Sobre como funciona uma desconferência

Já devo ter escrito algo parecido, assim como certamente você já leu sobre o assunto algumas vezes. Mesmo assim, é importante detalhar algumas considerações para quem se interessar em participar de um encontro baseado no modelo de “desconferência”.

Existem muitas formas de reunir cabeças no intuito de promover a troca de idéias, aprendizado e estímulo ao networking. Entre muitos fóruns, simpósios e similares, a desconferência vem ganhando novos adeptos no mundo todo. Ao contrário do modelo tradicional, cuja organização é determinada “de cima para baixo” (horários, temas e palestrantes definidos previamente), esse tipo de encontro é totalmente “bottom-up”, ou seja, descentralizado e emergente.

Isso significa que, ao chegar nesse ambiente, não haverá lista de palestrantes ou agenda de atividades. Todos são convidados a debater, a expor suas idéias e trocar informações sobre assuntos comuns. A primeira vista, parece uma “feira livre”. Apesar disso, há o mínimo de organização. Previamente, gente interessada em conversar manifestam suas expectativas e estabelecem temas comuns em listas de discussão ou uma wiki.

Mesmo quem não pensou em nada com antecedência pode ficar tranquilo: normalmente, a primeira parte de uma desconferência é a apresentação dos presentes, que revelam quais assuntos deseja compartilhar. Em seguida, todos seguem para organizar os painéis, que relacionam faixas de horário e espaços disponíveis para debate.

Os grupos de trabalho formados espontaneamente devem obedecer a faixa de horário planejada no painel, para que ninguém se perca. Não é preciso encerrar um debate com definições e conclusões: as lacunas não preenchidas sejam respondidas depois, com outras pessoas que também estiveram lá. O mapeamento das discussões é um dos segredos para o sucesso do evento.

Mas há um segundo fator determinante para a coisa funcionar: o interesse do participante em enriquecer o debate. É importante chegar ao local dispostos a contar algo interessante, debater de forma civilizada e captar, rapidamente, a dinâmica do modelo auto-regulado. Quem não está familiarizado com o formato colaborativo corre o risco de se sentir deslocado, esperando por alguma “palestra” ou “alguém da organização decidir o que vai ser”. Ou pior: achar que, por conta do formato, é possível abrir a boca para palpitar sobre tudo, como um especialista. Duas coisas que não deve existir em uma desconferência.

É moleza desconfigurar eventos como esse. Basta planejar a desconferência em um auditório só, sem reservar ambientes descentralizados. Ou ainda ignorar o painel ou qualquer outra forma de indicar aos participantes o que está sendo discutido. Alguns dos últimos encontros entre blogueiros pecaram justamente nesses pontos – talvez porque já não há mais vontade em discutir, apenas juntar a galera e curtir a vibe. A Ceila Santos prestou atenção nestes e em outros detalhes na organização do NewsCamp, uma das primeiras aplicações do modelo de desconferência entre jornalistas, neste último sábado. Só não contava com um deslize no “segundo fator”.

Quando consegui chegar ao Espaço Gafanhoto, ao lado do Gustavo Jreige, já tinha perdido a primeira parte. Adivinhem: o assunto descambou para monetização e a falta de um mercado consumidor. No almoço, ainda ouvi histórias ótimas sobre aquele debate da Campus Party. Na parte final, as turmas se dividiram: fui parar na discussão sobre um projeto promissor voltado para a cobertura eleitoral pelos cidadãos brasileiros.

Mas antes, fiquei surpreso com a lotação do auditório principal do Gafanhoto. Muitos ali eram estudantes universitários, que perderam a tarde de sábado para conversar com jornalistas, levar suas inquitações e colaborações… Enfim, temperar o caldeirão de idéias borbulhantes. Antes mesmo do bate-papo começar, comentei com o pessoal: “normalmente é assim mesmo, começamos com pouca gente e, quando menos se espera, mais pessoas aparecem”.

