Feliz ano novo. Mas é por sua conta.

– Oi! Quanto tempo!!!

– E aí! Saudades suas!

– Também… Você está bem?

– Só uma saudade melancólica de um amor que perdi… Mas já me reacostumei com a ideia de que sou um fracasso com relacionamentos. Talvez eu queira dar um passo maior que a perna e acabe quebrando, igual ao Spider. Fora isso, eu estou bem, sim.

– Bem… Não posso me queixar, estou de boa com o meu mozão. Mas você é o quinto conhecido que falou em separação esse ano, e só um comentou que foi numa boa… Uma outra precisou ser internada, com depressão. Agora, deixa eu te contar: perdi meu emprego. A empresa foi comprada e mandaram embora uma galera em agosto. Até ganhei algum dinheiro, mas fiquei com uns perrengues para manter a casa, com a minha mãe. Aluguel, telefone, internet, água, luz, arroz e feijão… Não guardei nada para o meu enxoval. Foi no mesmo mês que roubaram meu carro. E no mesmo dia que enterrei meu pai, em abril. O baque foi forte, minha irmã estava grávida e, nervosa, perdeu o bebê. Ainda bem que a minha tia segurou firme, estava há poucos dias em casa depois de colocar um marcapasso. Também descobri que uma amiga tem câncer e nem pude apoiá-la direito. Outro ficou viúvo de um jeito trágico: a esposa caiu num córrego depois de um acidente de moto e se perdeu na enxurrada. E se eu te disser que fui a um único casamento e a seis velórios? A cada perda, pensava em morrer. Como se eu não desse valor nenhum a minha vida. A bem da verdade, já tive meus motivos… Um dia eu te conto. Eu ainda me sinto gorda, meu cabelo está um lixo, minhas olheiras ocupam todo o rosto… Digamos que cheguei aqui no fundo do poço. Acho que só posso subir.

– Puxa… Nem sei o que te dizer.

– Não diga nada! Nem quero comparar as nossas tensões. Só encare o ano que está vindo sabendo que, pior do que isso, não vai ser. Vamos para a próxima, eu e você. Existem outras histórias possíveis além daquelas que você imaginou, ou das que a gente vive sem pedir. Depois de uns dias, sinto que estou me divertindo de novo. Tem horas que a dor é tão grande que as outras coisas que acontecem perdem a importância. Aí fica fácil levar tudo com bom humor!

– Nossa… A vida é mesmo imprevisível, só nos resta lidar com o que aparece. Mas eu admiro demais a sua força!

– Obrigada! De verdade? Estou bem. Até animada! Mas olha, não vou mais te amolar. Fique bem, e aproveite as festas!

– Você também. Beijo grande!

Para amenizar o peso do texto, uma tirinha argentina
***

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre

Drummond, Receita de Ano Novo, publicada no Jornal do Brasil em dezembro de 1997.

***

Sabe aquela velha esperança de que algo mágico possa acontecer e, num estalo, as coisas mudem? Deixe a tal magia acontecer pelas mãos de quem gosta de ti ou do cosmos, desde que você se levante e faça acontecer. A felicidade é para quem luta por ela todos os dias.

Feliz dia novo.

André Marmota fala, lê e escreve razoavelmente em português castiço, engrish macarrônico e portunhol com legendas. Quer saber mais?

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