O último blogueiro

Manhã movimentada de uma quarta-feira qualquer em São Paulo. Em um vagão de metrô cheio, mas não abarrotado, Adriano está segurando uma edição impressa de “Regresso ao Admirável Mundo Novo” quando ergue a cabeça.

Acabara de ler algo sobre “o imenso trabalho que a natureza teve para que cada indivíduo fosse diferente dos outros”. Vê um ajuntamento de gente com fones de ouvido e olhar fixo no smartphone. “Muita gente estranha num mesmo lugar. Estamos todos no mesmo sentido… Ao mesmo tempo, cada um é sua própria direção. Todo mundo aqui, só que não”, pensa.

Guarda o livro em sua bolsa-carteiro. Desembarca, desvia de um ou outro “zumbi diante da tela” e segue caminhando. Não está num bairro familiar, mas as poucas memórias o surpreendem. “Aqui não era uma livraria?”, questiona-se diante de um desses minimercados de rede de arquitetura padronizada — como os “caixotes cinzentos envidraçados” que tomam conta da cidade.

Ainda resistem poucas casinhas antigas. Uma delas, de fachada simples, reboco branco descascando, piso de caquinhos vermelhos e portão de ferro com sinais de zarcão. Adriano não encontra o botão da campainha; decide bater palmas e chamar “ô de casa”. Como os Maias faziam, diria um tiktoker. “Era melhor ele ter visto a mensagem que mandei no Zap”, ri.

Um bonachão de meia idade caminha pelo quintal. Barba por fazer, cabelo em desalinho, camiseta desbotada, bermuda na altura do joelho. Abre o portão. Logo depois, os braços e o sorriso.

— Desculpa, era pra esse abraço acontecer… Ah, sei lá quando… E não consegui vir antes…

— Não seja besta! Vem! Entra! A casa é sua! Você veio! Está aqui. Agora!

Adriano senta no sofá de couro em estofado florido. Observa o piso de tacos irregulares, estantes de madeira maciça altas e abarrotadas de livros e quinquilharias. O sol da manhã reflete em um mochinho, que cumpre a função de mesa de centro.

Mal consegue tirar o smartphone da bolsa para fotografar alguma coisa ou pedir a senha do wi-fi. Levanta do sofá incomodado com os livros espalhados no sofá, empilhados perto do mochinho…

— Se segura aí, o café já está saindo!

Na porta da cozinha, segurando três ou cinco livros diferentes, puxa assunto daquele jeito clássico.

— Mas você sumiu, hein!

— Ué!? Estou exatamente aqui, no mesmo cantinho. Sobrevivemos à pandemia! Seguimos trabalhando! E, veja só, tem café! É tudo o que a gente precisa.

— É, só que você não posta mais nada por aí!

O anfitrião termina de verter água no coador, deixa a chaleira no fogão e respira antes do café terminar de passar. Começa a elocubrar sobre o que estamos fazendo da vida na Internet. No fundo, Adriano esperava exatamente por esse momento.

— Eu poderia ter telefonado, né? Você também poderia ter dito “me liga!”. Houve um tempo em que a gente dizia essas coisas com frequência. Agora a gente não pensa mais nisso, percebeu? E quando alguém lembra, põe na conta da correria.

Enquanto prepara uma bandeja com xícaras e biscoitinhos, seguiu.

— Você fez uma associação engraçada agora. Eu “sumi”, ou seja, eu “não existo” sob o seu ponto de vista, só porque não apareço nas plataformas. Seria muito cruel com você, com a gente, se esse encontro incrível só pudesse existir se a gente posasse pra uma foto e publicasse em uma plataforma dessas. Não acha? Inclusive…

Sem terminar de ajeitar biscoitinhos, corre para uma das estantes da sala, pega um livro e entrega para Adriano.

— Mmmhh. O meio é a mensagem! Essa frase é famosa! McLuhan, isso mesmo!

— Está certo disso? Veja a capa outra vez.

O meio é a massagem! Massagem!!!

Massagem! Ficaram repetindo “massagem” enquanto gargalhavam.

— Então. A nossa visão, digamos assim, ingênua, é a de que, para você saber como estou, você precisa receber a minha mensagem. A pergunta relevante, nesse caso, é: “o que ele disse?”, concorda? Questionar “por onde ele disse?” não parece tão relevante assim. Faz sentido?

Adriano balança a cabeça, positivamente.

— Pois é. Esquece. Os meios afetam todo mundo, independentemente do conteúdo. É a massagem, entende? Molde de cognição. E vou mais longe. O meio, hoje, te distrai. Desvia o seu olhar. Joga sua mente pra superfície. Você pode até estar conectado, mas em que lugar? Conversando com quem?

Enquanto faz a relação entre a “aulinha de McLuhan” e o vagão de metrô, Adriano encontra um copo vermelho de acrílico, guardando algumas canetas e pen-drives perdidos, enquanto empilha livros na estante de madeira.

— Olha isso! “Festa do Copo Vermelho, Vila Madalena, 20 de maio de 2006″… Nem lembrava mais disso!