A única que apareceu foi a Ceila, minutos depois. “Pessoal, vamos continuar lá embaixo? É que foi todo mundo embora, e não podemos deixar o espaço vazio…”.

Como assim “vazio”? E onde foram parar aqueles estudantes todos? Onde foi parar a potencial oportunidade? “Ih, houve uma debandada que até agora não consegui entender”, explicou a Ceila.

Eu também não vi, mas os fragmentos que ouvi não são muito positivos. A professora, responsável pela presença dos alunos ali, certamente chegou com suas expectativas. Acabou entrando num debate com o Gilberto Pavoni Jr. sobre a importância dos blogs, passando pela obsolescência do laptop cor-de-rosa de um dos participantes. Então a professora falou em “falta de respeito das pessoas que foram parar em outro ambiente sem dar satisfações”, discursando em seguida sobre “o nível destas pessoas que estão aqui para ajudar vocês”.

E saiu, certamente indignada com o tratamento dispensado aos seus convidados. Não me surpreende que os estudantes, perdidos na sala, também tenham ido embora sem utilizar o quadro branco e a caneta preta para propor algo como “ensino de jornalismo nas universidades”. Apenas uma menina levou mais tempo para sair, segundo a Ceila. “É que ela queria que eu assinasse um documento, comprovando que ela esteve aqui”…

Definitivamente, nem todo mundo está preparado para o modelo de desconferência. Torço para que a explicação acima possa contribuir ao menos para esta forma de convivência. Por tabela, isso pode repercutir positivamente em encontros parecidos. Ou em qualquer relação humana.

Em tempo, veja também as observações do Bruno Calixto, da Ceila Santos (duas vezes) , do Alexandre Carvalho, do Gilberto Pavoni Jr. e da Caru Schwingel.

Atualizado: só pelas primeiras mensagens (aqui, aqui e aqui), vê-se que os alunos realmente não conseguiram aproveitar o encontro…

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (5)

  1. Eu já estava prestes a dormir, quando fui avisado pelo feed sobre teu post.

    Já publiquei algo sobre o NewsCamp no blog oficial do evento, mas tinha deixado para escrever sobre o episódio com a professora amanhã. Acho que vou mudar de idéia.

    Acredite: eu ainda não digeri aquilo que aconteceu e fico espantado em saber o quanto os estudantes de comunicação estão despreparados para as mudanças que vêm ocorrendo neste século, fundamental para a formação deles.

  2. Eu acho q uma desconferência onde se limita o “des”, não existe. E o que eu fiz foi desconcordar do hype ou de uma visão simplista do fenômeno.
    Eu explico a pendenga sobre mandar a aluna jogar o Vaio fora no meu blog… para quem se interessar em ouvir meu lado. Espero q ela tenha entendido q representava um exemplo de um comportamento chique, mas obsoleto. Tb mostro um pouco… no meu blog tem muito disso… pq tudo isso está virando uma conversa de comadres.

  3. Eu não fui no NewsCamp porque achei que a discussão ia ficar em cima do tema ainda ‘fresco’ de jornalistas x blogueiros. Mas vendo o q aconteceu através de blogs, vejo que perdi coisas interessantes. Essa de ensinar como é ( ou não é ) uma desconferência devia ser até vista como uma oportunidade para montar um grupo de trabalho e visitar as faculdades de jornalismo, mostrando outras possibilidades de formatos de discussão. Já que eles não estão entendendo, vamos mostrar do que estamos falando.
    1abs

  4. Anderson, acho que essa era a proposta mesmo, sair dessa discussão idiota que não leva a lugar algum. Siga alguns links e vai encontrar material interessante sobre as discussões que rolaram por lá. Tenho certeza que o debate será ainda mais interessante na próxima edição.

    André, parabéns pela explicação. Como percebeu, muita gente ainda não sacou o que é desconferência e seu post pode ser a referência perfeita.

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