunciou seu total retrocesso, ao trocar o HTML de seus jornais por PDF. Não há argumento que resista a tamanha insensatez: na noticia acima, eles alegam que, com a página inteira na web, não se perde nada.

É verdade. Tanto que o tamanho de um arquivo PDF – sigla de Portable Document Format, criado pela Adobe – é pelo menos dez vezes maior que uma página em HTML (entre aqui e experimente a brincadeira). Além de ser mais pesado, não tem links: para navegar (navegar?), é preciso baixar todas as páginas. Quer saber mais? Além dos gráficos (muitas vezes mal-definidos), dá pra ver também os anúncios… Um belo negócio. Em breve, os PDFs poderão ser baixados apenas por assinantes – o “agestado” vai continuar aberto a todos os visitantes, ou seja, é como se, a partir de hoje, estivéssemos novamente em 1995…

A decisão bombástica (ou seria BOBÁSTICA) já havia sido pensada no começo do ano. Esqueçam as vantagens citadas na notícia acima: a idéia foi cortar custos. Qualquer software que elabora as páginas de um jornal já é capaz de exportar os mesmos arquivos no formato PDF. Assim, os jornalistas que cuidavam da atualização dos sites foram demitidos – se o Comunique-se estiver certo, foram oito degolados.

Assim, não se engane ao ler o termo “vantagens”. Essa triste notícia indica que o Grupo Estado cansou de esperar por algum retorno financeiro na web – ou melhor, sequer pensou que poderia existir algum – e resolveu simplesmente cortar esse tentáculo. Decidiram que o negócio deles é notícia no papel, e danem-se as novas tecnologias e as suas possibilidades.

Parabéns aos retrógrados, vocês venceram uma batalha. Felizmente, para o bem da nossa profissão, a guerra está só no começo.

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (7)

  1. Parabéns pela análise, André. Esta decisão do Estadão é – no mínimo – estúpida. Caramba, fico até sem saber direito o que comentar.

    Acho que só que o autor da idéia dos PDF é um grande FDP, que vai afundar de vez o Estadão na net.

    Tomara que haja um retrocesso no volume de assinantes do jornal para que eles entendam a mensagem.

  2. Andei, andei, andei, ou melhor, li, li e li e tentei entender aonde vc queria chegar com tamanha “puxação de saco” da agestado, até que qdo chegou a reviravolta eu comecei a rir descontroladamente.

    Maravilhoso o texto, é realmente pensar pra tras, ou com o de tras, achar que trabalhar com PDF é uma vantagem financeira. Joselito purinho!

  3. A única vantagem do PDF é para quem quer imprimir o noticiário. Para visualização na tela, é um saco! O Estadão poderia, então, oferecer os dois formatos – HTML e PDF – e ninguém precisava mais brigar por isso.

  4. Um teórico da conspiração poderia pensar que essa mudança foi causada devido à implantação dos novos planos Speedy com limitações de transferência, e que esses bucéfalos do Estadão fizeram essas páginas em PDF pra fazer os incautos pagarem taxas extras para a Telefônica. Só mesmo teorias sem nexo como esta para explicar tamanho retrocesso.

  5. Quando eu vi esta notícia, na sexta-feira, eu também fiquei puto.
    Só nos resta torcer para que eles levem um nó dos concorrentes que apostarem na Internet.

    []s

  6. Na Internet, não sei o que é pior: sites em flash ou páginas em PDF. Entrava (no passado mesmo) todos os dias nos sites de O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde devido ao meu trabalho até sexta-feira. Perdi uma grande fonte de consulta.

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