Vai, Ferrari, epílogo: chupa McLaren!

Tudo começou assim:

– Pois eu acho que o Massa não vai ganhar coisa nenhuma.

A frase acima veio carregada de desconfiança, misturada com uma idolatria ao espanhol Fernando Alonso. Isso foi em março, antes da temporada 2007 de Fórmula 1 começar. Tente voltar no tempo e reencontrar aquele panorama.

– Hmmmmm… Olha, o carro dele é bom, talvez o melhor entre os que treinaram na pré-temporada. E o companheiro de equipe dele carrega a fama de ser azarado. Pode ser que ele consiga, sim.

Minha resposta não ignorava a experiência, tampouco a gana do “príncipe das Astúrias” em conquistar o tricampeonato. Mas acreditava naquele menino de Botucatu, outrora um mal aluno na escola mas que, com o apoio dos pais, mostrou ser um bom filho e se tornou um grande piloto. Além disso, a frase termina lembrando o histórico de Kimi Raikkonen, um ex-bi-vice-campeão que até o último domingo exibia dois rótulos em sua testa: “bêbado” e “azarado”.

– Então tá. Se o Massa ganhar, eu pago. Mas se der Alonso, você já sabe o que eu vou pedir…

Caímos na besteira de polarizar a disputa antecipadamente. E o mundo conheceu Lewis Hamilton. Um garoto humilde e de infância difícil, mas que após conhecer Ron Dennis, dono da McLaren, viu sua vida mudar. Em silêncio, subiu um degrau por vez até chegar ao posto de “companheiro de equipe”, ao lado do indiscutível Alonso. Em seis meses, pontuando em cada prova e sustentando a liderança do Mundial, ninguém duvidava: o “Robinho” inglês era fenomenal.

No meio do ano, episódios envolvendo espionagem mancharam a reputação da equipe inglesa. E enquanto comiam meia aliche meia portuguesa, a FIA tirou os pontos da McLaren e deu uma multinha leve de cem milhões. Os pilotos foram poupados, o que segurou seus ânimos. Coisa que a Ferrari parecia ter perdido após o início bombástico da dupla Hamilton e Alonso: antes da punição, a escuderia italiana até falava em não desistir e lutar até o fim. Mas ningém dava muita bola.

Veio o GP da China e Lewis Hamilton precisava de uma vitória simples para confirmar o melhor desempenho de um estreante na história da categoria. Nessa altura, a relação entre Alonso e o resto do planeta (inclusive Espanha) já não era das melhores. Reclamava com insistência o fato de Ron Dennis e seus funcionários privilegiarem Hamilton, deixando-o chupando o dedo. A sensação de “saco cheio” era tanta que Robinho titubeou e viu sua sombra espanhola voltar a sonhar com o tri. Até o “azarado” Raikkonen, que estava a 17 pontos do líder, acumulou esperanças após vencer em Xangai.

Enfim, os novos simpatizantes de Robinho já prepararam a faixa para Interlagos. Afinal, o piloto mais regular de 2007 só precisava de um quinto lugar (uma grande moleza) para confirmar o título. Nem reclamou quando Felipe Massa, o único do “quarteto fantástico” fora da disputa, fez o melhor tempo do treino classificatório. Como se a festa brasileira e ferrarista fosse a do sábado, e a dele ao lado da McLaren, no dia seguinte.

Finalmente, a última largada do ano. Massa seguiu na frente, enquanto Hamilton viu Raikkonen ultrapassá-lo. Ainda no S do Senna, foi a vez de Alonso passar. Tudo bem, rapaz. Um quarto lugar não era ruim, e a corrida estava apenas começando. Na descida do lago, a primeira rateada: o novato fez a curva por fora, saindo da pista. Devia estar tremendo, amarelo. Era a única explicação possível para, poucas voltas depois, ainda ter deixado sua flecha prateada em ponto morto, perto da subida dos boxes, indo parar na péssima-oitava (18) posição. Em duas corridas, Hamilton conseguiu uma incrível proeza: de nove dedos no troféu, passou a não ter nenhum.

Já o “queridinho” Alonso, que sustentou sua inútil terceira posição até o fim, viu Massa agir como um “companheiro de equipe” deve fazer, ainda que a contragosto: abriu espaço para Raikkonen ficar na única posição que o interessava e se manteve em segundo, impedindo o espanhol de beliscar dois pontinhos. Ironicamente, depois de tanto chorar por causa do tratamento desigual, acabou com o mesmo número de pontos e vitórias de Hamilton…

Pois o azarão da temporada, aquele que praticamente ninguém apostava (a não ser a Carol), foi o campeão mundial. Ficou no ar uma inegável sensação de justiça: quem mais venceu no ano acabou campeão, ao invés de algum piloto metido em escândalo. Quem teve o privilégio de acompanhar o GP ainda levou de brinde as atuações de Nico Rosberg e de Robert Kubica – que jamais serão punidos por conta da “gasolina batizada”. Ah, sim: Interlagos marcou ainda o ano de Barrichello, que conseguiu proeza ainda mais fantástica: anotar zero pontos em 17 corridas.

Então, é isso. Em 2008, é Vai Massa, Boa Raikkonen e chupa McLaren! Enfim, são coisas assim que me fazem sentir pena daqueles pobres coitados que não vêem graça no esporte.

(Para acompanhar e entender de verdade o mundo do automobilismo, leia a Bárbara Franzin, o Ivan Capelli, o Livio Oricchio, o Fábio Seixas e o Flávio Gomes. Divirta-se ainda com o melhor veículo especializado em F1, o Red Bulletin).

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (8)

  1. Andrézão queridão,
    Nunca fui com a cara desse Hamilton. hehehe
    Acho que ele parece coroinha de igreja, não curto gente assim, muito certinha, sempre desconfio delas.
    Curto o pessoal que se xinga, manda “toma no culo”, manda “aprender a dirigir”, como o Massa e Alonso, gosto do Raikkonen ser beberrão, Sempre fui mais Piquet à Senna. Acho que automobilismo tem essa aura de rebeldia, não combina com “bons moços”. A McLaren roubou segredos da Ferrari e o Alonso entregou tudo que podia pra jogar a merda no ventilador, eu adorei.
    Enfim, acho tudo com gosto de vitória e vingança. rsss

    Abração queridão

  2. Chupa, chupa, chupa, chupa, chupa, Hamilton! O que a McLaren fez com o Alonso nesta temporada foi asqueroso. Bem feito.

    E o Hamilton pipocou bonito – o que é natural para um moleque de 22 anos. Eu, você e todo mundo pipocaria na mesma situação… Normal. Mas bem feito.

    ;)

    E a Carol está consagrada mesmo!

  3. Ei, eu sempre torci pro Raikkonen desde que ele entrou na F1!

    Eu também sempre torci pro Wyle Coyote, pro Frajola, pro Tom, etc… (é sério, não ria!)

  4. Pô, que droga, não deu pro Luiz Miltão. Tava torcendo pra ele também! Mas ano que vem é ou ele ou Massa.

    E não acredito que vc esqueceu de mencinar o Nakajima atropelando os dois mecânicos, huahuahua! XD

    Abraço!

  5. Confesso que torcia pro Hamilton. Mas não achei ruim o Raikkonen ganhar, não.

    A temporada 2008 promete! Aliás, falando em Piquet, será que o Nelsinho não vem por aí?

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