E ainda ganhei uma Copa!

Longe de mim o rótulo de “palmeirense”, mas tenho que registrar aqui minha admiração pelo goleiro Marcos, verdadeiro símbolo da torcida do Palestra e um dos responsáveis pelo pentacampeonato em 2002. Desde 1992 no clube do Parque Antárctica, “São Marcos” foi canonizado pela torcida em 1999, quando o goleiro assumiu a condição de titular após uma contusão de Velloso. Eliminou o Corinthians na semifinal da Libertadores e viu um tal Zapata, do Deportivo Cali, chutar um pênalti para fora na decisão. Aquele ano só não foi melhor por causa do Manchester, mas enfim.

Dois anos antes do Mundial da Coréia e do Japão, Marcos começou a sentir dores no punho esquerdo. Jogou a Libertadores no sacrifício, mas perdeu para o Boca Juniors. Desde 2000, quando passou pela primeira cirurgia, Marcos nunca mais foi o mesmo.

Então veio o penta, o rebaixamento do Palmeiras, a disputa da Série B… Nem mesmo o problema no punho afastou o goleiro da seleção – tanto que Marcos vinha sendo chamado por Parreira até sentir uma lesão muscular na coxa direita, que lhe tirou o direito de ser reserva de Dida na Alemanha. Apesar disso – e do braço quebrado – foi o punho esquerdo de Marcos que lhe deu mais trabalho.

Um dos maiores períodos de inatividade de Marcos foi em 2004. Em maio, durante um treino da seleção, contundiu a mão esquerda: sofreu uma lesão no polegar e, ainda por cima, sentiu – adivinhem – o punho. Passou pela segunda cirurgia, praticamente para limpar e recompor os movimentos do local. Isso deixaria o goleiro fora de combate por todo o ano, só retornando em janeiro de 2005, no Campeonato Paulista.

Era um ano especial para o Verdão: seu retorno à Séerie A depois do título da segundona. A equipe de Estevam Soares ainda sonhava com o título (que seria do Santos, após uma amarelada sensacional do Atlético-PR). Embalada com seis vitórias seguidas, a equipe foi derrotada pelo Guarani (vice-lanterna, que acabaria rebaixado) por 2 a 0, em seu próprio estádio. Isso foi em 20 de novembro.

Na terça-feira seguinte, dia 23, Marcos apareceu na sala de imprensa da Academia de Futebol. Recuperado da cirurgia, o goleiro já treinava com o grupo desde o começo do mês, e estava até ansioso para voltar ainda naquele ano. Naquela tarde, os jornalistas conversaram muito com o goleiro.

– Marcos, por que você passou tanto tempo sem falar com a imprensa?

– Porque vocês são muito chatos! – Muitas gargalhadas antes da resposta de verdade. Ele não dava entrevistas em respeito a Sérgio, então titular.

Foram toneladas de assuntos. Desde as especulações sobre uma provável saída para Cruzeiro ou Arsenal (“só saio se o Palmeiras quiser”), até a derrota para o Guarani (“turbulência e pressão mesmo é a segunda divisão, o resto acontece”). Mas a conversa girou mesmo em torno da contusão. Marcos explicou detalhadamente o seu problema – que até o ano passado, quando Leão o afastou, ainda o incomodava.

“Não foi no mesmo lugar em que fiz a cirurgia de 2000, mas na mesma mão. Aproveitei para fazer uma faxina geral, retirar pedaços de cartilagem. Agora ainda dá uma travada, mas estou trabalhando com calma. Não sei se ainda jogo neste ano, mas minha mão não está mais doendo. Estou louco para fazer um treino coletivo. Ainda tenho mais duas semanas. Tenho uma esperancinha de jogar uma, ou até duas partidas esse ano”, dizia.

Mas a grande revelação daquela tarde foi outra. Desde a cirurgia de 2000, Marcos nunca teve total mobilidade no punho esquerdo. Isso dificultava seu trabalho em campo, especialmente quando a bola vinha mais forte. Ele não podia agarrar, mas sim espalmar com segurança para evitar o rebote, além de não sacrificar mais a mão.

– Quer dizer então que, entre 2000 e 2004, entre uma cirurgia e outra, você jogava com a mão esquerda dura?

– E ainda ganhei uma Copa! Rá!

Mais risadas proporcionadas por este profissional dedicado, guerreiro e admirado não apenas pelos alviverdes.

(Postado em 13/03/2007, dias após Marcos, aos 33 anos, ter quebrado o braço esquerdo. Pouco mais de dois anos depois, o lado alviverde do país celebra a capacidade do goleiro após defender três pênaltis e garantir a classificação palmeirense para as quartas-de-final da Libertadores.)

Comentários em blogs: ainda existem? (10)

  1. Para palmeirenses, são-paulinos, corintianos, colorados e etc, Marcos é uma unanimidade. Pena que alguns jogadores envelhecem.

  2. O goleiro alemão foi considerado o melhor jogador da Copa de 2002. Como, se o Marcos foi muito melhor que ele na competição? Não teve nenhuma falha, enquanto o alemão, entre outras lambanças, teve a ingenuidade de soltar uma bola, em plena final, nos pés do Fenômeno.

    Os votantes deviam ser corintianos.

  3. Marcão é dessas figuras raras, sobretudo no mundinho do futebol, onde os ídolos de verdade ficaram no passado.

    Marcão é quase um Rogério Ceni.

  4. São Marcos é ídolo! Deve ser lembrado com todo o respeito e adoração por aqueles que entendem um mínimo de futebol.

    O tal do Rogério não chega nem no punho machucado do Marcão. E, para a sorte da nação palmeirense, Diego já dá conta do recado.

    PS: Não sabia que vc já tinha sido setorista do Verdão, André…

  5. marcos não é so um goleiro, ele é o goleiro!a camisa n 1 deveria ser imortalizada em sua homenagem quando parasse de dar seu ‘show’, sorte nossa{nação palmeirense}que de diego, o cavalhiere e um futuro mito também, será ‘são diego’. enfim somos todos{palmeirenses}sortudos por termos goleiros tão espetaculares…{velloso;sergio;} qual é o do corinthians mesmo? e o do santos é um doido so faz penalti. quando marcão parar tem rogerio pra enganar mas não se compara né? 100% são marcos….

  6. Confessa que você é palmeirense, André Rosa… hahahahahahahahaha!

    Quanto ao Marcos, eu só posso assinar embaixo de tudo o que você escreveu de bom (e verdadeiro!) sobre ele. ;)

  7. Atualizando meus pitacos: nem alguém que torceu para o Sport, como eu, conseguiu ficar chateado com a classificação do Palmeiras.

    A redenção (mais uma!) de São Marcos é dessas histórias bonitas que o esporte conta para a gente de vez em quando.

    E Marcão é o maior goleiro da história do Palmeiras – já deixou Oberdan para trás – e, talvez, o maior ídolo palmeirense de todos os tempos (sim, maior que Ademir).

  8. Marcos já subiu de status: passou de santo para um deus… rs

    Marmota, uma dica: sempre que for postar links da página velha da Gazeta, digite “herzog” no lugar de “www”. Assim, não há o problema de o link quebrar para boa parte dos leitores.

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