O amor natural

Você sabia que Carlos Drummond de Andrade também escreveu poemas eróticos? Desconhecia essa parte de sua história até esses dias, quando recebi uma sequência de versos retiradas do livro O Amor Natural, publicado em 1992.

Isso mesmo, cinco anos após sua morte. Especialista em silêncio, o mineiro deixou para seus herdeiros a tarefa de publicá-los – talvez para não precisar explicar qual foi sua fonte inspiradora… Mas enfim. Independente da associação dos textos à uma “relação extracampo”, confesso que fiquei surpreso – especialmente por não ser muito fã de poesia… São palavras fortes e audaciosas, mas ao mesmo tempo sem ser vulgar.

Como raramente (pra não dizer nunca) esse tipo de literatura aparece aqui, vamos ver como nossos visitantes reagem.

A língua girava no céu da boca. Girava! Eram duas bocas, no céu único.
O sexo desprendera-se de sua fundação, errante imprimia-nos seus traços de cobre. Eu, ela, elaeu.
Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu. A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.
A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência. O sexo reintegrou-se. A vida repontou: a vida menor.

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
de magnificar meu membro.
Sem que eu esperasse, ficastes de joelhos
em posição devota.
O que passou não é passado morto.
Para sempre e um dia
o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.
Hoje não estás sem sei onde estarás,
na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo não te escuto não te aperto
mas tua boca está presente, adorando.
Adorando.
Nunca pensei ter entre as coxas um deus.

Você meu mundo meu relógio de não marcar horas; de esquecê-las. Você meu andar meu ar meu comer meu descomer. Minha paz de espadas acesas. Meu sono festival meu acordar entre girândolas. Meu banho quente morno frio quente pelando. Minha pele total. Minhas unhas afiadas aceradas aciduladas. Meu sabor de veneno. Minhas cartas marcadas que se desmarcam e voam. Meu suplício. Minha mansa onça pintada pulando. Minha saliva minha língua passeadeira possessiva meu esfregar de barriga em barriga. Meu perder-me entre pêlos algas águas ardências. Meu pênis submerso. Túnel cova cova cova cada vez mais funda estreita mais mais. Meu gemidos gritos uivos guais guinchos miados ofegos ah oh ai ui nhem ahah minha evaporação meu suicídio gozoso glorioso.

Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senhora minha não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso redentor minha senhora não dê importância a um simples mortal vagabundo como eu que nem mereço a glória de quanto mais de… não não não minha senhora não me desabotoe a braguilha não precisa também se despir o que é isso é verdadeiramente fora de normas e eu não estou absolutamente preparado para semelhante emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem fôlego sem saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coerente na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito Santo minha senhora eu eu eu ó minha senh… esses seios são seus ou é uma aparição e esses pêlos essas nád… tanta nudez me deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu …

Era manhã de setembro
e ela me beijava o membro
Aviões e nuvens passavam
coros negros rebramiam
ela me beijava o membro
O meu tempo de menino
o meu tempo ainda futuro
cruzados floriam junto
Ela me beijava o membro
Um passarinho cantava,
bem dentro da árvore, dentro
da terra, de mim, da morte
Morte e primavera em rama
disputavam-se a água clara
água que dobrava a sede
Ela me beijava o membro
Tudo que eu tivera sido
quanto me fora defeso
já não formava sentido
Somente a rosa crispada
o talo ardente, uma flama
aquele êxtase na grama
Ela me beijava o membro
Dos beijos era o mais casto
na pureza despojada
que é própria das coisas dadas
Nem era preito de escrava
enrodilhada na sombra
mas presente de rainha
tornando-se coisa minha
circulando-me no sangue
e doce e lento e erradio
como beijara uma santa
no mais divino transporte
e num solente arrepio
beijava beijava o membro
Pensando nos outros homens
eu tinha pena de todos
aprisionados no mundo
Meu império se estendia
por toda a praia deserta
e a cada sentido alerta
Ela me beijava o membro
O capítulo do ser
o mistério de existir
o desencontro de amar
eram tudo ondas caladas
morrendo num cais longínquo
e uma cidade se erguia
radiante de pedreiras
e de ódios apaziguados
e o espasmo vinha na brisa
para consigo furtar-me
se antes não me desfolhava
como um cabelo se alisa
e me tornava disperso
todo em círculos concêntricos
na fumaça do universo
Beijava o membro
beijava
e se morria beijando
a renascer em setembro.

Tentei ir atrás para comprar e descobri que a última edição está esgotada – isso depois de longos dias procurando por O Amor Bacanal (ok, não resisti a piada fraca, podem me trucidar).

(Postado em 29/09/2005)

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (7)

  1. Que coincidência vc ter republicado esse post! Eu tinha dado este livro de presente a uma amiga ano passado lá em BH, e lemos alguns poemas juntos (nunca ler poemas foi tão bom). Quando voltei pra minha cidade não o achei. Então fui procurar poemas desse livro na internet e achei este post. Mas o poema que eu mais gostei foi esse:

    A língua lambe as pétalas vermelhas
    da rosa pluriaberta; a língua lavra
    certo oculto botão, e vai tecendo
    lépidas variações de leves ritmos.

    E lambe, lambilonga, lambilenta,
    a licorina gruta cabeluda,
    e, quanto mais lambente, mais ativa,
    atinge o céu do céu, entre gemidos,
    entre gritos, balidos e rugidos
    de leões na floresta, enfurecidos.

  2. É a tradução mais que perfeita para as delícias do amor. Viva o imortal poeta, que soube tão bem surpreender-nos com a interpretação do indizível!

  3. Bem , meu nome é palloma…

    Eu sou brasileira, tenho 14 anos
    Gosto muito de poesias e poemas
    Mas eu nunca pensei que carlos o poeta, teria feito esses tipos de poesias, mas gostei, entre tanto, ele deve ter feito esses poemas, e pleno amor com alguém, em algum romantismo, que ele se expressou totalmente, como se sentia perto dessa tal moça..

  4. O poeta, acima de tudo,vem nos mostrar que tambem e humano,que tem desejos,como qualquer outro homem e mostra isso com extrema elegancia.

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