Os dois viajam por longos minutos para aquela ação que pretendia divulgar uma famosa marca de bebidas (aquela do “João andarilho”) e de outras iniciativas semi-amadoras de marketing que só duas mentes saudosistas seriam capazes de resgatar. Como um desfile de sungas na Paulista ou uma fracassada chuva de chocolate Twix.

— Esse copo aqui é a prova de que você já foi um influenciador digital!

— De jeito nenhum. Basicamente, você está dizendo que já fui um jogador de tênis só porque batia uma bolinha de borracha com raquete de frescobol. Aliás, não dá nem pra comparar blogueiro e influenciador com qualquer atleta ou esporte. A diferença é…

Adriano se acomoda no sofá com cara de “continue, quero saber a diferença”. O livro da “massagem” do McLuhan reaparece.

— Vejamos. Se a estrutura massageia o pensamento, vamos entender o que um blog faz. Quem escreve ou, sei lá, pede pra um chat publicar, sabe que está acumulando ideias em ordem cronológica. Mesmo quem não fizer nenhum ajuste na ferramenta, consegue convidar quem clica a navegar por data. Também pode inventar rótulos, abrindo uma ou outra porta diferente. E é só isso.

— Tá. E por que isso é mais importante do que a mensagem?

— Porque essa é a única estrutura que define o contrato com quem lê. É a simplicidade como a condição de existência do conteúdo. Não tem promessa. Não tem uma utilidade imediata. Não tem certeza. Nem pedido para vir aqui badalar o meu sininho. Mas tem voz. Tem contradição. Tem uma tentativa de enxergar e compartilhar o que vê. Tem um convite permanente para conversar, entende?

— Ou um café.

A frase é um lembrete. O café está na cozinha. Caminham até lá, servem-se e voltam.

— Agora, veja o que você precisou fazer para que pudéssemos tomar café. O clique num texto qualquer, provavelmente alguma conversa presa num contexto do tempo e do espaço… Como a Festa do Copo Vermelho, vai. Houve um esforço aí. Então, num outro momento, vem outro clique. Lembrar o que viu antes, fazer conexões entre as ideias, comentar e voltar mais uma vez, no futuro, é um movimento 100% produzido pelo autor do clique. É o leitor que constrói seu esquema com o blog. A estrutura vira filtro. Quem não está disposto a conversar, não fica.

— É o meu caso…

— Isso. Esse é o contrato. Um blogueiro e seu público constroem a partir do pensamento. O texto é evento. As coisas são datadas, dizem respeito ao contexto apresentado nele. Também é processo. O que vai ser escrito amanhã pode ser bem diferente do que se publicou ontem, mas ambos coexistem. O registro da mente se movendo com tempo é parte do sentido.

— Entendi. O blog é o conteúdo que se recusa a virar estrutura.

— Bingo. Agora abre o seu feed aí. Escolhe qualquer plataforma.

Adriano descreve o que vê. Cenas absurdas e engraçadas, curiosidades, anúncios, comentários vazios sobre política, discursos motivacionais…

— Tudo isso aqui se baseia em performance. O vídeo aparece automaticamente e a rolagem infinita deixa tudo fácil. Não tem esforço, só hiper-atenção. E cada fragmento desses só se justifica se houver número. As coisas são ditas a serviço da plataforma. Das notificações que viram métricas.

Os dois caem em um vídeo de algum fofoqueiro comentando qualquer treta relacionada a perfis que nenhum deles ouviu falar antes.

— Olha que loucura. Até agora, não vi nada de quem escolhi acompanhar. Todas as outras mensagens servem pra provocar reação. Pode ser riso. Mas normalmente é raiva. Não tem contrato com o pensamento de quem fala, só energia dissipada e cansaço. Amanhã ninguém vai lembrar do que provocou tanta reação difusa.

Adriano quer lembrar dos memes incríveis que recebeu recentemente. Tenta recuperá-los para mostrar mas não consegue. Paralelamente, saltam da estante livros sobre crônicas, ensaios, gêneros, experimentos. Falam ainda sobre esportes, viagens, família, esposa, filhos, crianças, jovens, pessoas, histórias, tempo, enfim.

Antes de ir, Adriano pergunta.

— Você não fica triste em saber que essa visão sobre blogs não existe mais?

— Não sei. Ainda fico mais triste com a fadiga de quem vive nas plataformas. Com nosso tempo sendo consumido por algum esquema ao invés da conversa. Gosto de pensar na utopia na qual, lá na frente, alguém vai perceber que está trocando algum indicador sem sentido pela chance de pensar. É muita ingenuidade?

A resposta que Adriano deixa para esta pergunta é um abraço, acompanhado por um “vê se não some”.

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Se o Adriano homônimo ao personagem estivesse entre a gente, perguntaria “por que esse texto ao invés de outros que nunca escrevi, como aquele da esfinge que pegou minha carteira de motorista”. Lembraria que apenas um indivíduo, em 20 e poucos anos, o chamou deliberadamente de Adriano.

Das últimas coisas que ele registrou, fica essa frase: “Não dê muita importância às coisas. Tudo vai se perder no tempo. Inclusive nós.”

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Quando penso na expressão “o último blogueiro”, vejo o Rafael Galvão.

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Compartilho o desejo do Cris Dias: escreva. E feliz ano novo.